De olhos na bola

Octávio Ribeiro
Octávio Ribeiro Jornalista

Eu, eu, eu show Bruno

Desde a primeira hora como presidente do Sporting, Bruno de Carvalho cultiva a primeira pessoa do singular, exatamente para exaltar a singularidade da sua pessoa. Na maioria das vezes que se ouve Bruno de Carvalho falar, surge a pergunta: mais uma vez, face ao futebol praticado, o Sporting pode ser campeão, mas será graças a Bruno de Carvalho, ou apesar de Bruno de Carvalho?

Cada um de nós é o centro do seu mundo. Mas a experiência, o equilíbrio, o bom senso, levam os seres humanos adultos a abrirem-se à realidade circundante, aos outros, retirando-se desse centro constante. Por exemplo, se queremos motivar alguém para que atinja um determinado objetivo, que também nos interessa, tendemos a retirar-nos do centro da comunicação. O sujeito das frases tende então a deixar de ser o ‘eu’, para passar a ser o ‘ele’, ‘eles’, ‘vós’, ou até mesmo ‘nós’.

Bruno de Carvalho ainda não atingiu esse estágio de maturação. Dizer que o William Carvalho lhe deve a carreira, ou ameaçar que, se for preciso, contará o que disse o pai do jogador no desespero do galope do relógio, em cima do fecho de mercado, é lançar palavras como couraça para se proteger de críticas. Mas será bom para o ambiente do balneário e para a cabeça do jogador, que deverá ser o próximo capitão? Desconheço se Bruno de Carvalho algum dia conseguirá corrigir essa avalanche de si, que o soterra.

Desconheço se, para ser mais eficaz – ninguém duvida de que quer ver o Sporting a ganhar – conseguirá por vezes, nos momentos decisivos, apagar-se como protagonista das suas próprias palavras. Até agora, quatro anos, quatro desaires e três treinadores depois do primeiro dia como presidente, não regista qualquer evolução positiva.

P.S. – É preciso exaltar a qualidade dos treinadores portugueses. A qualidade de uma das melhores escolas de treinadores do mundo está espelhada e provada por todos os cantos do Globo. As raízes deste sucesso com centenas de protagonistas não nasceram de sementes lançadas ao vento. Mereciam um estudo sério, jornalístico ou académico, onde os grandes arquitetos desta evolução fossem tratados em capítulos. É pela extrema qualidade dos seus técnicos que o campeonato português ainda gera algumas surpresas e laivos de equilíbrio. Passadas as primeiras jornadas, as equipas mais pequenas vão começar a colocar maiores problemas aos grandes. Os principais movimentos das equipas mais poderosas já estão estudados. Trata-se agora de os contrariar. As próximas jornadas serão ainda mais interessantes graças a este jogo em que o rato tenta, não só escapar, mas comer o gato. E o grande sortilégio é que, por vezes, consegue. Veremos.

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