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Octávio Ribeiro
Octávio Ribeiro Jornalista

A era dos ódios

Quando, aos 72 minutos, Paul Pogba avança com a bola pelo flanco direito, das bancadas do Krestovsky Stadium levanta-se um horroroso coro com grunhidos de ú-ú-ú. A Rússia estava a perder em casa, mais uma vez, depois de ser goleada pelo Brasil. Estamos no terreno do organizador do Mundial deste verão, na cosmopolita São Petersburgo. Putin acaba de ser reeleito para mais um mandato de seis anos. O Ocidente une-se para expulsar diplomatas russos, depois de um ex-expião ter sido envenenado em solo britânico. Acabado de fazer 25 anos, o francês Pogba prossegue a jogada apesar do acinte estúpido e odioso vindo da bancada. O que irá fazer a FIFA? E Putin, perante esta selecção russa sem ponta de talento, irá abandonar algum estádio durante o Mundial, como fez Hitler para não ter de cumprimentar o enorme Jesse Owens, velocista negro, norte-americano, após a vitória nos cem metros?

Se a FIFA fingir que não ouve o coro racista dos bárbaros russos na bancada, as coisas não irão melhorar. Vão piorar vertiginosamente.

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Há um retrocesso civilizacional em curso. Fingir que não o vemos, fingir que não existe, é fazer como a avestruz e ficar como, permitam-me o plebeísmo, a Alemanha perdeu a guerra. Alemanha que, registe-se, no mesmo dia, passada terça-feira, jogou com o Brasil capitaneada por Jéróme Boateng, um excelente central, negro, orgulhoso defensor das cores alemãs. Nem tudo é mau, felizmente.

Também nos estádios portugueses se ouvia, em tempos distantes, esse ú-ú-ú vindo das bancadas. Uma vergonha de ir às lágrimas. Mas também aqui, no nosso Portugal, nem tudo é mau. Esse coro de ódio racista, sempre foi esparso, e no plano da integração racial no desporto temos muito por que nos orgulhar. Senhores da Liga e da FPF, quando, por cá, se ouvirem coros racistas, tenham a mão pesada, sempre, por favor!

Enquanto aguardamos para podermos fazer uma avaliação do comprometimento da FIFA no combate ao racismo - a Rússia tem de ser punida, e advertida para situações futuras! -, falemos um pouco dos nossos pequenos ódios de paróquia. O quixotesco Bruno de Carvalho, com uma mão, escreve insultos a Vieira e, com a outra, atinge Salvador. Se mais alguém sair a terreiro para o contrariar, a Bruno ainda resta o nariz para postar mais uns insultos. Ele, que afirmou ter três olhos, bem pode escrevinhar insultos em triplicado simultâneo.

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O clima para o jogo de Braga não podia estar pior. E lá vamos nós todos, pobres cidadãos, pagar mais umas centenas de polícias suplementares para que os ódios plantados pelos dirigentes não façam vítimas graves entre os seguidores dos ritos tribais que comandam.

Por Octávio Ribeiro
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