Todos os pontas-de-lança com quem joguei durante minha carreira profissional tinham um ponto em comum: quando estavam dois jogos sem marcar e entravam na crise goleadora, todos eles ficavam tristes, desanimados, deprimidos, isolados, encerrados sobre si próprios. E só tinham uma maneira de saírem daquela situação: voltando a marcar. O golo era o único remédio que lhes trazia felicidade. Este estado de ânimo arrastava-se também para as suas vidas privadas. Àqueles com quem tinha mais confiança, dizia-lhes sempre a brincar: "Tens que fazer um golo rápido porque senão a tua esposa vai-se separar de ti. Tu sabes que não há nenhuma mulher que possa aguentar este mau feitio horrível durante várias semanas."
Quando a crise era prolongada sentia-me culpado, pois era o máximo responsável por dar-lhes uma assistência, fazer-lhes o passe de morte ou fabricar um penálti para eles marcarem golo. Tive muitos histórias como estas com dois Botas de Ouro: Gomes (FC Porto) e Baltazar (Atlético de Madrid).
O brasileiro fez 35 golos quando foi o melhor marcador da Europa. Uma época espetacular, mas, como qualquer outro, também teve os seus momentos de seca goleadora. Uma vez, com o desespero, o Balta fez algo surreal: num canto a nosso favor, saltou todas a regras de um balneário, desobedeceu às ordens do treinador e faltou ao respeito a todos nós. Numa equipa, quando há cantos ou faltas para marcar tens os donos da bola e são eles que marcam a estratégia. Decidem se marcam ao primeiro poste, ao segundo ou à maneira curta. O Baltazar nunca tinha marcado um canto na vida (acho que nem no recreio da escola) mas pegou na bola, correu para a bandeirola de canto e nem esperou que os centrais chegassem à área para cabecear. Chutou com toda força diretamente para a baliza tentando fazer golo. Nem sequer tentou fazer um arco na bola e esta acabou nas malhas laterais. Um segundo depois estava a ser insultado por todos nós e pelo treinador. Recordo-me de que nos últimos jogos do campeonato, quando já tudo estava definido a nível de classificação, o Baltazar continuava na luta para ser o melhor marcador da Liga espanhola assim como para conquistar a Bota de Ouro. Nessa altura, e em jeito de brincadeira, dizia-lhe sempre: "Vai lá marcar o canto direto agora e faz golo."
O Fernando Gomes, o 'Bibota' como todos chamamos, foi sem dúvida alguma (e com todo o respeito para todos os outros pontas de lança com quem fiz dupla ) dos melhores, senão o melhor goleador com quem joguei. Era um autêntico génio e fizemos uma dupla brutal naquele FC Porto que acabou por ser campeão da Europa em 1987. Já depois de retirados jogámos muitas vezes com a seleção de veteranos de Portugal e o ritual do 'Bibota' antes destes jogos era igual ao que fazia quando era o melhor marcador da Europa. Um autêntico profissional, que se não marcasse ficava chateado e triste como nos velhos tempos. O último jogo foi o ano passado na Alemanha, na homenagem ao mítico treinador Otto Rehhagel. O estádio estava cheio e os germânicos eram liderados pelo grande Matthäus. Os dois jogámos a titulares e acabámos por ganhar o jogo 4-3. Mas os grandes protagonistas foram os mais jovens: Sá Pinto e Boa Morte, entre outros. Ambos já não estamos para estes andamentos e o 'Bibota' não fez nenhum golo. No dia seguinte perguntei-lhe se tinha dormido bem e a resposta foi seca, como 30 anos antes: "Não." Nesse momento eu pensei para mim: "Um goleador morrerá sendo goleador."
E recordo-me destas histórias porque, se havia um goleador na Europa que não dormia bem há alguns meses e que necessitava fazer golos para aliviar toda a pressão e críticas de que tem sido alvo pela sua cegueira goleadora, sem dúvida alguma que este era o Raúl Jiménez. Este momento chegou. O mexicano, depois dos dois golos que fez na quarta-feira contra o Astana para a Champions League, voltou a sorrir e aquela noite dormiu profundamente pela primeira vez desde que chegou ao Benfica. Foi o chamado "alívio do goleador".
Por último desde estas linhas quero dar os meus parabéns ao Rui Vitória, aos seus craques e a todo o mundo benfiquista pela passagem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões!
GRANDE CALDEIRADA
"Fica Benítez"
Depois de o Real Madrid perder em pleno Santiago Bernabéu por 4-0 com o Barcelona (o que é sempre uma grande caldeirada...), Rafa Benítez começou a ser muito contestado e pode mesmo deixar de ser técnico dos merengues, algo que os rivais... não querem. Por exemplo, no jogo da última quarta--feira, os adeptos do Atlético de Madrid não pararam de gritar ironicamente "Fica Benítez". Por outras palavras, se o Rafa Benítez continuar no Real, eles não ganharão nada.
NÓS LÁ FORA
Paulo Fonseca e o Braga
Na quinta-feira passada, quando assisti ao jogo do Sp. Braga para a Liga Europa, fiquei mais uma vez fascinado com o trabalho do Paulo Fonseca. Uma equipa equilibrada, com um plantel de qualidade, mas acima de tudo com uma personalidade e dinâmica dentro do campo incríveis. Sem dúvida dedo do treinador. E recordei-me da conferência de imprensa que deu Camacho quando foi despedido pela primeira vez - "Agora estou ainda mais preparado para ser treinador", disse. Depois disso o espanhol foi técnico no Benfica, Real Madrid e até selecionador espanhol. E o Paulo poderá fazer um caminho idêntico, ao nível de grandes como o Camacho, pois está a provar que, depois do momento menos bom no Porto, está ainda mais competente! Muitos parabéns pela passagem à próxima fase da Liga Europa!
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
Marselha a 20 pontos
O Marselha é um clube pelo qual ganhei muito carinho. Tive um prazer e orgulho imenso em ser jogador deste clube e desde então que sigo sempre os resultados da minha equipa francesa. Ao vê-los este ano já a 20 pontos do primeiro classificado, o Paris Saint-Germain, fico bastante triste e a torcer para que rapidamente ultrapassem este momento menos bom no campeonato. Força Olimpique!
Por Paulo Futre