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Tenho vários amigos que, há mais de 20 anos, organizam um convívio anual com os companheiros de turma. Outros reúnem-se de cinco em cinco anos com a sua equipa de iniciados. Nestes encontros falam dos velhos tempos, passam momentos maravilhosos e mantêm a amizade. Eu também tenho um grupo de amigos que fazem o mesmo desde 27-5-1987.
Ontem completaram-se 30 anos daquele dia. Como não podia deixar de ser, voltámos-nos a reunir e tivemos um jantar espetacular. A última vez que estivemos juntos foi em Viena, em dezembro de 2010. Passaram seis anos e meio. Mas valeu a pena esperar tanto tempo, porque a noite de ontem foi de uma felicidade extrema. Durante aquelas horas, entre o aperitivo e a sobremesa, metemos a escrita em dia. Recordámos os velhos tempos.
Uma destas histórias, em que sou eu o narrador, foi vivida intensamente. Recuámos 30 anos e voltámos a entrar no balneário do Estádio Prater de Viena no intervalo da final da Liga dos Campeões de 1987. Perdíamos, por 1-0, frente ao Bayern Munique e a nossa força anímica não era a melhor. Os alemães eram uma das grandes potências do futebol europeu e os grandes favorito a conquistar aquele título.
Estávamos todos sentados no baleneário, desmoralizados e com o orgulho ferido. O nosso treinador sabia melhor do que ninguém que aquela equipa de campeões que ele treinava nunca se renderia. Iriam morrer dentro de campo para ganhar aquele jogo.
Para essa reviravolta histórica ser possível, tinha de acontecer algo de mágico. Naquele momento, em que estávamos cabisbaixos, a palestra de motivação também tinha de ser histórica e as palavras mágicas. Assim foi. O Artur Jorge entrou no balneário, despiu o casaco, tirou a gravata, arregaçou as mangas da camisa e disse: "Meus senhores, levantem a cabeça e olhem para mim. Têm 45 minutos para entrar na história. Isto não é um sonho. Isto está a acontecer e é a realidade.Vocês são melhores do que eles".
Fez uma pausa e voltou a dizer: "Estão a 45 minutos de entrar na história. Por isso,vamos dar a volta a isto e vamos ganhar o jogo". E repetiu: "olhem bem para mim". Olhámos todos e ele repetiu várias vezes em voz alta: "Têm quarenta e cinco minutos para entrar na história!"
Nos três anos que fui jogador do FC Porto, a frase de guerra que dizíamos uns aos outros antes de cada jogo e ao intervalo era sempre esta:"Vamos comê-los, c......" Naquele momento, juntámos esta frase à do treinador, repetindo que só tínhamos 45 minutos para fazer história. Antes de sair do balneário para jogar a segunda parte, disse ainda para mim mesmo: "E também não posso falhar ao meu Presidente Pinto da Costa". Ontem, ele também esteve no jantar e, quando o vi, recordei o dia em que ele mudou a minha vida.
Em 1984, tinha eu 18 anos, o Sporting queria emprestar-me à Académica. No final de um treino em Alvalade, aproximou-se uma pessoa, dizendo-me: "Preciso de falar contigo, porque tenho uma casa na Costa da Caparica para vender. Tenho ali um catálogo no carro para te mostrar." Fazia férias na Costa desde os 8 anos, conhecia muito bem aquela zona, gostava de ir para lá e queria saber mais sobre o negócio. Por isso, fui até ao carro para ver o catálogo, mas… "Não há casa nenhuma. Sou representante do FC Porto. Chamo-me Domingos Pereira e gostava de falar contigo agora."
"Paulinho, aqui vais ser tu e mais dez". Estas foram as primeiras palavras que ouvi da boca do Pinto da Costa. E assim aconteceu. Fui titular do primeiro ao último jogo. Três anos depois daquela frase do presidente, éramos campeões da Europa e os melhores clubes do Mundo estavam interessados em mim.
O Artur Jorge tinha razão. Fez-se história. Ontem, tal como acontece anualmente, aquela proeza foi recordada. Os meios de comunicação social voltaram a falar daquela equipa mítica do FC Porto e na noite mágica de Viena. E assim será eternamente cada vez que o calendário marcar o dia 27 de maio. Tenho 51 anos e sou o mais novo deste grupo de amigos. A grande maioria já entrou na casa dos 60 anos. Somos mais velhinhos, mas, cada vez que estamos juntos, como ontem, esta frase que dizemos com toda a nossa força e orgulho dá-nos vida. "Não falhámos. Fomos campeões da Europa e entrámos na história!"
CALDEIRADA DA SEMANA
Semana negra em Barcelona
Depois de o Supremo Tribunal espanhol confirmar a condenação de Messi a 21 meses de prisão, por três crimes fiscais, e de o órgão máximo da justiça espanhola rejeitar o recurso apresentado pelo craque argentino, condenado por desviar 4,1 milhões de euros do Fisco, entre 2007 e 2009, as más notícias continuaram para todos os culés. O procurador da Audiência Nacional pediu a aplicação de uma pena de prisão, sem fiança, para Sandro Rosell, ex-presidente do Barcelona, detido por suspeita de branqueamento de capitais. Sem dúvida alguma que foi uma semana negra para o Barcelona!
NÓS LÁ FORA
Muitos parabéns, Zé!
Antes da final da Liga Europa entre o seu Manchester United e o Ajax, José Mourinho tinha disputado três outros jogos destas características para as competições europeias. A Taça UEFA com o FC Porto, em 2003, e a Liga dos Campeões com os dragões e com o Inter Milão, em 2004 e 2010. Ganhou as três... E, na última quarta-feira, em Estocolmo, voltou a ganhar. Foi a quarta! A frase "as finais não se jogam, ganham-se", foi mesmo feita para um autêntico campeão como José Mourinho. Impressionante! Muitos parabéns, amigo Zé!
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
Final da Taça
Ganhar no Estádio do Real Madrid é sempre muito difícil, mas vencer um dérbi no Santiago Bernabéu, como aquela final da Taça de Espanha de 1992, foi para todos os adeptos do Atlético Madrid como conquistar uma Champions League. Eu fiz um golo eum jogo espetacular. Na final da Taça de Portugal de 1993, o Benfica ganhou, por 5-2, ao Boavista. Eu era o número 10 das águias. Foi o jogo que sempre sonhei fazer o daquele dia no Jamor. Marquei dois golos, fiz uma assistência e sofri um penálti. Foram os 90 minutos mais completos da minha carreira.Recordo-me destas duas finais, porque hoje joga-se a final da Taça de Portugal. Que ganhe o melhor.
Por Paulo Futre