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O Natal trouxe alguns dias de paz ao futebol português e todos os protagonistas certamente agradecem esta tranquilidade numa quadra tão especial, mas noutros países houve presidentes e treinadores que não tiveram esta sorte. Em Espanha, por exemplo, um homem deu cabo do Natal de Florentino Pérez e, especialmente, de Rafa Benítez.
Uma das coisas que mais me surpreendeu quando cheguei ao futebol espanhol em 1987 foi o poder e a força que tinham as rádios espanholas nos programas desportivos da noite. Algumas emissoras tinham audiências de mais de um milhão de pessoas por programa. Todos os dias da semana, da meia-noite às duas da manhã, a grande maioria dos adeptos que adorava futebol estavam a ouvir a rádio a esta hora. Era um hábito que fazia parte da cultura dos aficionados espanhóis. A concorrência entre as várias emissoras era brutal e, por exemplo, no meu caso, quando por qualquer razão era o homem do dia, tinha sempre um grande problema: fosse a rádio Cope, Ser, Onda Cero ou outras, todas queriam que eu falasse com eles em primeiro lugar, logo à meia-noite em ponto. Isto não era possível, não podia agradar a todos, e ganhei alguns inimigos nos meus primeiros tempos em Madrid. Com os anos de experiência, consegui chegar a um acordo com todos eles: no próximo dia que fosse notícia falava com todos naquelas duas horas de programa e a rádio onde começasse a falar à meia-noite (hora de máxima audiência) seria a última a quem daria a entrevista na vez seguinte. Ia rodando entre todas as rádios e assim consegui acabar com o problema. Mas não foi fácil. Sempre disse aos meus amigos que a rádio em Espanha tem mais força do que as televisões e jornais. E se alguém pode mudar treinadores e presidentes ou o que seja são eles. O mundo jornalístico mudou com a internet e as redes sociais, mas como vimos esta semana as rádios espanholas continuam com o mesmo poder e influência de sempre.
Os homens que hoje dominam a rádio em Espanha são aqueles que por volta de 1987, na altura em que cheguei ao Atletico de Madrid, começavam as dar os seus primeiros passos como jornalistas desportivos. Andavam com o gravador na mão e dei-lhes imensas entrevistas. Com muitos tenho hoje ainda uma grande relação, como é o exemplo do José Ramón de la Morena: o rei das noites e o senhor de quem se fala neste momento em Espanha.
O seu programa, El Larguero, é o líder de audiências há muitos anos, com mais de um milhão de ouvintes por noite. Na última terça-feira, começou o seu programa com uma notícia bombástica que mexeu com o mundo do futebol, acabando com a paz do Natal de Rafa Benítez, Florentino Pérez e todo o mundo do Real Madrid. Ele começou o seu programa com estas frases: "Não é algo exclusivo mas tenho o pressentimento que Rafa Benítez deixará de ser treinador do Real Madrid nos próximos dias ou horas. Nenhum jogador acredita nele. O Cristiano entrou no balneário no domingo [20 de dezembro, após o jogo com o Rayo Vallecano] gritando que se vai embora se continuam os assobios. Isco não fala com o treinador e influencia outros jogadores, como James. Há uma corrente contra o treinador que é incansável e que se está a tornar insuperável. O presidente pediu ao capitão Sérgio Ramos para limar todas estas situações, mas o Sérgio perdeu a amizade com o Florentino e não quer recuperá-la e, assim como todos, vê o treinador impotente perante esta situação. Esta mesma noite estão a ponderar falar com José Mourinho para que este volte a ser treinador do Real Madrid."
Estas palavras fizeram tanto ruído que até hoje os media não deixaram de falar sobre Rafa Benítez e o seu substituto, obrigando mesmo o Real Madrid a fazer uma sondagem telefónica aos seus sócios com estas sete perguntas:
1 - Como qualificaria de 0 a 10 a atuação de Rafa Benítez?
2 - Como qualificaria de 0 a 10 a atuação dos jogadores?
3 - É a favor de trocar de treinador?
4 - Que treinador preferia neste caso?
5 - Ouve alguma rádio desportiva? Que programas?
6 - Lê jornais desportivos? Quais?
7 - Vê programas de televisão desportivos? Quais?
Um jornalista com a credibilidade do José Ramón mexeu com tudo. Como é possível que só um homem meta um clube com a dimensão do Real Madrid do avesso, com dúvidas e sem saber o que fazer? Hoje em Espanha, a pergunta de um milhão de euros é se o Benítez se senta no banco no próximo jogo do Real Madrid. Eu digo que não. Por último, desde estas linhas desejo que o ano 2016 seja excelente para todos os leitores do Record.
CALDEIRADA DA SEMANA
Van GaalSe o Rafa Benítez não teve paz neste Natal, o Louis Van Gaal também não teve uma quadra nada feliz. Depois de vários media dizerem que o Manchester United ia rescindir contrato com o técnico holandês, e sendo que até alguns diziam já que o seu substituto seria o José Mourinho, Van Gaal surpreendeu tudo e todos na na conferência de imprensa quarta-feira, exigindo aos meios que escreveram que ele estava fora do clube que pedissem desculpas. Grande caldeirada! E ao que tudo indica, isto só acabará quando o holandês deixar de ser treinador dos red devils.
NÓS LÁ FORA
O fantasma de MourinhoQue grande é o José Mourinho. Vários dias depois de rescindir contrato com o Chelsea e sem abrir a boca consegue que todo o Mundo fale nele como o próximo treinador de dois dos maiores clubes do planeta, como são o Real Madrid e o Manchester United. Ele é o único que sem estar a trabalhar consegue ser o melhor treinador do Mundo e o responsável pelo péssimo natal que tiveram Rafa Benítez e Van Gaal. Por sua culpa, ambos vão continuar a ter pesadelos com o fantasma de Mourinho por muito tempo.
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
Yokohama StadiumNa semana passada jogou-se a final do Mundial de Clubes no Japão, entre Barcelona e River Plate. Os culés ganharam 3-0 e sagraram-se campeões do Mundo. O jogo foi no Yokohama Stadium, onde também se disputou em 2002 a final do Mundial entre o Brasil e a Alemanha. Enquanto via o jogo entre espanhóis e argentinos, obrigatoriamente tive que recordar a minha última aventura como profissional de futebol no Japão. A minha equipa era o Yokohama Flügels e o nosso estádio era o Yokohama Stadium. Ali fiz os últimos penáltis, golos e assistências como futebolista profissional. Um estádio também ele muito especial para mim!
Por Paulo Futre