Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

A minha história com Fernando Couto

Quando dois grandes amigos se defrontam, a frase que normalmente dizem na conferência de imprensa de antevisão desse jogo é invariavelmente esta: "Durante os 90 minutos, ele será o meu pior inimigo."

Vivi algumas histórias destas na minha carreira e uma delas pareceu surreal. Na minha última época no FC Porto, em 1986/87, eu já era um jogador consagrado e respeitado no balneário. Uma certa noite, recebo uma chamada telefónica do meu vizinho e também amigo José Carlos, que, na altura, era o guarda-redes dos juniores dos dragões. "Paulinho, o meu melhor amigo da minha equipa recebeu agora a notícia que amanhã vai treinar-se com vocês. Ele é um pouco tímido, mas é boa gente. Dá-lhe moral para que ganhe confiança e perca a vergonha. Ele é defesa-central, chama-se Fernando Couto, e vai ser craque. É um autêntico leão!"

Hoje, 30 anos depois daquela chamada telefónica do Zé, o tal menino que ia treinar-se pela primeira vez com a equipa principal do FC Porto é considerado um dos melhores centrais de sempre da história do futebol português. A partir daquele momento, fizemos uma boa amizade e fui seguindo atentamente a sua carreira...

Cinco anos depois, na época 1991/92, o Fernando já era titular indiscutível no FC Porto e eu jogava muito mais do que uma final em Espanha. Tratava-se da finalíssima da Taça do Rei, de 1992, no Estádio Santiago Bernabéu, entre o Real Madrid e o Atlético Madrid. A expectativa era enorme e o jogo ia ser transmitido para meio Mundo.

O campeonato português já tinha terminado e o Fernando Couto e o José Carlos queriam ver o dérbi ao vivo. Foram meus convidados. Aquele dia foi mágico e histórico para o Atlético Madrid e para mim. Ganhámos 2-0, marquei o segundo e tive um lance genial na segunda parte, que Enrique Ortego, grande jornalista espanhol, imortalizou no jornal do dia seguinte, ao escrever: "Valeu a pena vir da final do Euro’92, entre Dinamarca e Alemanha [realizada na véspera], para ver o túnel do século".

O Chendo era o capirão do Real Madrid e um dos melhores defesas que me marcou ao longo da carreira. Fazer-lhe uma ‘cueca’ não era nada fácil. Quando cheguei a casa, depois do jogo, e antes de irmos festejar o título pela noite madrilena, o Fernando deu-me um abraço e os parabéns , dizendo-me: "Coitado do Chendo! Nunca tinha visto nada assim na minha vida. Vai ter pesadelos contigo durante vários anos".

Mas o destino é incrível. Nove meses depois, a 17 de abril de 1993, na 28.ª jornada do campeonato nacional, Portugal também ia parar. Era dia de grande clássico no Estádio da Luz, entre Benfica e FC Porto. Os dragões tinham 2 pontos de vantagem sobre as águias. Eu era o número 10 dos encarnados e o Fernando o 5 dos azuis e brancos.

Quando o árbitro apitou para o início da partida, sabia que ia ser uma batalha enorme, mas nunca podia imaginar o que ia acontecer.Nos primeiros minutos, sofro uma falta dura e fico no chão a queixar-me. Alguém mete a boca perto do meu ouvido e diz-me: "Filho da p...,vou-te matar c.... Vais-te levantar desta vez porque não fui eu que fiz a falta, quando eu fizer, não te vais levantar mais filho da p..." Quando volto a cara e vejo que é o Fernando Couto que estava a dizer aquelas barbaridades, fiquei estupefacto. Levantei-me rápido e fui direito a ele e disse-lhe: "Sabes com quem estás falar, c..., filho p..."E ele, cego, responde: "Contigo, filho da p..."

Cada vez que estávamos perto um do outro, insultávamo-nos cada vez mais. Na segunda parte, mudei de tática e dizia-lhe: "Vou-te dar uma ‘cueca’, como fiz ao Chendo e vou-te humilhar. Podes fechar as pernas, mas a bola vai passar".

Mas um campeão como ele não tremia. Ficou dois segundos em sentido quando ouviu aquelas frases, mas voltou a insultar-me. Estivemos ambos assim até ao final do jogo, que acabou 0-0. Foram 90 minutos de ódio.

Dois dias depois, entrámos em estágio com a Seleção para o jogo com a Escócia. Tínhamos de estar no hotel depois de jantar. Fui direto ao meu quarto e, perto das 23 horas, batem à porta. Pensava que era o roupeiro com o saco da roupa e abri logo a porta. Assustei-me. À minha frente estava o Fernando a olhar para mim seriamente. Quando me preparava para recordar-lhe que o jogo já tinha terminado, ele diz-me: "Perdoa-me, Paulinho, perdoa-me, amigo. Dá-me um abraço, amigo. Vi-te com a águia ao peito e fiquei completamente cego. Eu respondi-lhe: "Sabes porque é que continuo chateado contigo? Porque não consegui dar-te um túnel". Nós rimos e demos um abraço e não falámos mais daquela batalha.


CALDEIRADA DA SEMANA

Trabalhar no Barça?

Raúl González deixará de ser, na próxima semana, o embaixador da liga espanhola nos Estados Unidos. Há uns dias, concedeu uma entrevista, onde abordou diversos temas da atualidade . O antigo avançado ainda não sabe se quer abraçar a carreira de treinador ou dedicar-se a qualquer outra função. Mas, quando o mítico jogador e lenda do Real Madrid, admitiu trabalhar no Barcelona, originou prontamente uma grande caldeirada por toda a Espanha. " Trabalhar no Barça? Isto é futebol. Não posso dizer que não farei isto ou aquilo", afirmou ele.


NÓS LÁ FORA

O busto e o aeroporto

Quando vi o busto do Cristiano Ronaldo, fiquei estupefacto. A imagem estava horrível e tinha muito pouco do CR7.
Parecia uma brincadeira de mau gosto. Por outro lado, estava feliz. Sem dúvida que alguns portugueses, por tudo o que fizeram pelo país, mereciam ter um aeroporto com o seu nome. Como o CR7 é um desportista, nunca pensei que tal tipo de homenagem pudesse ser feita. O desporto, e especialmente o futebol , estão de parabéns.! E o próximo aeroporto tem de ter agora o nome de Eusébio! Parabéns, Cristiano,. Espetáculo, campeão!


ÁLBUM DE RECORDAÇÕES

Três dias de folga

Durante a minha carreira, tive grandes treinadores e também excelentes motivadores. Um deles era o Rei Artur Jorge. Cheguei ao FC Porto com 18 anos e saí com 21. Naqueles três anos o Artur, que me conhecia como a palma da sua mão, contava-me todo o tipo de histórias para me motivar antes dos jogos cruciais. Mas, quando vínhamos jogar o clássico a Lisboa, na Luz ou em Alvalade, o tipo de motivação era sempre o mesmo. Depois da palestra no estádio, chamava-me à parte e dizia: "Miúdo, se ganharmos hoje, não regressas ao Porto. Vais para o Montijo e dou-te três dias de folga"Ganhar nestes grandes estádios e ter três dias de folga, para estar com a minha familia e amigos, era o máximo dos máximos.






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