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Na próxima quarta-feira, Portugal vai parar com o grande dérbi lisboeta. Ainda faltam três dias mas a minha cabeça neste momento já está no Estádio da Luz, a pensar nos médios-defensivos de ambas equipas.
Durante os meus 18 anos como profissional tive o privilégio de jogar com trincos de classe mundial e alguns deles eram imprescindíveis nas respetivas equipas. Se tiver de eleger dois sem dúvida alguma que o primeiro é um português que nasceu nas Caxinas, em Vila do Conde. Naquela equipa de sonho do FC Porto que foi campeã da Europa em 1987 havia jogadores de grande nível. Mas se o nosso médio-defensivo, o enorme André, não pudesse jogar num grande jogo por estar castigado ou lesionado era um golpe duríssimo para o moral de toda a equipa. Pessoalmente, se soubesse disso na véspera de um grande clássico ou num jogo das competições europeias, naquela noite não seria nada fácil adormecer, porque sabia que ele era o nosso verdadeiro motor e ponto de equilíbrio.
Defensivamente, estava sempre bem colocado, varria tudo e recuperava bolas como nenhum outro. Com a sua raça, fibra, entrega e caráter de guerreiro, por muito talento que tivessem os adversários dificilmente passavam por ele. O André era mesmo uma autêntica muralha defensiva e a confiança que tinham os dois defesas-centrais com ele à frente deles era brutal. Era um fenómeno a destruir, mas também a construir, já que a construção do nosso jogo ofensivo começava nos seus pés e muitas vezes também terminava, com algumas das muitas assistências que deu ao longo da sua carreira. O André não era um ponta-de-lança, não era um número 10, tão-pouco um extremo; era um trinco, mas um trinco genial e imprescindível.
O segundo, de outro tipo completamente diferente, era o Marcel Desailly, que foi campeão do Mundo em 1998 com França e é considerado um dos melhores jogadores de sempre do futebol francês. Eu tive o privilégio de jogar com ele em dois clubes. O primeiro foi o Marselha e ele ainda jogava como central. Era um daqueles centrais que metem medo só com a sombra, já que fisicamente era um autêntico animal. Nos treinos de conjunto ou nas ‘peladas’ evitava sempre estar perto dele quando não ficávamos na mesma equipa. Foi naquela posição de central que se destacou no Marselha e foi nessa posição que começou a jogar no AC Milan, a segunda equipa em que jogámos juntos.
Com o tempo, passou a alternar entre central e trinco. E nem se notava a diferença. Jogava a 6 com a naturalidade de quem parecia nunca ter conhecido outra posição. Enorme recuperador de bolas, mas também capaz de sair a jogar com qualidade de passe. Andou entre as duas posições durante muitos anos. No Milan, começou a ser um trinco imprescindível para o Fabio Capello e na seleção francesa era imprescindível como central. Em qualquer das posições estava muita acima da média. O Marcel era mesmo um autêntico craque.
E recordo-me destes trincos geniais porque desde que me retirei, em 1998, até aos dias de hoje disputaram-se muitos clássicos e dérbis no campeonato português. Nos dias antes desses grandes jogos era frequente receber uma chamada de algum jornalista para saber a minha opinião. Normalmente, uma das perguntas que me faziam era: "Quem será para ti o homem do jogo?" Logicamente apostei quase sempre que o jogador que ia decidir a partida seria um ponta-de-lança, um numero 10 ou um extremo. Mas se hoje, amanhã ou na terça-feira, antes do grande dérbi no Estádio da Luz, me perguntarem qual o jogador cuja ausência mais me afetaria animicamente se eu fosse titularíssimo deste Benfica ou deste Sporting, a minha resposta seria esta:
O Bast Dost e o Jonas são os goleadores e superimportantes.
O Salvio e o Gelson podem decidir o jogo em qualquer momento com uma jogada genial. O Bruno Fernandes, o Pizzi e todos os outros titulares indiscutíveis são importantes, mas os únicos craques nestes grandes jogos, que me tirariam o sono se não pudessem jogar, sem dúvida alguma seriam os médios-defensivos. Porque o Fejsa e o William são mesmo os chamados trincos, imprescindíveis.
Caldeirada da semana
Caridad Gómez Mourelo, responsável pela Unidade Central de Coordenação do Tesouro espanhol, afirmou em tribunal o seguinte: "Temos pessoas na prisão por terem deixado de pagar 125 mil euros." Estava a referir-se ao caso de Cristiano Ronaldo e considerou "importantíssima" para o fisco espanhol a verba de quase 15 milhões de euros que é imputada ao craque português. Fiquei preocupadíssimo, porque se o CR7 não paga Espanha ainda pode entrar em uma crise económica horrível... As palavras "prisão" e "importantíssima" são ridículas, mas nesta perseguição feroz ao Cristiano vale tudo!
Nós lá fora
O meu querido amigo Carlos Carvalhal – meu companheiro de quarto durante anos nas Seleções jovens de Portugal – passou duas épocas e meia no Championship, a segunda divisão de Inglaterra, ao serviço do Sheffield Wednesday e tem agora a grande oportunidade para concretizar o sonho que era treinar uma equipa da Premier League. O míster Carlos Carvalhal é o novo técnico do Swansea! Muitos parabéns, Carlinhos. E muita força, amigo!
Álbum de recordações
Quando, em dezembro de 1995, anunciaram que a Bola de Ouro seria para George Weah eu era seu companheiro no AC Milan. Em Milanello, na academia dos rossoneri, foi um dia de uma felicidade extrema. Porque o George, além de ser um génio do futebol, era um companheiro espetacular e um ser humano maravilhoso. Vinte e dois anos depois daquele dia, o George continua a ser o único jogador de um país africano que conseguiu ganhar a Bola de Ouro. Recordo-me deste fenómeno porque o George Weah foi eleito nada mais nada menos que presidente da Libéria. Enorme George. Muitos parabéns, amigo!