Ângulo inverso

Nuno Santos

Nuno Santos

Nuno Santos

O futuro do Sporting

A crise do Sporting tem várias dimensões, desde logo porque ao miserável ataque de Alcochete se somam as graves suspeitas de suborno de jogadores e árbitros.

Convém anotar que se o primeiro caso, apesar da extrema gravidade, não é exactamente inesperado - à violência nos campos de futebol e imediações, que tem tido vários episódios, é preciso juntar um padrão no clube que conduziu a esta desgraça - já o segundo caso provocou o espanto e (em mim) a indignação: o Sporting de Bruno de Carvalho tem se apresentado como o grande defensor da verdade desportiva liderando mesmo as denúncias sobre más práticas, designadamente no Benfica.

Seria a suprema ironia e -pior - o sinal de que tudo está errado se o Sporting estivesse agora envolvido em casos em que a verdade desportiva é adulterada.

Estas são as duas questões macro e delas decorrem uma série de reflexões.
Por partes:

DEMISSÃO SIM OU NÃO?

A linha chegou ao fim para Bruno de Carvalho, o pedido de uma assembleia geral extraordinária é um expediente. Mais um.

Se Bruno sair pelo seu pé presta um último bom serviço ao clube. Fui crítico severo da sua presidência no início, reconheço o enorme mérito da sua ação em muitas áreas e apoiei por isso a sua reeleição. Agi sempre de acordo com a minha consciência e é esse facto que me deixa liberto para, na condição adepto do Sporting, escrever agora que o seu tempo chegou ao fim.

Não o diabolizo, nem entro em julgamentos sumários. Já estão em marcha e outros se seguirão.
O Sporting saberá regenerar se, e é normal que esse processo leve tempo. Que tenha custos.Que seja doloroso. É o preço a pagar. 

No imediato é preciso bom senso. Entregar o poder, por exemplo a Carlos Vieira, num
momento delicado em termos financeiros e com a preparação da nova época pode ser uma solução a considerar. Solução temporária. Mas é preciso que Bruno de Carvalho dê esse passo. E que Vieira aceite, claro.

O desfile de putativos candidatos que já começou nas televisões (apesar de eles dizerem que não...) não é nada de novo mas é tão triste como sempre.

AGRESSORES E CLAQUES

Os 23 detidos que estão para já entregues às autoridades devem ser julgados é exemplarmente punidos, não apenas no plano social.

Devem ser banidos dos estádios de futebol e dos recintos desportivos em geral. O que fizeram não tem perdão. O Sporting deve identificar esta gente e expulsa la.

Em relação às claques oficiais tem também a oportunidade de redefinir o território de actuação. Se for necessário acabar com o apoio isso deve ser feito sem a menor hesitação.


POLÍTICA, FEDERAÇÃO E LIGA

Depois de dois secretários de estado a dizer banalidades, ontem o poder político apareceu em força.

Entre vexados e chocados que fique claro que o ponto não são as palavras ou os estados de alma. Este Governo (e o Presidente, pela sua natureza) têm andado de braço dado com o futebol quando há festa, mas nunca sujaram as mãos. Chegou a hora. E não é preciso nenhuma nova Autoridade, basta ser rigoroso no cumprimento da Lei. E não ter medo.

Federação e Liga também se ficaram pelas palavras de circunstância num tempo que era de ação. Ouvir Pedro Proença a pedir "reflexão" é penoso.

JOGO, SIM OU NÃO?

Com certeza que o Aves nada tem a ver com a situação, mas cancelar e remarcar o jogo era uma decisão sensata - em termos de segurança - e que daria um sinal poderoso de que estamos perante uma situação excepcional que pede uma ação excepcional.

No domingo, e apesar do comunicado dos jogadores, o Sporting estará diminuído, a festa será sempre postiça, a segurança anormal e o ambiente pesado. Ora, nada disso é bom para o futebol nem sequer para a indústria do futebol.

SUSPEITAS

Neste caso como noutros a investigação jornalística fez se a par da investigação judicial e, vamos ser claros, o problema não está no jornalismo.

O Sporting no comunicado da noite de ontem deveria ter feito uma referência explícita a estes acontecimentos e, mais, deveria ter afastado até conclusão das investigações os dois colaboradores, um deles o líder da estrutura do futebol.

Se o que aí vem é um assunto sério ou não ainda é cedo para responder.

E AGORA?

Nestes dias de chumbo o mais difícil tem sido explicar ao meu filho pequeno o que está a acontecer.

Eis aquilo todos temos que pensar - o Sporting e o futuro.

16.05.2018