De olhos na bola

Octávio Ribeiro
Octávio Ribeiro Jornalista

O futebol em risco de morte

A decisão da Procuradora-Geral da República de juntar na competência de uma só equipa os indícios de crimes registados em vários inquéritos judiciais pode salvar a essência do futebol que se joga em Portugal. Mas não será fácil nem curto o caminho.

O que é a essência do futebol ou de qualquer desporto, que se tenha profissionalizado por se ter tornado um espectáculo pago pelas massas? A essência é acreditarmos que todos os intervenientes estão a dar o seu máximo para deixarem a melhor imagem possível. Os jogadores a quererem ganhar, ou, no mínimo, não perder. Os árbitros a querem julgar sem erro.

Durante décadas, o foco de dúvida sobre a boa fé no erro foi colocado nos árbitros, ou nos fiscais de linha, entretanto promovidos a árbitros assistentes.

E a malta discutia a cegueira de um ou outro. E outro ou um foram caçados nas malhas da corrupção, logo nos primeiros anos após o crime passar a ser previsto.

Agora, o cancro desceu mais profundo na relva. Há cada vez mais indícios de casos que envolvem jogadores comprados para não procurar ganhar. Quando os jogadores deixam de procurar ganhar, ou, no mínimo, em caso de grande desequilíbrio de forças, empatar, o futebol deixa de fazer sentido.

Quando vemos um defesa fazer penálti, com uma mão feita asa, e não estamos seguros da sua inépcia com boa fé. Quando vemos um guarda-redes sofrer dois golos nos primeiros minutos, devido a gestos muito estranhos, por pouco naturais, e não achamos apenas que vai perder o lugar, por ser nabo, não suportar a pressão, e os colegas não admitirem ter entre os postes um cromo que defende para a frente bolas simples. Quando já não acreditamos no que os nossos olhos estão a ver, o futebol caminha para a morte. O erro sempre fez parte do sortilégio do jogo. Maus árbitros sempre existiram. Jogadores sempre falharam. Mas protagonistas com falhas selectivas vão matar a razão de ser do espectáculo mais atraente do Mundo.

É fundamental que a justiça invista a sério nesta causa. Que desça aos meandros onde se cruzam alegados empresários da noite, de jogadores, de claques. De droga. Presidentes cada vez mais sombrios. Clubes detidos por capitais putrefactos associados a apostas globais. Que a investigação dure uma, duas, três épocas. Mas que limpe este sector tão lindo, tão mágico, e hoje tão mal tratado. Os sinais de alarme chegaram da segunda liga. Mas parece óbvio que se instalaram já no escalão maior.

E a justiça dos balneários? Também já feneceu? O meu amor ao futebol vem de um tempo em que quem não dava tudo em campo estava tramado no balneário. Era o grupo que expurgava as ervas daninhas. Em caso de dúvida, expurgava-se o faltoso, e pronto. Agora, vê-se gente gerar lances inexplicáveis. E os mesmos nabos, ou algo mais, voltam como titulares na jornada seguinte.

Socorro!!!

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