_
Joguei em Espanha, França, Itália, Inglaterra e Japão, cinco países com idiomas, culturas, história, etc... completamente diferentes de Portugal. Uma vez, a adaptação não estava a ser fácil e as coisas não corriam como eu queria. Nestes momentos difíceis desabafava por telefone com os meus melhores amigos (um deles – que já não está entre nós – era o meu querido Hélder Martins, que foi fisioterapeuta da Seleção Nacional e durante 14 anos trabalhou no Atlético Madrid)para levantar o moral. E ele fazia uma crítica construtiva que era mais ou menos assim: "Não tens que aprender o idioma, a cultura ou a história do país onde estás; tu és profissional do desporto-rei e o futebol ‘fala-se’ é com os pés e tu és dos melhores do Mundo a praticar este idioma. As bolas com que treinas todos os dias e jogas ao fim de semana são muito melhores do que aquelas com que jogavas com os teus amigos no Montijo; os estádios aí têm as mesmas quatro linhas que os estádios portugueses onde brilhaste e triunfaste. Por todas estas razões, deixa-te de queixar e arranjar desculpas estúpidas. Só falta que me digas que fizestes um mau jogo porque não bebestes durante a semana a água que bebias em Portugal! Se for por isto, envio-te várias embalagens da Água do Luso", terminava.
O Hélder tinha toda a razão, o futebol é um desporto universal e a adaptação de um profissional devia ser tranquila e sem problemas. Mas a realidade é outra. Chegar, ver e vencer nos primeiros meses num novo país, cidade e equipa não é nada fácil. Quantos craques – que foram as contratações estrelas no mercado de verão –acabaram por ser as grandes contratações no mercado de inverno, como por exemplo o caso de Radamel Falcão no Atlético Madrid. Os primeiros cinco meses foram horríveis, as críticas que fizeram ao colombiano naquele início de temporada foram duras e muito cruéis. Para muitos destes críticos, Falcão era um autêntico desastre e a sua contratação tinha sido um fiasco. Mas a pior crítica que um profissional de futebol pode ouvir são os assobios dos seus próprios adeptos, e o Tigre ouviu várias vezes aquele terrível som das bancadas do Estádio Vicente Calderón contra ele. Radamel viveu um pesadelo naqueles primeiros meses com a camisola colchonera e só um grande campeão podia dar a volta à situação complicada em que se encontrava. Com a chegada do Cholo Simeone, em finais de dezembro de 2011, a situação mudou radicalmente. O grande fiasco e desastre total, pouco tempo depois já era o melhor 9 do Mundo e, sem dúvida alguma, foi a contratação estrela daquele mercado de inverno do Atlético Madrid.
Outro fenómeno que teve uma adaptação difícil foi Griezmann. O francês, nos primeiros meses com a camisola rojiblanca, alternava entre a titularidade e o banco. Antoine, como todos os goleadores, vive do golo e para atingir o máximo nível de confiança necessitava de fazer um grande jogo. E esse dia chegou. O hat trick que fez a 21 de dezembro no novo San Mames, ao Athletic Bilbao, foi crucial para o seu êxito. Depois da paragem do Natal, o estado de graça do goleador continuou: com os cinco golos que fez no mês de janeiro, Griezmann acabou com todas as dúvidas. A partir dali começou a ser ele e mais dez na equipa do grande Cholo e terminou por ser a grande contratação do mercado de inverno do Atlético Madrid naquela época 2014/15. São dois exemplos dos muitos jogadores que, ao longo da história, assinaram contrato em julho ou agosto, mas só explodiram no inverno.
Recordo-me desta história porque os três grandes clubes de Portugal, no mercado de verão, contrataram 27 jogadores e, até agora, poucos conseguiram demonstrar o seu valor. Como ex-profissional e por experiência própria, não posso dizer que um jogador é flop cinco meses depois de ter chegado a um novo país, cidade e clube.
O Carrillo, Celis, João Teixeira, Boly, Depoitre, Markovic, André, Castaignos, Douglas ,Petrovic, Meli, Alain Ruiz e Elias – se não mudarem de clube – ainda podem mudar a situação menos boa em que se encontram. Ainda é possível que, no final da época, estejamos a falar que algum deles foi a grande contratação dos seus clubes neste mercado de inverno. Desde estas linhas muita força para todos eles.
CALDEIRADA DA SEMANA
Piqué de novo
O Barcelona, na quinta-feira, ganhou 1-0 o jogo da primeira mão dos ‘quartos’ da Taça de Espanha, em San Sebastian, com uma arbitragem muito contestada pelos adeptos e jogadores da Real. Depois das polémicas declarações de Piqué sobre os árbitros nas últimas semanas, na sexta-feira o defesa teve um encontro digital com os fãs e seria normal que alguém fizesse uma pergunta sobre os árbitros. E assim foi. Mas Piqué, nestas últimas semanas, parece mesmo que joga na liga portuguesa. Quando foi prejudicado nos jogos em Bilbau e Villarreal queixou-se; no último jogo o árbitro prejudica a Real em dois ou três lances e o Piqué já não quer responder a nenhuma pergunta sobre os árbitros. Tenho grande admiração pelo Gerard, porque é uma pessoa direta, corajosa e sem papas na língua, mas nestas últimas semanas está a dececionar-me bastante.
NÓS LÁ FORA
Bernardo Silva
O esquerdino de ouro não pára de crescer e de maravilhar o Mundo com a sua magia. Na semana passada, o Monaco ganhou 4-1 em Marselha e o português fez dois golos. Hoje, já deixou de ser rumor quando um jornalista escreve que o Bernardo, no próximo ano, estará num grande clube. E acredito no que o inglês ‘The Sun’ disse esta semana: que o Manchester United de José Mourinho pondera avançar com uma proposta de 80 milhões de euros pelo craque de 22 anos. Se pagaram 120 milhões por um médio como Pogba, este valor para um jogador com o talento do Bernardo – que vai levantar os ingleses da cadeira – é uma prenda para um tubarão como o United.
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
Eibar
A semana passada, quando foi o sorteio dos quartos-de-final da Taça de Espanha e vi que o rival do meu Atlético era o Eibar, pensei na minha etapa como diretor desportivo da equipa colchonera. O meu primeiro dia no cargo foi a 6/11/2000 e o Atlético era o antepenúltimo da 2.ª Divisão. Se o campeonato terminasse naquele momento, os rojiblancos desciam para a 2.ª B, o clube vivia o pior momento da sua história e o ambiente era de ‘cortar à faca’. Ganhei o primeiro jogo fora, no segundo tive o primeiro desgosto – empatámos em casa contra o Eibar. Na segunda volta do campeonato fizemos uma recuperação milagrosa e começámos a lutar pela subida, mas chegámos a Eibar... e outro balde de água geladíssima com a derrota por 1-0. Aquela 2.ª Divisão era um inferno! Hoje, 16 anos depois, o Atlético e o Eibar estão na 1.ª Divisão e um deles estará nas ‘meias’ da Taça. Incrível e maravilhoso.