O dia de uma grande final! Acabo de chegar ao meu hotel de Milão. Faltam pouco mais de cinco horas para começar a finalíssima no Estádio San Siro entre o meu Atlético Madrid e o nosso eterno rival Real Madrid. Quando estava na minha última etapa como jogador colchonero, um grande jornalista espanhol disse-me que por todas as batalhas que tivemos dentro do campo, que eu e o Paco Buyo já tínhamos criado um lenda. No momento não liguei muito àquelas palavras mas ele tinha toda a razão. Já passaram mais de 18 anos que nos retirámos e em cada dérbi por uma razão ou outra continuamos com a nossa batalha fora do campo. Desta vez somos embaixadores do Captain Morgan e hoje foi o meu companheiro de viagem. Se me dissessem que isto ia acontecer quando jogávamos, dizia que estariam loucos.
Porque ele foi o maior rival que tive durante toda a minha carreira. Vou mais longe – era o meu inimigo número 1. E eu era o dele. Cada jogo era uma nova polémica entre nós. Um novo escândalo. E tivemos muitos. Chegámos a uma altura em que já nem nos cumprimentávamos. Dentro e fora do campo. Uma vez, encontrei-o no aeroporto de Madrid quando eu ia para Portugal. Ficámos frente a frente e não fomos capazes de dar um aperto de mão. Para ambos existiam dois dérbis: o das equipas e o nosso. Passava-se sempre alguma coisa entre nós. O espetáculo estava garantido para os adeptos. Mesmo que o jogo estivesse a ser mau, eu enquanto capitão do Atlético e o guarda-redes mítico do Real tratávamos de animá-lo.
Tudo começou no meu primeiro dérbi. Ganhámos 4-0 em pleno Santiago Bernabéu. Naquele dia tornei-me o inimigo público número 1 dos adeptos do Real e também do Buyo. Depois desse jogo, deram-me uma fotografia em que estou a marcar-lhe o segundo golo. Essa foto tornou-se o meu amuleto. Pendurava-a no espelho na minha casa de banho cerca de 15 dias antes de cada partida contra o Real. Adormecia e acordava com a cara do Paco.
No segundo dérbi que disputei provocou-me durante todo o jogo e acabei por ser expulso por sua culpa.
E a terceira vez que nos enfrentámos marcou-nos para sempre. Naquela noite aconteceu uma das jogadas mais polémica e escandalosas da história dos dérbis entre Atlético e Real. Foi na época 1988/89, na primeira volta, no Santiago Bernabéu. Estava a ser um jogo vibrante, taco a taco. Numa bola dividida, chocámos um contra o outro e caímos distanciados por poucos metros. Eu fingi que estava lesionado e rebolei pelo relvado. O Buyo também fingiu que estava com dores e rebolou atrás de mim (éramos dois artistas). Quando estávamos pegados, ambos no chão, o Buyo deu-me um soco na nádega. É nesse momento que o meu companheiro Orejuela chega perto de nós e mete-se entre os dois para tentar proteger-me. Mas o Buyo aproveitou para simular que ele lhe tinha dado um pontapé. Agarrou-se à cara, fez um grande teatro e o árbitro inexplicavelmente expulsou o Orejuela.
Durante toda a minha carreira, tive muitos adversários que me deixaram marcas: os chamados ‘assassinos’. Davam-me cotoveladas, rasgavam-me os gémeos com os pitons, entre tantas outras coisas, mas era futebol. Nunca odiei esses jogadores. O único que odiei foi Paco Buyo.
Já depois de estarmos retirados cumprimentávamo-nos cordialmente e pouco mais. No Euro’2008 fui convidado por uma estação de televisão para comentar os jogos de Portugal. Quando chego a Viena, a primeira pessoa que encontro na receção do hotel é Paco Buyo. "Não me lixem", pensei. "Qualquer um menos o Buyo". Cumprimentámo-nos e, passados 30 segundos, já sabíamos que íamos trabalhar para a mesma estação de televisão. E que estaríamos sempre hospedados no mesmo hotel. Naqueles 15 dias, jantámos muitas vezes juntos, ajudámo-nos com o nosso trabalho, falámos e rimos das nossas guerras de morte dentro do campo de futebol. Deixámos as nossas diferenças de lado e começámos a construir uma forte relação de amizade.
Passei toda esta semana com ele em Madrid. Entre televisões, rádios e jornais. Mas esta noite vai ser a primeira vez que vamos ver um dérbi juntos e logo uma final da Champions. Hoje somos bons amigos, mas ver um jogo desta dimensão um ao lado do outro não será nada fácil para ambos. Vão ser 90 minutos terríveis e ainda não sei se vou com as caneleiras debaixo das calças.
Um jogo de loucos, uma final da Champions entre as nossas equipas, mas também um autêntico dérbi nas bancadas entre mim e o grande Paco Buyo.
Caldeirada da semana - O Professor Rafa Benítez
Pensava que eram simplesmente rumores quando diziam que o Rafa Benítez tentou ensinar o Cristiano Ronaldo a marcar faltas e a driblar durante os meses em que foi técnico dos merengues. Mas deixou de ser rumor esta semana depois destas declarações do craque português. "Vi coisas dele diferentes de outros, mas obviamente há coisas que ninguém te pode ensinar. Ou tens ou não tens. Ele falava-me dos livres, mas também de como chutar a bola, de fazer dribles..." Incrível. O futebol não me deixa de surpreender. Imagino a cara dos companheiros do Cristiano quando viam o Benítez a ensinar o melhor jogador do Mundo e Bola de Ouro três vezes a marcar faltas e a driblar. Assim, Benítez perdeu automaticamente a credibilidade dentro do balneário do Real.
Nós lá fora - José Mourinho
O melhor treinador do Mundo e meu grande amigo José Mourinho assinou nesta semana o seu contrato com o histórico Manchester United. Ser treinador deste gigante inglês é o sonho de qualquer técnico. E o Zé conseguiu concretizar este grande sonho. O clube, depois da saída do Sir Alex Ferguson, tem atravessado várias crises, mas não tenho a mínima dúvida que com o português no comando o Manchester United voltará novamente aos êxitos. Muitos parabéns e muita sorte, amigo Zé!!!
Albúm de recordações - Final em Milão
Ontem jogou-se a final da Liga dos Campeões entre o Real Madrid e o meu Atlético Madrid no Estádio San Siro, em Milão. Um palco mítico de um grande clube europeu no qual tive o privilégio de ser campeão e vencer um Scudetto! Jogar naquele estádio mítico com a camisola do AC Milan com vários companheiros de equipa que naquela altura eram os melhores do Mundo na sua posição como, por exemplo, Roberto Baggio, Paolo Maldini ou o grande Franco Baresi, foi notável. Foram momentos especiais e de uma satisfação máxima.
Por Paulo Futre