_
Dois dias depois da minha chegada ao Atlético Madrid, em 1987, tive uma reunião com o delegado da equipa, Carlos Peña. Falámos de tudo o que eu devia saber sobre a sociedade espanhola. A primeira ‘aula’ provocou-me muitos pesadelos, atendendo aos conselhos dados pelo meu amigo Carlitos.
"Nunca andes no centro da cidade entre as 7 e as 10 da manhã, porque é o horário mais propício a atentados terroristas", disse-me, contando-me outro episódio arrepiante. "Há seis anos, em 1981, Quini, a grande estrela do Barcelona e um dos melhores pontas-de-lanças de sempre do futebol espanhol, foi sequestrado por três homens quando regressava a casa, depois de um jogo no Nou Camp. Os sequestradores queriam 350 milhões de pesetas (cerca de 2 milhões de euros) ou matavam o Quini. Felizmente a polícia espanhola, em colaboração com a da Suíça, prendeu um desses homens em Genebra e o Quini foi libertado 25 dias depois. Tu tens 21anos, mas já és uma estrela. Nunca repitas o caminho de casa para o Estádio Vicente Calderón e vice-versa."
Quando terminou a última frase, olhou para mim. Eu devia estar tão pálido que ele mudou radicalmente de tema. "E, quanto à imprensa, o diário ‘Marca’ é o melhor jornal de desporto em Espanha. É a ‘bíblia’ desportiva para os espanhóis. Os jovens que querem ser jornalistas desportivos têm dois sonhos, o primeiro é trabalharem na ‘Marca’, independentemente do clube que sejam, e o segundo é pertencerem ao grupo dos 6 ou 7 jornalistas que fazem a informação diária do Real Madrid. Se estão no melhor jornal e fazem o acompanhamento do melhor clube do Mundo, significa que estão entre os melhores do país e são a elite do jornalismo desportivo em Espanha. Por esta razão, o grupo que faz a informação diária para ‘Marca’ do Atlético Madrid está muito perto de conseguir este objetivo. Vais vê-los todos os dias. Mas, por muito simpático que sejas com eles, no momento que faças um jogo mau, ou digas algo que não lhes agrade, vão criticar-te e massacrar cruelmente. Por muito duras que sejam estas críticas, nunca as leves para o lado pessoal e nunca deixes de falar à ‘Marca’."
Recordo-me desta história porque comecei a colaborar com o diário ‘Marca’ em 2004 e, desde o primeiro jogo oficial que o Atlético Madrid fez na época 2009/10 ao último, que foi na quarta-feira, contra o Qarabag, que escrevo sobre a atualidade colchonera no meu espaço "Los toques de Futre". Sempre tive ao longo destes anos um amigo nos jornalistas da ‘Marca’ que faz a informação diária do Real Madrid. E, mais do que uma vez, durante a passagem de Mourinho pelo clube, recebi chamadas telefónicas após algumas famosas conferências de imprensa: "Português, este Mourinho, quando quer, é tão enigmático que dá comigo em doido! Tu, que o conheces bem, tenta lá decifrá-lo..."
Algumas vezes, antes de dar a minha opinião, citava o Carlos Peña em jeito de brincadeira. "Os jornalistas que chegam onde tu estás hoje são autênticos fenómenos. Mas a verdade é que o único génio aqui é Mourinho e, como tal, muitas vezes é quase impossível perceber onde é que ele quer chegar com determinada frase.
E, na quarta-feira, foi um desses momentos. Assim que finalizou o Benfica-Manchester United, marcado pelo erro de Svilar, Matic revelou a estratégia de Mourinho: "O treinador disse que tínhamos de tentar rematar e de fazer cruzamentos, porque ele era jovem..." Assim sendo, quando o treinador diz, na conferência de imprensa a seguir ao jogo, que "só um grande guarda-redes é que sofre este golo. Este miúdo é um fenómeno", eu continuo com dúvidas.
Já passaram vários dias e ainda não consegui perceber. Ele pensa mesmo assim e é admirador das qualidades do jovem belga ou, como ser humano espetacular e com um filho da idade de Svilar, teme que um erro daquela dimensão possa destruir animicamente o jovem guarda-redes? Sentiu que tinha de levantar o moral ao miúdo com aquelas palavras ou, depois de ver a situação horrível de Svilar, ficou com remorsos da estratégia montada? Como dizia o meu amigo jornalista, decifrar um génio como Mourinho às vezes é mesmo impossível.
CALDEIRADA DA SEMANA
Ainda o caso Neymar
O Paris SG está a praticar um futebol espetacular, tanto na liga francesa como na Champions League. Mas, por muito que se abracem em cada golo, vitória ou título, a história do penálti que envolveu Neymar e Cavani vai perdurar. Os uruguaios nunca perdoaram o brasileiro pelos gesto feio que teve para com o seu compatriota. Esta semana, numa entrevista na ‘Rádio Marca’, o ex-internacional uruguaio Dario Silva, que jogou no Peñarol, Cagliari, Espanyol, Málaga, Sevilha e Portsmouth, teve este comentário:"Se Neymar me fizesse o que fez ao Cavani, ainda estava a ser operado!"
NÓS LÁ FORA
Milagre de Marco Silva
Assim que terminou o último jogo da passada jornada da Premier League, fui ver a classificação e tive um prazer enorme. Foi tão maravilhoso que voltei a dar uma olhadela, porque não é todos dias que tubarões como Chelsea, Arsenal e Liverpool não estão nos quatro primeiros lugares e uma equipa humilde, como o Watford, entraria na Liga dos Campeões se o campeonato tivesse terminado na semana passada. O treinador deste pequeno milagre chama-se Marco Silva. Impressionante! Muitos parabéns, Marco, pelo trabalho excelente que estás a fazer!
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
Velódrome, local mítico
O V. Guimarães disputou o terceiro jogo da fase de grupos da Liga Europa, contra o Marselha, uma equipa que investiu forte no mercado de verão para tentar lutar pelo título com os ‘galácticos’ do Paris SG e com o Monaco. Apesar da diferença abismal de orçamentos, o Vitória perdeu injustamente 2-1. Pela excelente primeira parte que fizeram, os vimaranenses mereciam trazer para a Cidade Berço pelo menos um pontinho. Mas enquanto via o jogo, pensava na minha estreia espetacular como jogador do Marselha, naquele mítico estádio Velódrome...
Por Paulo Futre