Milhões sem futuro

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A grande incógnita do futebol português – como será o nível da Seleção quando Ronaldo se retirar? – está a ser brilhantemente dissipada por Fernando Santos e uma nova geração de jogadores, que emocionam até às lágrimas, quando desatam a verter talento no jogo do conjunto. São geniais, mas são coletivistas. É na dinâmica coletiva que conseguem espraiar a sua genialidade.

Estas dezenas de jogadores que fazem o trajeto desde as seleções jovens, a que se juntam alguns outros que só explodem já próximo da idade adulta, garantem que só um corte com o extraordinário trabalho que está a ser realizado na FPF poderá afastar-nos do atual nível de excelência. A próxima década está garantida. Poderemos aparecer sempre nos grandes momentos como candidatos aos títulos mundiais e europeus.

A montante desta superabundância de talento, capacidade atlética, cultura tática, está o excelente trabalho desenvolvido pelos principais clubes portugueses na área de formação.

É neste contexto que dificilmente se entendem e menos se aceitam os números que os clubes apresentam aos seus acionistas, associados, adeptos e à comunidade nacional.

Como podem explicar os responsáveis das SAD a venda de dedos virtuosos, ainda antes de encantarem devidamente os adeptos que os veem crescer, e a compra de anéis de pechisbeque por quem se paga opíparos salários?

Saem os Silvas, os Cancelos, os Félix, entram internacionais medianos de África ou das Américas. O encaixe dos milhões conseguidos à custa dos miúdos geniais que partem é desbaratado no salário dos banais que chegam. Não se veja nestas linhas qualquer laivo de nacionalismo bafiento, muito menos xenófobo. Quem chega para trabalhar deve ser bem acolhido e estimado. Mas custa ver, por exemplo, um André Silva sair do FC Porto tão cedo que poderia ter posto em causa o seu crescimento harmonioso, e pensar quão feliz ele ficaria, por mais dois ou três anos, no Porto, com um salário próximo do de Aboubakar.

Não tem havido equilíbrio na gestão dos fluxos de vendas das estrelas jovens. Nos clubes, ninguém pensa no amanhã, tal a ânsia de antecipar receitas. Andamos a vender sementes, em vez de vendermos os frutos já bem maduros. Assim, os clubes nunca equilibrarão as suas contas. E talvez não voltemos a ver um grande de Portugal chegar a maior da Europa.

Não venham dizer que, com o que se gastou em salários na época passada (FC Porto, 6.6 milhões/mês; Sporting, 6.2 milhões/mês; Benfica, 5.7 milhões/mês), as equipas dos nossos grandes clubes não podiam ser bem melhores e mais portuguesas.

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