António Livramento, o meu herói
A geração de portugueses, que, como é o meu caso, nasceu em meados dos anos 60 cresceu, na década seguinte, com a magia do hóquei em patins, o único desporto em que o nosso país se perfilava invariavelmente como favorito a ganhar as grandes competições internacionais. Nessa altura, o melhor jogador do Mundo era português e chamava-se António Livramento. Ele e Eusébio, o grande ‘king’, eram os nossos grandes heróis. Podias praticar e gostar de outros desportos, mas, quando jogava a Seleção de hóquei em patins num Campeonato da Europa ou do Mundo, o dia era sagrado. Portugal parava literalmente de uma ponta à outra por causa desses jogos.
A primeira vez que tive a noção da importância do Livramento para todo o país foi em 1974. Tinha 8 anos e o Campeonato do Mundo de hóquei em patins era em Lisboa. Naquela altura, no Montijo, eram muito poucos os privilegiados que ostentavam uma televisão e os meus pais, infelizmente, não pertenciam a esse grupo. Havia rádio e a emoção era tremenda, especialmente quando a Seleção portuguesa marcava algum golo.
Portugal foi campeão do Mundo! E era o terceiro título que aquele mito chamado António Livramento conquistava. A sua lenda continuava a crescer em todo o Planeta...
Com 8 anos, eu praticava futebol, ténis de mesa e era ainda guarda-redes de andebol. Tinha jeito para estas três modalidades, mas pensei ainda numa quarta... Nunca tinha patinado, mas recordo-me que, naquela noite, perguntei ao meu pai se no Montijo havia equipa de hóquei em patins, pois queria ser como o Livramento. Não havia, felizmente para mim... Assim sendo, evitei os tombos que iria dar com os patins calçados e poupei-me ao trabalho de tentar imitar sem sucesso alguém tão rápido, tecnicista, inteligente e elegante em cima de uns patins como era o António Livramento.
No dia em que esta lenda nos deixou, em 1999, a ‘France Presse’ anunciava: "Morreu o Pelé do hóquei em patins." Esta frase do jornalista francês não caiu nada bem aos fãs do Maradona, porque para eles o argentino foi melhor do que o brasileiro. Atualmente para muitos adeptos, também só dois jogadores chegaram ao nível máximo. Hoje em dia, a frase correta, para que ninguém ficasse chateado, teria de ser: "Morreu o Pelé, o Maradona, o Messi e o Cristiano Ronaldo do hóquei em patins."
No futebol, o debate sobre o melhor jogador da história será eterno. Mas, na modalidade do mito António Livramento não há debate possível. Ele foi e, na minha opinião será sempre, o melhor jogador de hóquei em patins
de todos os tempos.
No dia em que faleceu, o Vítor Hugo, outro génio desta modalidade, disse esta frase perfeita: "Chego a pensar que ele era mais conhecido do que o hóquei em patins." O Vítor tinha toda a razão. Quando o ‘king’ Eusébio saiu do Benfica, em 1974/75, a única referência a seguir era a outra lenda... a do hóquei em patins, precisamente.
Voltou a ser campeão da Europa com Portugal e também com o Sporting em 1977... E por tudo o que ele fez pelo desporto português, pelo exemplo e a inspiração que deu às gerações dos anos 60 e 70, Livramento está muito acima de qualquer modalidade.
Livramento não foi propriamente um ídolo que eu tivesse, pois eu praticava outra modalidade. Mas para mim foi muito mais do que isso. Foi um herói.
Em 1980, regressou ao Sporting depois da sua aventura italiana. Por coincidência, eu também já estava nas camadas jovens do clube e foi um sonho vê-lo jogar pela primeira vez ao vivo. O jogo, o resultado, os outros jogadores etc... estavam em décimo plano. Durante toda a partida não desviei uma única vez o olhar do meu herói.
Escrevo estas linhas para recordar uma lenda e um mito que durante duas décadas foi muito mais do que um desportista para a grande maioria dos portugueses. Mas escrevo também pela mágoa e tristeza que me invadiram nestes últimos anos, cada vez que falo do desporto português com jovens de 20 anos e alguns já perto dos 30. Nunca ouviram falar do António Livramento!... A maioria deles, como se depararam com a minha surpresa, automaticamente responderam que não gostam de hóquei em patins...
Quando lhes expliquei, de seguida, que o Livramento foi muito mais importante para o país do que uma modalidade desportiva e que foi um herói para mim e para muitos portugueses, todos ficaram surpreendidos e também interessados em conhecer toda a história, que eu conto com prazer.
O mais curioso é que, depois de a ouvirem atentamente, as reações deles foram muito parecidas. Uns perguntaram como é possível que, como portugueses, nunca tivessem ouvido falar neste homem? E outros questionaram o porquê de nas aulas de Educação Física o tema nunca tivesse sido abordado.
São questões para os responsáveis políticos desta área, e que tiveram no poder nos últimos anos, serem confrontados. É o que farei se um dia estiver com eles pessoalmente.
CALDEIRADA DA SEMANA -- O 'bufo' continua
Na última quinta-feira, o jornal ‘The Sun’ disse que o treinador português José Mourinho descobriu o ‘bufo’ que passou o onze titular do Manchester United à imprensa inglesa três horas antes do início do jogo da Liga Europa com o Zorya Luhansk, a 29 de setembro. O jornalista do ‘The Sun’ diz que o ‘bufo’ que passou a informação para os jornalistas foi um adepto do Manchester que tem grandes contactos dentro do clube. Para mim, as dores de cabeça para o técnico português continuam . Quem foi apanhado foi o contacto do ‘bufo’ e não este, que continua bem dentro do balneário do Manchester United.
NÓS LÁ FORA -- Leonardo Jardim
O técnico, depois dos bons trabalhos realizados em vários clubes portugueses, continua a dar cartas, agora ao serviço do Monaco. Na semana passada, a equipa por ele comandada tornou-se a mais concretizadora de todos as ligas europeias e está na luta pela liderança no campeonato francês.É sinal da grande qualidade do trabalho de Leonardo Jardim. Continue assim, grande míster!
DO MEU ÁLBUM -- Cristiano, Ricardinho e Madjer
Sinto uma inveja sã por todas as crianças e adolescentes de Portugal. Na idade deles, adorava jogar futsal. Nas minha férias na Costa de Caparica passava os dias a jogar ‘peladas’ na praia e quando cheguei ao Sporting amava o ‘futebol de 11’. Hoje, os três melhores jogadores do Mundo são portugueses e praticam estas modalidades. Com a tecnologia existente, os jovens podem pegar no computador e ver as vezes que apetecer os jogos e as melhores jogadas do Cristiano, do Ricardinho e do Madjer. Que luxo e que inveja sã sinto por toda juventude portuguesa!
