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Ontem foi dia de dérbi em Portugal, mas o meu pensamento ainda está no Real Madrid-Atlético Madrid, da semana passada, e mais concretamente nas declarações proferidas pelo Cristiano Ronaldo depois desse jogo.
A época 2014/15 já tinha sido horrível para o Real Madrid. Os merengues não conquistaram qualquer título e, injustamente, acabaram por despedir Carlo Ancelotti, depois de o técnico italiano vencer a Champions League no ano anterior. Agora, em 2015/16, o Real está a ir pelo mesmo caminho. Desde o verão passado que há episódios inacreditáveis e, por vezes, surreais a passarem-se na casa dos blancos.
O primeiro teve Iker Casillas como protagonista. Todo o processo que culminou com a despedida do guarda-redes espanhol foi triste e gerido de forma fria, como se de um jogador qualquer se tratasse. Sem dúvida alguma que o Real Madrid é um dos melhores clubes do Mundo mas, por diversas vezes, os seus responsáveis têm atitudes inadmissíveis.
Uma lenda viva, como é Iker para os merengues e para todos os espanhóis, não podia ter saído daquela maneira . Para cúmulo, passaram a imagem de que era um ‘pesetero’, que discutiu um milhão de euros acima ou um milhão de euros abaixo (o que para o Real Madrid não é nada) para acertar a rescisão. Casillas, um homem que lhes deu tudo durante 25 anos, 16 dos quais na equipa principal, saiu pela porta pequena, o que faz também do Real Madrid o maior clube do Mundo em ingratidão.
Houve depois o caso polémico de David de Gea, a grande novela do verão, que acabou da pior maneira, com um último capítulo, no mínimo, surreal. O mercado de transferências fechava à meia-noite do dia 31 de agosto, como acontece todos os anos. Às 23h35, na hora espanhola, o empresário Jorge Mendes tinha a operação concluída, pelo que não se compreende como é que clubes da dimensão de Real Madrid e Manchester United demoraram tanto tempo a encerrar o processo de transferência, enviando os documentos já depois do prazo. O contrato não foi obviamente aceite pela liga e o jogador acabou por permanecer em Manchester. Foi um falhanço inacreditável de dois gigantes do futebol mundial!
As críticas ao presidente Florentino Pérez foram duríssimas e... prolongadas. De Gea terminava contrato em julho de 2016 e a grande maioria dos adeptos do Real pensava que o espanhol ia assinar em janeiro com o clube merengue a custo zero. Mas, contra todos os prognósticos, o guarda-redes renovou com o Manchester United, o que dececionou os madridistas.
O caso seguinte foi a humilhante derrota, por 4-0, contra o Barcelona em pleno Bernabéu. Foi o princípio do fim para o treinador Rafa Benítez. E pouco depois, chegou novo escândalo. Na Taça do Rei, frente ao Cádiz, da segunda divisão B, o Real cometeu um erro tremendo, sendo eliminado da competição. Como é possível que um clube desta dimensão se engane e coloque o russo Cheryshev em campo quando este se encontrava suspenso? Inacreditável!
O último problema grave aconteceu na semana passada, após o jogo com o Atlético Madrid. Os merengues perderam o dérbi e, muito mais grave, disseram adeus ao campeonato... Quando vi o Cristiano Ronaldo parar na zona mista para responder às perguntas dos meios de comunicação social, disse para mim mesmo: ‘Grande campeão! Está a dar a cara num momento complicadíssimo!’ Mas, por outro lado, também pensei que, com toda aquela frustração, podia rebentar com tudo. E assim foi...
Os jornalistas conhecem bem o Cristiano e fizeram-lhe perguntas que tocaram na ferida e no seu orgulho. Por estas razões, não consigo entender como é que alguém da estrutura do Real não evitou tudo aquilo. O único jogador que não podia parar na zona mista era precisamente o Cristiano Ronaldo!
O annus horribilis continua, embora ontem, com a vitória, por 7-1, frente ao Celta de Vigo, e os 4 golos do Cristiano, o ambiente tenha melhorado.
Caldeirada da semana -- Lacen
"Somos uma autêntica equipa de m.... e vamos para a segunda divisão de cabeça." Estas foram as declarações duríssimas de Lacen, jogador do Getafe, após a derrota da sua equipa, por 4-0, em Las Palmas, na semana passada. Com esta frase, que normalmente se diz dentro do balneário, foi um dos grandes protagonistas da jornada. Naquele jogo, o Getafe averbou a sétima derrota consecutiva... Enfim, uma autêntica caldeirada. Com esta dinâmica perdedora, e a quente, podes dizer qualquer barbaridade. Nem sabes se estás no balneário ou falar em direto para toda a Espanha. Foi o que aconteceu a Lacen.
Nós lá fora -- Daniel Carriço
"Oxalá possa ser capitão do Sevilha", disse Daniel Carriço, em maio de 2014. O jogador português está no seu terceiro ano ao serviço do Sevilha. Esta época, uma rotura muscular na perna direita impediu-o de jogar até janeiro, e pouco a pouco começa a estar ao seu melhor nível. Tanto assim é que, na quarta-feira, a sua equipa ganhou ao Eibar, por 1-0, e ele atuou os 90 minutos. Como português, senti um grande orgulho quando vi o Daniel Carriço com a braçadeira de capitão no seu braço esquerdo. Parabéns, campeão!
Álbum de recordações -- Sporting-Benfica
Ontem foi dia de dérbi entre dois gigantes do futebol português. O país parou. Joguei muitos dérbis por todos os países por onde passei. São jogos muitos especiais. De qualquer forma, os verdadeiros dérbis são aqueles que se disputam na segunda volta dos campeonatos. A liga está a terminar e não podes falhar. Ontem, era um jogo com toda esta tensão. Uma hora e meia antes do encontro começar não se ouve uma mosca dentro do balneário. É o chamado silêncio do medo. E até desses momentos eu tenho saudades de um dérbi.
Por Paulo Futre