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Paulo Futre
Paulo Futre

'Portugal é um paraíso'

O jogo foi no Santiago Bernabéu e terminou por volta das 23 horas, mas só conseguimos abandonar o estádio já de madrugada. E em carrinhas da polícia... Na segunda parte, o resultado era desfavorável ao Real e os Ultras Sur

(claque radical do Real Madrid) fizeram algo que nunca tinha acontecido dentro de um estádio de futebol. Conseguiram chegar ao terceiro anfiteatro onde estava a Frente Atlético (claque radical do At. Madrid) e começou um combate infernal entre as duas claques mais violentas de Espanha. E a batalha continuou depois do jogo nas ruas de Madrid. Era uma partida de máximo risco e havia centenas de polícias, mas não conseguiram evitar a guerra nem dentro nem fora do estádio. Se o governo soubesse que ia acontecer aquele caos, naquela noite tinha declarado o recolher obrigatório na capital espanhola… Entre as horas em que estive dentro do balneário – e as notícias horríveis de que nos dava conta a polícia da situação fora do estádio (aquela noite negra acabou com vários feridos, um muito grave por apunhalamento) – comecei a ficar assustado. E senti muito medo dentro da carrinha da polícia no percurso do Bernabéu ao nosso estádio, só consegui falar quando chegámos ao destino. E fiz esta pergunta ao delegado da equipa: Carlos, isto sempre foi assim?

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"Não, houve um tempo nos anos 60/70, em que os adeptos merengues e colchoneros se misturavam sem maiores problemas nas bancadas do Santiago Bernabéu ou no Vicente Calderón para ver o Atlético Madrid-Real Madrid e vice-versa. Sem agressões nem insultos. Era uma rivalidade sã", disse.

"Tudo começou a piorar com o aparecimento dos Ultras Sur e da Frente Atlético em 1981, mas sobretudo com a guerra sem limites entre os presidentes Ramón Mendoza e Jesús Gil e Gil", acrescentou.

O Carlos tinha toda razão, durante muitos anos, cada vez que abriam a boca era para fazer sangue e destruir o outro, eram declarações terríveis que geravam violência.

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Como já passou tanto tempo, tive de ir ao Google pesquisar as batalhas deles, porque já não me recordava de muitas, mas algumas delas ainda me deixam surpreendido, como por exemplo esta:

A quinta de Valdeolivas do Jesús Gil y Gil foi assaltada uma madrugada. No dia seguinte, o presidente colchonero atacou desta maneira: "A forma de atuar do presidente do Real Madrid é parecida à usada pela KGB. Primeiro sente-se ofendido e depois alerta os Ultras Sur, que atuam em consequência. A forma de proceder do Real é como o Uganda. E faz com que Ramón Mendoza seja o ditador Idi Amín. Já temia algo assim, desde que ouvi o rumor de que os Ultras Sur pretendiam queimar a minha camioneta Chevrolet, que me ofereceram os meus sócios ingleses."

Ramón Mendoza respondeu ironicamente: "Tenho um álibi; estive a jantar com o presidente da Argentina, Raúl Alfonsín."

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Inacreditável…

Foram dois presidentes irrepetíveis, mas passaram todos os limites. Ambos estavam proibidos de entrar no estádio do rival e 15 dias antes de cada dérbi, com as suas declarações bombásticas – Gil y Gil, em 1998, no lançamento de de uma partida no Calderón, disse: ‘Não vamos deixar que nos roubem este jogo. Morte ao invasor!’ – incendiavam de tal maneira o dérbi, que a tensão chegava a casa de todos os madrilenos. Eram os dérbis do medo.

Nunca esquecerei o segundo dérbi que joguei. Saímos do hotel duas horas antes do jogo com carros e motas da polícia por todo lado. Com tanta segurança era impossível sermos atacados, mas mesmo assim o autocarro foi apedrejado pelos Ultras Sur na M-30 já muito perto do nosso estádio e foi um susto de morte.

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Chegou um momento em que a situação era tão grave que os dois presidentes foram praticamente obrigados a dar uma conferência de imprensa improvisada e anunciaram que a guerra entre eles terminara. Aquelas palavras acalmaram os adeptos normais. Mas já era tarde para os radicais. As batalhas continuaram não só entre eles, mas também com muitas outras claques inimigas.

Depois de tantos anos de violênciacom muitos feridos (alguns gravíssimos) tinha de chegar a desgraça. Em 1998, Aitor Zabaleta, adepto da Real Sociedad, foi assassinado ao lado do Estádio Calderón por membros do ‘Bastion’, o braço mais duro e violento da Frente Atlético.

Recordo-me destas histórias que vivi em Espanha porque esta semana o debate que nas televisões, jornais, rádios e redes sociais sobre o Sporting e o Benfica começou a ser preocupante. Quando a discussão pela rivalidade termina em insultos e falta de respeito é grave.

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Desde estas linhas, peço aos dirigentes destes dois grandes clubes que tive o privilégio de representar, e também a todos os comentadores do Benfica e Sporting, para acalmarem os seus discursos. A violência verbal normalmente termina em violência física. No futebol português sempre existiu a rivalidade e houve alguns casos de violência, mas felizmente continuamos a estar muito longe do que se passa noutros países. Portugal, neste aspeto, sempre foi (e tem de continuar a ser) um paraíso.

Caldeirada da semana: Buffon

Mais do que uma caldeirada, foi a surpresa e a notícia da semana. O jogo grande da última jornada de apuramento para o Mundial’2018 foi em Turim, entre a Itália e a Espanha. E no minuto 58, o guarda-redes italiano tem uma saída em falso e a jogada terminou no golo dos espanhóis. Foi um erro grave que pode acontecer a qualquer guarda-redes. Mas o Bufon é uma lenda e ao longo da sua carreira raramente deu frangos monumentais como aquele contra a Espanha. 0 erro dele foi uma novidade e foi falado em meio Mundo. O Gianluigi Buffon é um mito até quando erra.

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Nós lá fora: André Martins

O ex-jogador do Sporting, depois de uma fase menos conseguida na sua carreira, mudou-se esta época para o campeão grego, o Olympiacos.

Na última jornada esteve em grande, ao marcar um golo na vitória da sua equipa no dérbi da capital helénica, frente ao AEK Atenas, e foi considerado o melhor jogador da jornada. Que esta seja a primeira de muitas alegrias deste pequeno grande jogador. Parabéns, André!

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Álbum de recordações: Gelson

Quando qualquer miúdo da formação de um grande clube começa a jogar e a ter minutos na equipa principal, por experiência própria, sou sempre muito cauteloso quando dou a minha opinião. Ao longo da história muitos conseguiram chegar, mas poucos conseguiram consagrar-se. Os jovens que saem da formação não têm qualquer tipo de pressão por parte dos adeptos – o que é muito bom – mas, por outro lado, têm muito pouco tempo para se afirmarem. A consagração só chega quando começam a ser imprescindíveis no 11 .O Gelson surgiu o ano passado e não parou de crescer futebolisticamente. Depois deste início de época brilhante, e dos jogos espetaculares contra FC Porto e Real Madrid ou mesmo o último em Guimarães, o Gelson conseguiu chegar à meta. Hoje, no Sporting, é ele e mais dez. Parabéns, menino!

Por Paulo Futre
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