_
Sem dúvida alguma que o número um, o mestre de todos os bruxos que passaram pelo futebol português, foi o Delane Vieira. O brasileiro foi o único que trabalhou em dois grandes clubes: primeiro no Benfica e mais tarde no FC Porto. Tinha 18 ou 19 anos quando o conheci, já era titular dos dragões e nos primeiros dois meses fazia-me uma confusão tremenda (e também a grande parte do plantel) ter de trabalhar com um bruxo diariamente. A maioria das coisas que ele dizia entravam por um ouvido e saíam pelo outro. E por muito que o Delane nos dissesse que o seu trabalho não tinha nada a ver com bruxarias e que detestava ser tratado por bruxo – porque se considerava um génio da parapsicologia –, para nós era o mesmo. A missão que ele tinha era praticamente impossível de atingir, porque aquele plantel nunca o ia ouvir e respeitar. Assim pensava eu, mas estava completamente enganado. Seis ou sete meses depois, o Delane já tinha conquistado todo o balneário e não havia um jogador do Porto que não jogasse com pulseiras no pulso direito que ele dizia que estavam benzidas. No meu caso ganhei tanto hábito às pulseiras, que nunca deixei de usar até hoje. E começou a ser o mentor espiritual da equipa e fez parte do grupo de trabalho da mítica equipa que em 1987 ganhou a Taça dos Campeões Europeus.
Sem dúvida que o Delane era um psicólogo excelente e com poucas palavras levantava rapidamente o moral depois de uma derrota ou um mau jogo. Mas, de vez enquanto, saía-lhe a veia do bruxo e dizia coisas que nos deixavam estupefactos, como quando disse publicamente, na véspera da Taça Intercontinental de 1987, em Tóquio, esta frase: "Fiz o meu trabalho e amanhã irá nevar." Como os sul-americanos estão acostumados ao calor e normalmente sofrem quando têm de jogar com temperaturas baixas, seria perfeito para os jogadores que durante o jogo fizesse muito frio e chovesse. E essas eram as previsões que todos meteorologistas japoneses fizeram. Como nenhum disse que ia nevar, e porque há muitos anos que não nevava em Tóquio, meio Mundo estava a rir-se e a chamar louco ao bruxo do Porto. Quando o Delane me dizia pessoalmente que ia acontecer isto ou aquilo, por respeito a ele nunca lhe dizia nada nem quando falhava. Eu já era jogador do Atlético e estava em Madrid, mas mesmo naquele momento onde a carreira dele ia terminar por dizer aquela barbaridade ao Mundo, porque a neve só existia na cabeça dele, chamei louco ao Delane. Recordo-me desta história porque ele já faleceu há vários anos e esta semana pensei duas vezes no Delane. A primeira foi na terça-feira depois do jogo do Real Madrid com o meu Atlético. Normalmente as ‘meias’ da Champions decidem-se por detalhes e no jogo da segunda mão. Por esta razão, se o Delane estivesse entre nós, e na segunda-feira dissesse que esquecesse a final de Cardiff, porque o Atlético ia perder por 3-0 na 1.ª mão, seria a primeira vez que lhe chamaria de louco. A segunda vez que pensei nele foi ontem.
Todos os adeptos do Atlético sabem que é quase impossível estar na final da Champions, mas dentro de nós a chama da esperança não se apagou por completo. Agarramo-nos a algo para a motivação crescer e, por exemplo, nos últimos dias já repeti um milhão de vezes "Se o Atlético ganhou 4-0 ao Real em 2015, por que não repetir este resultado na quarta-feira?". E também comecei a sonhar com isto: os adeptos do Real, e todos os amantes do futebol (menos os rojiblancos) que pensam que os merengues já estão na final de Cardiff, podem estar muito enganados nas suas previsões como estavam todos os génios da meteorologia que deram temperaturas baixas e com chuva para a final em Tóquio e tiveram a surpresa negativa da sua vida. O Delane tinha razão e acertou em cheio no alvo: depois de muitos anos voltou a nevar – e de que maneira – na capital japonesa. O bruxo ou parapsicólogo (como queiram chamar) deixou-os tão mal que os cientistas do tempo tiveram de dizer que o que aconteceu em Tóquio fora um milagre.
O futebol é imprevisível e quando menos esperas aparece a surpresa. Vamos ver se os merengues que já reservaram bilhetes de avião e hotel para Cardiff não têm a deceção da sua vida como tiveram os meteorologistas japoneses... Se há uma equipa que com o orgulho ferido pode fazer uma reviravolta histórica, esta é a equipa do Cholo Simeone.
CALDEIRADA DA SEMANA - O remédio perfeito
Quando vi esta notícia na quinta-feira – "A partir da próxima época, os 306 jogos da Liga NOS terão vídeo-árbitro (VAR) a ajudar o juiz de campo, algo que só acontecerá num lote restrito de ligas nacionais em todo o Mundo" –fiquei estupefacto. Não esperava e fiquei feliz, porque o futebol português, com as caldeiradas que existem semanalmente, já merecia uma notícia como esta. Os erros graves dos árbitros acabaram de vez e já estou ansioso para que chegue agosto e a primeira jornada do primeiro campeonato da transparência total. Parabéns ao presidente Fernando Gomes por tomar esta medida importantíssima para o futebol.
NÓS LÁ FORA - Os parabéns da azia
Na segunda-feira, não tinha dúvidas sobre quem seria o protagonista desta caixa: só podia ser o mágico Ricardinho e fiz o texto nessa noite, pensando que nada de anormal ia acontecer nos jogos das competições europeias com os portugueses. Enganei-me e o meu querido amigo Ricardinho vai perdoar-me e o seu texto estará aqui na próxima semana. Durante a carreira do Cristiano Ronaldo já lhe dei os parabéns dezenas de vezes, algumas pessoalmente, outras por televisão e também nesta página, mas após os três golos que fez no Bernabéu, na 1.ª mão das ‘meias’ da Champions ao meu Atlético... não é fácil teclar estas palavras: "Muitos parabéns ‘bicho’".
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES - A lesão do bi-Bota de Ouro
No dia 27 de maio faz 30 anos que o FC Porto ganhou a Taça dos Campeões Europeus pela primeira vez na sua história. Tive o privilégio de pertencer a essa mítica equipa e recordo-me que também está a fazer os mesmos anos da lesão gravíssima do nosso capitão, líder e goleador Fernando Gomes. Animicamente foi tremendo. Perder um autêntico craque e a grande referência ofensiva como era o bi-Bota de Ouro, para a final da Champions com um tubarão como o B. Munique, foi horrível e o plantel ficou arrasado. Durante os três anos no FC Porto, em Viena foi única vez que jogámos sem ponta-de-lança e eu sempre digo: "Ganhámos 2-1, mas com o Gomes tinhas goleado os alemães".
Por Paulo Futre