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De memória, casos de vergonha na arbitragem que perdurarão: há o incrível Calabote; o quinhentinhos Francisco Silva; depois, o escandaloso Apito Dourado; o ridículo caso do vice-presidente do Sporting que, não logrando corromper, punha dinheiro na conta do árbitro.
Agora, surge o caso, ainda no início, dos emails trocados entre um avençado do Benfica e um ex-árbitro. Lamentavelmente, um comunicado da Procuradoria-Geral da República (PGR) impediu o efeito surpresa que seria desejável na investigação aos indícios de crime que o diretor de comunicação do FC Porto denunciou. Depois de a PGR anunciar um inquérito, muito provavelmente, o computador que escreveu os emails de um lado, e o seu homólogo, onde foram batidas as palavras do outro, já devem ter levado sumiço.
Os emails são infantis. Analisados por especialistas em comportamento, revelarão, muito provavelmente, personalidades com vocação para o sonho de asas grandes. Para o abismo onírico que caracteriza os pequenos peões. Nos textos, dignos de um folhetim de cordel do final de oitocentos, ambos os autores se ufanam por ver atuar um poderoso ‘primeiro-ministro’, que querem servir.
Um ‘primeiro-ministro’ que também poderia ser um bispo, pois a linguagem logo deriva para metáforas eclesiásticas, com padres e missas de encomenda.
Esta mancha sobre o excelente trabalho de Luís Filipe Vieira na liderança do Benfica dá um imenso jeito ao FC Porto, que assim sai do radar, com a sua preocupante situação financeira.
O clube que mais comissionistas alimenta está sob os holofotes da UEFA, por falta de cumprimento das regras mínimas de equilíbrio financeiro. Com este escândalo, ainda larvar, a atingir o Benfica, o FC Porto sai do foco, mais a sua incapacidade de se equilibrar financeiramente.
Mas o que desagua nestas linhas é uma inquietação principal: Benfica e Sporting foram alvos, nos últimos tempos, de revelações, noticiosamente incontornáveis, fundadas em documentos que escapam ao controlo das respectivas máquinas.
Só há duas possibilidades razoáveis para estes repetidos fenómenos de escorrimento de segredos: ou alguém tem espiões bem colocados nos dois grandes clubes de Lisboa; ou há um maligno génio informático a navegar nos servidores da Luz e de Alvalade.
Apurar o que se passa, pedir à PGR uma profunda investigação judicial a esta matéria, deveria ser a preocupação principal de ambos os clubes. Enquanto não se souber o método usado para pescar os segredos, o melhor em Alvalade e na Luz será instalar um sistema de pombos-correios para os respetivos quadros poderem comunicar sem risco, e os documentos relevantes voltarem ao cofre-forte, no velho suporte de papel. O seguro morreu de velho e parece ter jazigo a Norte.
Por Octávio Ribeiro