A euforia e o excesso de confiança
É mau sinal quando o excesso de confiança entra no balneário de uma grande equipa. Sentes-te ainda mais superior e perdes completamente o respeito pelo adversário. São momentos de euforia que, quando menos esperas, origina surpresas e desgostos.
Como tive o privilégio de jogar em grandes clubes, vivi momentos assim. Algumas das derrotas que mais dor me provocaram aconteceram precisamente quando o balneário se sentia invencível. Nessas ocasiões, chegava a tempestade...
O mais incrível é que o excesso de confiança pode invadir-nos mesmo depois de uma derrota ou de um mau resultado. Nos oitavos-de-final da Taça dos Campeões Europeus, na época 1985/86, o FC Porto jogava com o Barcelona, um dos grandes candidatos ao título. No jogo da primeira mão, disputado na Catalunha, perdemos 2-0, um resultado negativo, mas que fez com que não déssemos a eliminatória por perdida.
Seria muito difícil dar a volta à eliminatória contra uma equipa daquele nível. Mas, se fizéssemos um jogo perfeito, até podíamos alcançar esse pequeno milagre. A noite foi quase perfeita. Conseguimos empatar a eliminatória na segunda parte, com dois golos de Juary, e, no único erro que cometemos, eles marcaram em contra-ataque. Mesmo assim, não desistimos. Nos minutos seguintes, o mesmo Juary obteve o terceiro golo. Tivemos várias oportunidades para fazer o 4-1 e, pelo ‘banho’ de futebol que demos ao Barcelona, merecíamos ter passado a eliminatória.
A imprensa portuguesa elogiou-nos durante vários dias e as críticas altamente favoráveis que nos chegavam do estrangeiro fizeram com que o nosso ego crescesse de tal maneira, que estivemos fora da realidade durante semanas. E esse estado de espírito quase nos custou o campeonato. Perdemos vários jogos, até mesmo com o último classificado, que era o Sp. Covilhã. Aprendemos a lição e o excesso de confiança nunca mais entrou no balneário. Aquele FC Porto seria campeão da Europa um ano e meio depois.
No meu primeiro ano em Espanha, vivi um caso semelhante. Na época 1987/88, o Atlético Madrid era um dos três candidatos ao título. Nas primeiras nove jornadas, tínhamos vencido todos os jogos no Vicente Calderón e, fora de casa, apesar de uma derrota e um empate, leváramos de vencida o Barcelona em Nou Camp. Na décima jornada, jogávamos no Santiago Bernabéu contra o Real Madrid, líder do campeonato. Ganhámos o dérbi, por 4-0, um resultado histórico, e ficámos a um ponto dos merengues, o que levou os adeptos a festejarem durante vários dias. Os rasgados elogios da imprensa espanhola e da internacional fez parecer, por outro lado, que tinha sido o último jogo do campeonato e que já tínhamos conquistado o título.
Todo o plantel foi contagiado por aquela euforia. Tinham passado oito dias do dérbi e durante o jantar realizado na véspera do encontro seguinte, quando já nos encontrávamos em estágio, o tema de conversa continuava a ser o ‘banho’ dado ao Real Madrid.
Durante toda a minha carreira, pensei, antes de adormecer na véspera de cada jogo, no defesa que ia marcar-me no dia seguinte e nos movimentos e fintas que tinha de executar. Talvez tenha sido naquela noite a única vez que não pensei no meu rival... A minha mente ainda estava no Bernabéu e recordava-me do golo e das assistências que tinha feito. Jogávamos em casa, onde éramos ‘invencíveis’, com o Sp. Gijón, que semanas antes perdera com o Real Madrid, no Bernabéu, por 7-0. Acabámos derrotados, por 2-1... Foi um dia um negro para o mundo rojiblanco. Ninguém imaginava o empate, quanto mais a derrota. A crise chegou e dissemos adeus ao campeonato....
Recordo-me destas histórias porque o Sporting fez uma exibição de sonho no Bernabéu. Os jogadores foram elogiados de uma ponta à outra do Planeta e, contagiados por essa euforia, o excesso de confiança tomou conta do balneário dos leões. Três dias depois, o Sporting jogou em Vila do Conde mas ainda estava a sonhar com o excelente desempenho de Madrid. Só voltou à realidade depois do terceiro golo do Rio Ave. Já era tarde...
Caldeirada da semana -- Valencia
Quando assinaram pelo Valencia, Nani e Garay não podiam imaginar, nem sequer nos seus piores sonhos, que estariam em último lugar na liga espanhola, à quarta jornada, com zero pontos e com o seu treinador demitido. Os adeptos chés são muito exigentes. Na quinta-feira, o Valencia recebeu o Alavés num ambiente de cortar à faca. A pressão foi enorme para os jogadores. Se não ganhassem, era o caos. Não seria nada fácil para eles saírem do Estádio Mestalla em caso de um resultado negativo. Felizmente, ganharam, por 2-1, e Nani e os companheiros conseguiram alguma tranquilidade.
Nós lá fora -- Raphaël Guerreiro
O nosso lateral-esquerdo, depois do excelente Europeu que fez, assinou por um dos melhores clubes da Europa, o Borussia Dortmund, onde tem estado em destaque. Na terça-feira tinha marcado um golo e feito duas assistências, sendo elogiado pela imprensa alemã e pelo seu treinador.
Anteontem, de novo para o campeonato, marcou mais um golo. Se as lesões não o atormentarem, o Raphaël será o melhor lateral do Mundo, dentro de poucos anos. E tem tanta qualidade que até pode jogar no meio-campo, como tem acontecido na equipa de Tuchel.
Parabéns, campeão!
Álbum de recordações -- Momento único
No dia 21/9/1983, Portugal jogava contra a Finlândia no Estádio José Alvalade. Era um jogo de qualificação para o Euro’84, em França. Eu tinha 17 anos e encontrava-me em estágio com a Seleção de Esperanças, quando recebi a notícia que todos os jovens sonham. Houve uma lesão na Seleção A e o substituto seria eu. O selecionador era Fernando Cabrita e ainda hoje me recordo do momento em que ele me disse para aquecer, pois ia substituir o Jaime Pacheco. A minha primeira internacionalização foi há 33 anos. Um momento histórico e único.
