Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

A pressão das últimas três jornadas

Depois da eliminação do Barcelona nos quartos-de-final da Champions League contra o meu Atlético de Madrid e da terceira derrota consecutiva na semana passada com o Valencia, os meus amigos colchoneros, merengues e culés brincarem comigo e chamaram-me guru, por várias vezes. Recordavam-se das palavras que tinha escrito no dia 20 de março, no jornal ‘Marca’, no meu espaço,‘Los toques de Futre’.

Num momento em que parecia que o Barcelona era invencível e ia ganhar todas as competições, como a época passada, referi: "O trio de ouro Messi, Neymar e Luis Suárez são os que fazem a diferença e ganham títulos. Os três fizeram uma barbaridade de jogos em 2016 e esta semana viajam para os seus países de origem para jogar duas partidas de qualificação para o Mundial 2018. Muitas vezes, e especialmente no final da época, as viagens longas podem cansar-te mais do que o próprio jogo. Os três craques chegarão a Barcelona dois dias antes do clássico com o Real Madrid, que é no sábado 2 de abril, e três dias depois, no dia 5, jogarão a primeira a mão dos quartos-de-final da Champions League, no Camp Nou, contra o Atlético de Madrid. Com os quilómetros que vão fazer de avião e os que vão ter nas pernas será muito complicado que os três jogadores do Barça estejam nas suas melhores condições físicas frente ao Atlético. Por esta razão, sonho que os culés tenham uma quebra física, como tiveram há dois anos por esta altura, em que acabaram por não ganhar qualquer competição."

Era a minha opinião naquele momento, porque fui muitos anos profissional de futebol. Tive o privilégio de jogar em grandes clubes, e mais do que uma vez, aconteceu-me o mesmo no mês de abril. Com esta quebra física, a equipa entra numa dinâmica perdedora, desastrosa e vai tudo por ‘água abaixo’. Messi, Neymar e Luis Suárez querem jogar sempre mas são humanos e também se cansam.

Já sem brincadeiras, estes mesmos amigos espanhóis, e também os meus amigos benfiquistas e sportinguistas, têm-me massacrado nos últimos dias com esta pergunta: "Quem tem o melhor calendário para ser campeão"? Os campeonatos espanhol e português estão ao rubro e pela minha experiência é impossível responder a esta pergunta. Quando as equipas estão a lutar pelo título nas últimas jornadas, com poucos pontos de distância, cada jogo é imprevisível. A ansiedade, o nervosismo e a pressão que sentem os jogadores nestes momentos são fora do normal e os erros podem acontecer quando e contra quem menos esperas.

E nos campeonatos ibéricos temos dois exemplos recentes. Em Espanha, na temporada 2013/14, a situação era muito parecida com a atual. Nas últimas três jornadas, sob grande pressão, Atlético, Real e Barça não conseguiram fazer o pleno. Bem pelo contrário. A única equipa a ganhar um jogo dos últimos três foi o Real, na jornada final, quando já estava fora da corrida pelo título. O Atlético, no penúltimo encontro, só precisava de ganhar em casa ao Málaga para ser campeão e não conseguiu. O Barcelona, inexplicavelmente, empatou com Elche e Getafe e, na derradeira jornada, tinha de ganhar em casa ao Atlético para ser campeão, mas voltou a empatar e os colchoneros sairam da Catalunha com o título.

Já em Portugal, na época 2012/13, o Benfica, a três jornadas do fim do campeonato, era quase campeão antes de jogar com o Estoril em casa. Empatou, perdeu depois no Dragão e viu o FC Porto conquistar a Liga. Em apenas duas semanas!...

Vivi várias situações do género e, com uma delas, tive vários pesadelos durante anos. Foi quando jogava no FC Porto, na época 1985/86. Na última jornada, recebemos o Covilhã, que era o último classificado e que matematicamente já tinha descido de divisão. Tudo indicava que seria um jogo para goleada. Aquela mítica equipa do Porto, que acabou por vencer a Taça dos Campeões da Europa um ano depois, em 1987, era imbatível em casa. Incrivelmente, ao minuto 59, estávamos a perder por 2-1. Felizmente, demos a volta mas não ganhámos para o susto. Seja em que país for, as últimas três jornadas, quando o campeão está por decidir, são uma incógnita e só há uma coisa certa: estes jogos são impróprios para cardíacos e colocam em sobressalto treinadores, jogadores, as suas famílias, todos os adeptos. Mas esta também é a magia do futebol!


Caldeirada da semana -- Falta de respeito

Zubizarreta, um símbolo do Barcelona, foi despedido a meio da época passada do cargo de diretor-desportivo. A equipa que ele fez acabou por ganhar tudo o que havia para ganhar. Zubi falou esta semana: "Senti-me sozinho. Tínhamos perdido em Anoeta (Real Sociedad) e havia muito barulho no Barça. Despediram-me para passarem a imagem ao Mundo de que eu era o responsável. Depois da derrota em Anoeta chovia muito e alguém tinha de ficar molhado e fui eu." Mandar um símbolo para a rua é sempre uma grande caldeirada.

Nós lá fora -- O regresso de Tiago

Foi uma grande notícia para o Atlético de Madrid e para o futebol português. O Tiago regressou aos treinos esta semana sem limitações. Como grande campeão que é, não faltará muito para o vermos de novo em ação com todo o seu talento e classe. Espero que ainda faça alguns jogos esta época. Pessoalmente, tenho grande fé que ainda vamos vê-lo no Euro’2016 a ajudar Portugal.

Álbum de recordações -- Congresso do Sporting

Esta semana tive o privilégio de ser convidado pelo presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, para falar, no segundo congresso internacional do clube, sobre a minha experiência como profissional de futebol e diretor desportivo. Abordei a relação que tinha nessa altura com a imprensa. Perante uma plateia cheia, fiquei muito nervoso, quando vi tantas pessoas queridas para mim e pelas quais sinto grande respeito, admiração e consideração. E sem a ajuda de alguns deles não poderia ter feito a carreira que fiz. Em especial duas lendas sportinguistas: o grande capitão Manuel Fernandes e o melhor caça-talentos da história do futebol, Aurélio Pereira. Foi um dia inesquecível.








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