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Paulo Futre
Paulo Futre

Não parar de marcar golos

Nos 18 anos que fui profissional de futebol joguei nos três grandes clubes de Portugal, no Atlético Madrid (Espanha), Olympique Marselha (França) Reggiana e AC Milan (Itália), West Ham (Inglaterra) e Yokahama Flugels (Japão). Foram nove clubes, de seis países e de oito cidades.

Se me perguntam quais os adeptos que ficavam mais tristes depois por perderem um jogo, a minha resposta é pronta e inequívoca: os do FC Porto! As derrotas eram vividas de forma mais intensa. A cidade quase que chorada, como se alguém muito querido de todos os habitantes tivesse acabado de falecer. Passar uma semana naquela cidade após uma derrota era um pesadelo horrível!

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Algums vezes os meus companheiros nas equipas estrangeiras onde joguei perguntavam-me como eram os adeptos do FC Porto. Contava-lhes sempre a minha história preferida:

Estamos no Porto e vou no meu carro com o Laureta, um grande amigo e companheiro de equipa. Chego a um cruzamento com paragem obrigatória. Avanço um pouco para ver se surge alguém... Olho para o lado e vem um tipo numa moto. Ele vê que sou eu e fixa-se completamente em mim, como se ficasse hipnotizado. Em vez de abrandar, deixa-se ir contra o meu carro, bate na parte da frente, a moto vira-se e dá quatro ou cinco voltas no ar…

Coloco as mãos na cabeça e penso o pior... que está morto... Qual quê!! Levanta-se cheio de sangue, vem ter comigo e diz: "Paulo, temos de ganhar no domingo". Com o susto que apanhei, as palavras não saíam. Mas, finalmente, disse-lhe: "Estás bem? Precisas de ir ao hospital?", pergunto, preocupado, enquanto olho para a cara dele cheia de sangue. "Estou bem, estou. Mas temos de ganhar no domingo!"

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Estava a viver algo surreal. Ele viu-me e chocou no meu carro. Podia ter morrido, mas a única coisa que importava era que a sua equipa, o FC.Porto, ganhasse no domingo seguinte. "Então não!? Claro que ganhamos no domingo. Óbvio. Nem tem discussão", frisei.

Quando dali saímos, eu e o Laureta ficámos vários minutos em silêncio. "Domingo, temos de morrer dentro do campo por este homem", pensámos. A verdade é que os jogadores que lá chegavam, fossem eles estrangeiros, de Lisboa ou do Algarve, percebiam que estavam num clube diferente depois da primeira derrota. A tristeza e a frustração que se viviam dentro do balneário eram horríveis e esse mesmo sentimento de deceção alastrava por toda cidade.

Quando cheguei ao FC Porto, em 1984, metade do plantel era constituído por jogadores da formação. Eram portistas desde que nasceram e tinham uma grande paixão pelo clube.

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Amavam o FC Porto e, mesmo sendo profissionais, pagariam para vestir a camisola azul e branca se necessário fosse. Eles eram o núcleo duro que marcava as regras do balneário e transmitia a mística de que tanto se fala ultimamente. Nos três anos em que lá joguei, só perdi uma vez no mítico Estádio das Antas. Nos encontros fora fui derrotado algumas vezes e verifiquei que a a viagem de regresso no autocarro era um autêntico funeral.

Ninguém falava, mas de vez em quando, ainda ouvia frases como esta: "Os nossos adeptos não merecem isto!" O silêncio era brutal e massacrante. Era impossível dormir, pois não deixava de pensar no jogo e nos erros que cometera. Sentia-me tão mal, que tudo faria para nunca mais perder nenhum jogo. Uma derrota no FC.Porto era um pesadelo que vivias acordado, o que era muito pior...

Recordei-me desta história porque fiquei estupefacto quando vi o vídeo do Aboubakar, depois da derrota do FC.Porto, no Dragão, frente ao Besiktas. Naqueles anos, se um jogador tivesse este tipo de atitude, os dias dele estavam contados dentro do balneário que foi campeão da Europa.

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Para o núcleo duro, um erro desta dimensão era imperdoável. Rir-se no balneário do rival depois de uma derrota da sua equipa, mais do que uma falta de respeito, seria um insulto aos companheiros, ao treinador, ao presidente e a todos os adeptos portistas. Mas os tempos são outros e o Mundo mudou completamente. O Aboubakar poderá ser perdoado pelos seus companheiros e pela massa associativa do FC.Porto. Para isso acontecer, só tem uma solução, que é não parar de fazer golos!

CALDEIRADA DA SEMANA

Não inventes, Vicenzo!

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Itália costuma ter paciência com os jogadores estrangeiros, pelo que fiquei surpreendido com este início de liga. Primeiro, por ver o André Silva no banco e depois pela atitude do seu treinador, Vicenzo Montella, que pretende "gerir gradualmente o crescimento" do ponta-de-lança. Que estranho... um jogador titular da seleção portuguesa, que custou 30 milhões de euros... Ficando no banco, a única coisa que cresce são as dúvidas! Mas o André é um campeão, como demonstrou com o hat trick em Viena. No dia seguinte, a imprensa deixou a pergunta : "E agora, Montella?" Eu vou mais longe: "Vincenzo, não inventes mais".

NÓS LÁ FORA

A razão de Buffon

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O capitão da Juventus, o mítico guarda-redes Gianluigi Buffon, sofreu, nos dois últimos jogos da Liga dos Campeões, 7 golos, 4 na final com o Real Madrid, dois deles de Cristiano, e, na terça-feira, 3 do Barcelona, com um bis de Messi. Animacamente abatido, depois de ouvir várias críticas, fez estas declarações:" Em Itália, sabem a qualidade de Messi e Cristiano? Nós, na Juve, tivemos a sorte de jogar contra campeões como eles, mas devemos entender o que significa realmente enfrentá-los... Creio que uma parte de Itália não tem a perceção do seu nível". Por outras palavras disse: "não escrevam tonterias e tenham respeito por mim."

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES

Saudades

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Aí está o meu Atlético Wanda Metropolitano! Por motivos profissionais, não pude ir a Madrid e vi o jogo com o Málaga pela televisão. O estádio é maravilhoso. Eu sei que o Mundo mudou e já tive oportunidade de me despedir do mítico Vicente Calderón, onde passei vários dos momentos mais marcantes e inesquecíveis da minha vida. Confesso que tentei mudar o chip. Antes de começar o jogo, e até ao minuto 20, estava feliz. Mas depois chegou nostalgia e o Calderón permaneceu na minha mente até ao final do jogo. Assim que a partida terminou disse para mim mesmo, "ainda bem que não fui a Madrid, porque o chip ainda não mudou totalmente".

Por Paulo Futre
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