Um grande campeão de inverno
Pinto da Costa faz hoje 80 anos, com uma nova namorada e um longo jejum de títulos. Mas este parece ser o ano em que o FC Porto está em rota de reencontro com o sucesso. Curiosamente, foi a necessidade financeira que aguçou o engenho do líder dos dragões. Por falta de capacidade de investimento, rodeado de duras críticas em torno de uma opaca e nepótica política de comissões, Pinto da Costa recorreu a um treinador de alto risco, jovem, ousado, com feitio difícil, pouco controlado emocionalmente no banco, e construiu um plantel feito de múltiplos remendos, cerzindo jogadores que andavam emprestados.
Fruto da aflição colectiva, e da pressão sobre o líder histórico do clube, Sérgio Conceição teve o poder que faltou aos seus antecessores. No balneário e nas opções técnicas manda ele de forma inequívoca. O choque com Casillas foi o momento mais alto de afirmação do poder de um técnico que não mostra medo de arriscar. Mas Sérgio fez mais: adquiriu uma inesperada capacidade de controlo das emoções durante o jogo. E o mais difícil – mostrou que o futebol não tem segredos nem se dá com invenções mirabolantes. Já está inventado há muito tempo. Trata-se de cerrar linhas e dentes quando não se tem a bola e ocupar posições para facilitar passes e progressão, quando se tem a sua posse. Sérgio adaptou o seu modelo aos jogadores disponíveis. Mais, criou um modelo para encaixar nos jogadores que podem vestir a camisola portista. Não andou a forçar os jogadores na interpretação de um meta-futebol qualquer, como tanto insistiram os seus antecessores.
Com esta receita simples, e muita saúde física, dá gosto ver jogar o FC Porto. E deve, desde já, o futebol português agradecer aos portistas todos os pontos (de que os outros clubes candidatos às provas continentais podem beneficiar) já obtidos na Europa.
P.S. – Não foi prudente forma como Cristiano Ronaldo reagiu à notícia de que uma chefe do fisco espanhol defendeu para o craque uma pena de prisão efectiva. As máquinas fiscais são, nos dias de hoje, estruturas cegas e implacáveis. Os únicos herdeiros atuais dos métodos da Inquisição estão no fisco, e não se vê nenhum político questionar, por exemplo, a inversão do ónus da prova, que é regra em toda a área fiscal. São as máquinas fiscais as únicas onde os estados europeus investem forte de forma a servir-se de receitas, que, infelizmente, nem sempre levam os melhores fins, escapando à educação, saúde, segurança e criação de emprego. Ronaldo devia ser convicto mas humilde na sua querela com as garras do fisco espanhol. O risco de prisão é real e não deve ser desvalorizado.
