Armadilha a Cristiano Ronaldo
'Mulheres' é o título do sétimo capítulo do meu livro, 'El Portugués', escrito em coautoria com o jornalista Luís Aguilar. Nele, falo de várias histórias bizarras relacionadas com o sexo feminino que vivi durante a minha carreira. Um dos episódios aconteceu quando tinha 19 anos e era jogador do FC Porto, que titulei "chantagem". Aqui faço um pequeno resumo.
"No fim dos treinos, havia sempre dezenas de pessoas a pedir autógrafos no parque de estacionamento reservado aos jogadores. Gosto sempre de perguntar o nome e dou o autógrafo com dedicatória nas minhas fotografias. Numa dessas situações, estou quase há uma hora a distribuir autógrafos dentro do carro sem levantar a cabeça do volante e pergunto 'Como te chamas?'. Do outro lado vem a resposta: 'Eva. Mas não quero uma fotografia. Quero que me dês um autógrafo nas cuequinhas.' Quando oiço isto, levanto imediatamente a cabeça, olho para o meu lado esquerdo, e vejo uma mulher morena de 23, 24 anos. Lindíssima. 'E como fazemos isso?', pergunto. Ela dá-me um papel. 'Liga para esse número e assinas quando quiseres', diz. E desaparece.
No domingo seguinte, o FC Porto jogava nas Antas. Ganhámos o jogo e assim que chego a casa ligo para ela e combinamos ir tomar café depois de jantar na cafetaria Bom Dia, na Praça Velásquez. Ela diz-me que tem 24 anos, que vive na Foz e está no último ano da faculdade. Meia hora depois saímos em direção à minha casa.
Oiço as histórias dela enquanto conduzo. 'Conheço o dono da discoteca X, o presidente da empresa Y, estive apaixonada por tal político, ele deixou a mulher por minha causa, estive com esta pessoa em Ibiza e com esta em Cancún... À terça-feira à noite vou aqui, à quarta ali, quinta igual, sexta, sábado e domingo também.' Penso para mim: 'Como é que uma pessoa que sai tantas vezes à noite pode estar no último ano da faculdade?' É tão mentirosa que se esquece das próprias mentiras (como geralmente acontece a quem passa a vida a mentir). Mas diz os nomes e apelidos de todas as pessoas de quem fala. Percebo imediatamente que no dia seguinte vou estar nesta lista e fazer parte das suas conversas.
Entrámos na minha casa e estivemos toda a noite a fazer amor - ou melhor, a fazer sexo, porque de amor não havia nada. Segunda-feira, folga. Acordo às 17 horas. A Eva já não está em minha casa e nunca mais liguei para ela.
Quase dois meses depois desta noite, estou na minha rotina diária dos autógrafos quando oiço a voz dela. 'Olá, Paulo. Preciso de falar contigo. Estou desesperada.' Digo-lhe, baixinho, para ir ter comigo à mesma cafetaria da outra vez, que ficava muito perto do Estádio das Antas. Mas percebo que vêm aí problemas graves e começo a ter ideia de qual será o assunto. Chego, sento-me e oiço o que ela tem para dizer: 'Paulo, estou grávida. Preciso de dinheiro para abortar.' Aquelas palavras são as esperadas. Resolvo saber mesmo se é verdade. 'Abortar? Estás louca? Nem sabes a alegria que me dás. Estou louco para ser pai!' Nunca mais ouvi falar da Eva depois desta resposta.
Tinha 19 anos, mas mais experiência do que um homem de 30, dada a minha condição mediática e os diversos ataques que podia sofrer. Aquilo não passava de um esquema financeiro no qual, provavelmente, ela nem estaria sozinha. Se ficasse assustado, ela iria pedir-me muito dinheiro para o falso aborto e ainda mais para estar calada. Já tinha ouvido muitas histórias deste género e sabia que aquela minha reação matava o assunto. Bastava mostrar convicção. Dar-lhe a entender que eu queria mesmo ser pai. Perante isso, a chantagem estava desarmada. Adeus, Eva!"
Nunca imaginei escrever esta história neste excelente e histórico jornal desportivo, como é o Record. E se o faço é por máxima solidariedade pelo mal que querem - e estão a fazer - ao Cristiano Ronaldo. Aquela armadilha que me queriam fazer a mim é uma gota de água no oceano em comparação com a armadilha que querem armar ao Cristiano Ronaldo, acusando-o de violação. Muita força, número um!
CALDEIRADA DA SEMANA
Até a polícia está contra o Zé
José Mourinho, depois do jogo entre o seu Manchester United e o Valencia, disse isto: "Saímos do hotel às 18 horas, confiantes de que 30 minutos seriam suficientes para cá chegar. Mas a polícia recusou-se a escoltar-nos e viemos por nossa conta. Demorámos 75 minutos do hotel até aqui. A UEFA e o árbitro foram simpáticos, permitiram que começássemos o jogo cinco minutos mais tarde, porque precisamos de pelo menos meia hora para nos prepararmos. Isto não foi um problema de organização do clube." Fiquei estupefacto, por ser uma situação surreal. Até a polícia está contra o Zé, disse para comigo...
NÓS LÁ FORA
Wolverhampton
Fernando Santos anunciou os convocados para os jogos com a Polónia e a Escócia. Quando vi os nomes dos 25 jogadores houve uma coisa que me chamou a atenção... Houve algumas convocatórias em que o Real Madrid - com CR7, Pepe e Coentrão - era o clube que mais jogadores tinha na Seleção. Um dos clubes que tem mais jogadores nesta convocatória de Fernando Santos - a par do Benfica - é o Wolverhampton, que na época passada estava na segunda divisão inglesa. Parece mentira, mas é verdade. Parabéns ao Wolverhampton e ao seu treinador, Nuno Espírito Santo, pelo excelente trabalho que está a fazer, bem como aos craques Rui Patrício, Hélder Costa e Rúben Neves. Mas este futebol moderno não deixa de me surpreender.
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
O jogo do silêncio
A 16 de setembro de 1987, o jogo da primeira mão da 1.ª eliminatória da Taça dos Campeões Europeus entre o Real Madrid e o Nápoles de Maradona foi à porta fechada... Eu tinha chegado naquele verão ao Atlético Madrid e foi a primeira vez que vi um jogo sem público. Foi horrível. Mais do que um jogo de Champions parecia um treino de conjunto que todas as equipas dos anos 80 e 90 faziam à quinta-feira... Aqueles 90 minutos foram batizados como "o jogo do silêncio". Felizmente, durante toda a minha carreira, nunca me tocou viver uma experiência assim. E recordo-me desta história porque esta tarde Portugal vai parar, quando começar o duelo entre Benfica e FC Porto. Este clássico esteve para ser o maior "jogo do silêncio" da história do futebol português, o que seria horrível. Felizmente, o Estádio da Luz vai estar como Deus manda: cheio!
