A ocasião faz o líder
Na quarta-feira tive o privilégio e a honra de discursar pela segunda vez no congresso 'Future of Football', organizado pelo Sporting. Estava no painel sobre Liderança e a minha presença no evento era para responder a esta pergunta: "Como é ser capitão de equipa com 22 anos, sendo estrangeiro?" Como saíram várias frases que disse nos meios de comunicação social, pensei escrever a primeira parte da história para os leitores do Record.
Era a minha segunda época em Espanha e o presidente mais polémico da história do futebol, Jesús Gil y Gil, um dia depois de ter rescindido o contrato com o nosso capitão Arteche fez-me ir ao seu escritório no Estádio Vicente Calderon para me dizer que o novo capitão do Atlético de Madrid ia ser eu. Fiquei paralisado vários segundos quando ouvi aquela frase. Naquele momento tremi e só lhe pedi para que mudasse de ideias. "Por favor não me faça isto, você quer matar-me? Eu não estou preparado para assumir o que me está a pedir", avisei. E tinha razão: era o mais jovem de plantel que tinha vários internacionais espanhóis e até mesmo titulares da seleção espanhola, como eram os casos do Goikoetxea e do Tomás, e todos tinham o sonho de ser capitães. Para acrescentar a isto, dos 23 espanhóis do plantel, metade eram jogadores formados no Atlético, com muitos anos de clube, e apesar de me dar bem com todos era praticamente impossível que a maioria aceitasse que um miúdo de 22 anos, português, fosse o capitão deles. Era uma situação anormal em todos os sentidos mas, por muito que tivesse suplicado, não houve marcha-atrás na decisão. "El português será el capitán del equipo", disse Gil y Gil a todos na reunião no balneário, minutos depois da nossa conversa. Como costumo dizer: grande caldeirada que tinha pela frente.
Pouco a pouco fui ganhando a confiança do grupo até que aconteceu algo horrível meses depois. Carlos Aguilera tinha apenas 20 anos. Era um jovem acabado de sair da formação do clube, já tinha feito vários jogos connosco mas ainda não tinha contrato profissional quando aconteceu algo terrível. Para o Mundo do desporto e toda a Espanha foi um choque brutal quando se soube que o Aguilera tinha um tumor na tíbia. O drama dentro do plantel foi horrível, aqueles foram os dias mais tristes que vivi dentro de um balneário em toda a minha carreira. Dentro daquela situação dramática o presidente Gil y Gil teve um grande detalhe e disse publicamente que ia fazer contrato profissional por vários anos com Aguilera. Acontecesse o que acontecesse. Dias depois recebemos uma notícia maravilhosa, o cancro era benigno, o Aguilera seria operado e talvez pudesse voltar a jogar futebol, como assim aconteceu.
Quando começou a treinar, muitas semanas depois, perguntava-lhe todos os dias se o presidente já lhe tinha ligado para lhe fazer- o contrato e dizia sempre que não. Por outro lado, quando perguntava ao presidente quando ia assinar o contrato com o miúdo. E quase sempre a sua resposta era "amanhã", "depois de amanhã", "para a semana", "para o mês que vem". Sempre assim. Os dias passavam e contrato… nem vê-lo. Enquanto tudo isto acontecia, o Gil y Gil chegou a acordo comigo para a renovação do meu contrato. O dia da assinatura era no seu escritório de Madrid e fazíamos a conferência de imprensa logo depois do preto no branco. Quando ele me deu a caneta para a mão, disse "Só assino depois do Aguilera assinar o contrato dele. Ligas para ele agora e para o seu empresário e facilmente chegas a um acordo com eles. Eu não tenho pressa e posso estar todo o dia e noite aqui. Se não saio agora e as dezenas de jornalistas que estão aí fora vão perguntar por que não renovei e eu vou explicar que foi por esta situação". Depois de alguns gritos, como por exemplo "Quem és tu português para estares a falar assim para mim, e a chantajear-me desta maneira?", Gil y Gil acalmou e cumpriu a promessa. O Aguilera naquele dia assinou o seu primeiro contrato profissional ali mesmo e à minha frente. No dia seguinte, ao entrar no balneário, senti pela primeira vez que todo grupo me aceitava como capitão e foi a primeira vez que ouvi "O português é um de nós" e "mata por nós".
Ninguém nasce líder. Os líderes fazem-se com o tempo e outros são obrigados a ser, como foi o meu caso naquela ocasião.
CALDEIRADA DA SEMANA Não é fácil entender
Não é fácil entender
Depois do Messi, Cristiano e outros jogadores, esta semana tocou a Xabi Alonso. Fiquei uma vez mais surprrendido quando vi esta notícia: "A Autoridade Tributária espanhola pediu cinco anos de prisão para o ex-futebolista Xabi Alonso por crimes fiscais cometidos entre 2010 e 2012, informou o Ministério Público de Espanha. Segundo a mesma fonte, a secção de delitos económicos do departamento do Fisco de Madrid acusa o antigo futebolista de três delitos fiscais, cometidos durante o período em que representava o Real Madrid." Se todos estes craques têm os melhores e os mais caros advogados do Mundo, não consigo entender o que se passa com os direitos de imagem. Estes advogados ou são todos horríveis ou isto é um tema político ou outra coisa qualquer? Mas não é fácil entender o que se está a passar em Espanha.
NÓS LÁ FORA
O bicho faz-nos sonhar
Quando o Cristiano Ronaldo fez os quatro golos ao Girona na semana passada fui ver a diferença que havia entre o génio português e Leo Messi nas primeiras jornadas do campeonato espanhol. À sétima, o argentino tinha 11 golos e o 'bicho' zero. Era uma distância praticamente impossivel de recuperar e parece que o CR7 já não poderia lutar pelo troféu de melhor goleador da liga esta temporada. Mas o fenómeno da Madeira é mesmo de outra galáxia: 22 jornadas depois está a três golos do génio argentino e na luta. Impressionante.Na sexta-feira no jogo amigável com o Egito confirmou o grande momento de forma que atravessa com dois golos de autêntico 'killer'de area. Com o CR7 assim, todos nós portugueses temos de sonhar que podemos ser campeões do Mundo!
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
A estrutura do Milan
Li esta notícia do Tuttosport há poucos dias e depois dos dois golos de André Silva. "O rendimento do ponta-de-lança português podia modificar os planos dos dirigentes e técnicos do Milan a respeito do seu futuro. O avançado português melhorou muito o seu nível nos últimos jogos e pode ser que, afinal, não deixe o conjunto italiano no mercado de verão." Pensei que os dirigentes que lideram este AC Milan são um desastre e não têm nada a ver com a estrutura que conheci liderada por Silvio Berlusconi. Naquelas épocas houve muitos craques que não se adptaram bem e não tiveram vida fácil no primeiro ano, mas tinham todo o carinho do clube. Notícias como esta do TuttoSport eram desmentidas no mesmo momento. Que saudades tenho daquela estrutura que fez do AC Milan o melhor clube do Mundo durante muitos anos.
