A 'pega' com Couto e a tristeza por Neno
No clássico desta tarde entre o Benfica e o FC Porto, no Estádio da Luz, está em jogo muito mais do que três pontos. A equipa que ganhar dará um passo de gigante para a conquista do campeonato. Vai ser um jogo impróprio para cardíacos e todos os jogadores que vão estar em campo, ontem sonharam que iam ser o grande protagonista da partida. Pelo menos era assim que eu pensava antes de adormecer na véspera dos grandes jogos. Não sei se os mexicanos dos dragões, Corona e Herrera, têm grande amizade com o seu compatriota benfiquista e companheiro da seleção Raúl Jiménez, ou se os portugueses, brasileiros e espanhóis que vão ser rivais esta tarde são amigos íntimos. Se assim for, nestes jogos de alta tensão e pressão pode acontecer de tudo. A amizade de muitos anos pode tornar-se em ódio naqueles 90 minutos. Por outro lado, podes estar feliz por ganhares o jogo e ao mesmo tempo triste porque o teu amigo fez um péssimo jogo e sabes que está no outro balneário – a poucos metros de ti – a sofrer pelas críticas cruéis que vai receber e arrasado moralmente. Hoje, no Estádio da Luz, podem acontecer histórias maravilhosas como, por exemplo, estas duas que eu vivi no antigo Estádio da Luz.
A 17 de abril de 1993, na 28.ª jornada do campeonato, Portugal também ia parar, era dia de grande clássico entre Benfica e FC Porto. Os dragões tinham dois pontos de vantagem sobre as águias, eu era o n.º 10 dos encarnados e o meu amigo íntimo Fernando Couto era o 5 dos azuis e brancos, quando o árbitro apitou para o início da partida. Sabia que ia ser uma batalha enorme, mas nunca podia imaginar o que ia acontecer. Nos primeiros minutos sofro uma falta dura e fico no chão a queixar-me e alguém mete a boca perto do meu ouvido e diz-me "Filho da..., vou-te matar c..., vais-te levantar desta vez porque não fui eu que fiz a falta, quando eu fizer, não te vais levantar mais filho da...". Quando voltei a cara e vi que era o Fernando Couto, fiquei estupefacto, mas levantei-me rápido, fui direito a ele e disse: "Sabes com quem estás a falar c... filho..."; e ele, cego, diz: "Contigo filho da...".
E estivemos ambos assim, de insulto a insulto, até ao final do jogo que finalizou 0-0. Foram 90 minutos de ódio e nem nos cumprimentámos no fim. Dois dias depois entrávamos em estágio com a Seleção para o jogo com a Escócia. Tínhamos de estar no hotel depois de jantar e fui direto ao meu quarto. Perto das 23 horas batem à porta, pensava que era o roupeiro com o saco da roupa e nem perguntei quem era e abri. Assustei-me, à minha frente estava o Fernando, a olhar para mim seriamente. Quando me preparava para dizer-lhe que o jogo já tinha terminado, ele diz-me: "Perdoa-me Paulinho, perdoa-me amigo, dá-me um abraço amigo, vi-te com a águia ao peito e fiquei completamente cego". Respondi-lhe: "Sabes por que é que continuo chateado contigo? Porque não consegui dar-te um túnel". Desatámos a rir, demos um abraço e não falámos mais daquela batalha.
Vários anos antes, na final da Supertaça entre o FC Porto e Benfica de 1986, era o 10 dos dragões. Naquela altura era a duas mãos, a primeira foi no Estádio das Antas e empatámos 1-1 e nos 18 anos em que fui profissional nunca senti nada igual como naquela noite em Lisboa, no jogo da segunda mão. No final dos 90 minutos estava superfeliz e ao mesmo tempo muito triste. Estava contente porque tínhamos ganho na Luz por 4-2. Éramos campeões e tinha feito um jogo excelente (dois golos e uma assistência). Mas, por outro lado, sentia-me triste porque o meu querido amigo, companheiro da Seleção e uma das melhores pessoas que conheci neste mundo do futebol era o guarda-redes do Benfica. Estou a falar do grande Neno, que naquele dia teve uma noite infeliz.
Não tenho dúvidas: se o Fernando Couto estivesse numa equipa pequena, quando me insultou pela primeira vez, não lhe dava troco, nem sequer olhava para ele e nem recordava o que tinha acontecido. E com o Neno seria igual. Se fosse guarda-redes de um clube pequeno e não do Benfica, sabia que ia ser pouco criticado e não tinha sentido aquela mistura de sentimentos. Se hoje ainda recordo perfeitamente estas histórias, é porque aconteceram em jogos com uma magnitude mediática brutal. Como estas tenho muitas outras que nunca se apagaram da minha mente, mas quase todas aconteceram em momentos muito especiais como em finais, dérbis ou clássicos como o desta tarde na Luz. Estes são os chamados jogos da verdade e que podem marcar um jogador para sempre. Chamo-lhes ‘jogos eternos’.
CALDEIRADA DA SEMANA - O futebol é mesmo maravilhoso
Depois das goleadas na primeira mão dos ‘quartos’ da Champions – o Barcelona, por 4-1, no Camp Nou, diante da Roma, e o Liverpool, em casa, por 3-0, perante o Manchester City –, na terça-feira, no jogo da segunda mão, a grande maioria dos amantes do futebol (como é o meu caso) começou a ver o duelo entre ingleses, porque se havia uma equipa que podia dar a volta à eliminatória seria a de Guardiola e nunca a Roma. Mas estávamos enganados e acabámos por mudar de canal na segunda parte: a emoção estava na capital italiana. A Roma necessitava de um milagre e ele aconteceu. O Barcelona de Messi e companhia foi eliminado e mais que uma caldeirada foi um escândalo, mas assim é o desporto-rei.
NÓS LÁ FORA - Rúben Neves
A obra de arte que o Cristiano Ronaldo fez em Turim na semana passada, com aquele perfeito e espetacular pontapé de bicicleta contra a Juventus, na minha opinião, é o grande candidato a ganhar o Prémio Puskas do melhor golo do ano. Mas na quarta-feira, uma semana depois daquele golaço do CR7, na Championship League inglesa, no jogo entre o Wolverhampton e o Derby ,vi outro golo do outro mundo e digno do Prémio Puskas. Desta vez foi um remate incrível ao ângulo, desde 30 metros, e o seu autor foi outro português. Que obra de arte, Rúben Neves! Parabéns, campeão.
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES - Muito obrigado
O 5 e o 12 de abril de 2018 foram tão especiais e emocionantes para mim que jamais esquecerei estes dois dias maravilhosos. Entrar no Wanda Metropolitano e em Alvalade, minutos antes de começar o jogo, foi incrível, e quero agradecer aos adeptos de ambos clubes a maneira carinhosa como me receberam em Madrid e Lisboa. Por outro lado, este momento único que vivi só foi possível pela força que fizeram na UEFA o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, e o diretor-geral do Atlético Madrid, Miguel Angel Gil. Se fui o embaixador da UEFA na eliminatória, foi graças a eles, e desde estas linhas quero agradecer a ambos. Muito Obrigado.
