Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

As injustiças para com Gerard Piqué

Há vários anos que digo: se há profissional de futebol – que não conheço pessoalmente – que estimo muito esse é, sem dúvida, Gerard Piqué. Sinto admiração pela impressionante carreira que está a fazer, porque só os grandes craques podem conquistar um Mundial e um Euro pelo seu país, e ganhar a Champions com duas equipas diferentes. Gerard é um dos que conseguiu este êxito espetacular, com Espanha, Barcelona e Manchester United. Como pessoa admiro-o, porque nunca se esconde e sempre dá a cara. Mesmo que as suas ideias sejam polémicas, não tem medo da opinião pública, defende-as com unhas e dentes. E apesar de ter ficado um pouco dececionado com ele em janeiro, quando se queixou e disse que os árbitros tinham de melhorar o seu nível (depois do Barcelona ter sido prejudicado em Bilbau e Villarreal) e dias depois, quando os culés ganharam por erros arbitrais a Real Sociedad e o Atlético Madrid, esperava que o Gerard dissesse o mesmo, que os árbitros tinham de melhorar, mas surpreendeu-me negativamente, ao não responder a nenhuma pergunta sobre os árbitros. Mas depois dos assobios que recebeu dos próprios adeptos espanhóis no amigável de quarta-feira entre a Espanha e a Colômbia em Murcia, esqueci completamente aquele episódio e ainda admiro mais o Piqué.

Porque, por muito catalão que ele seja e esteja a favor do referendo para a independência da Catalunha, ou que seja anti-Real Madrid – e quando pode dá sempre uma bicada aos merengues – não entendo como os espanhóis não conseguem separar as coisas e assobiam um jogador que tem quase 90 internalizações e foi peça fundamental na conquista do Mundial de 2010 e do Euro de 2012.
Esta ‘novela’ começou em 2015 e as declarações de Gerard durante algum tempo foram dentro desta linha: "Assobiam-me por causa da rivalidade entre o Real Madrid e Barcelona e dos meus comentários sobre o rival, mas enquanto o míster tiver confiança em mim, continuarei. Não me arrependo de nada. Sou assim e não me vão mudar. Levo muitos jogos com a seleção e em cada partida dei tudo. Deixar a seleção é a última coisa que farei, é dar razão aos que me assobiam. O meu compromisso com a Roja é total."

Mas no ano passado, quando a seleção espanhola entrou em campo na Albânia, automaticamente começaram os insultos cruéis nas redes sociais e nos meios de comunicação. No momento em que os espanhóis viram que o Piqué tinha cortado as mangas da camisola – e também da bandeira espanhola – a partida passou para segundo plano. Mas foi uma grande injustiça, que o povo espanhol cometeu com Gerard naquele dia, porque só a camisola de manga curta tem o escudo com a bandeira, a de manga comprida não tem. A polémica foi de tal maneira que Piqué, depois do jogo, levou a camisola de manga comprida que o Sergio Ramos tinha utilizado para a conferência de imprensa, para que toda a Espanha visse o quanto injustos foram com ele. E disse basta. Naquele momento anunciou que estava cansado de tanta polémica e que depois do Mundial da Rússia abandonava a seleção espanhola.

Durante todo este tempo, a federação espanhola sempre esteve com Piqué e tentou protegê-lo, como por exemplo quando mudou o local do Espanha-Inglaterra, que seria no Santiago Bernabéu a 13 de novembro 2016. Por medo da contestação dos adeptos do Real Madrid para com o culé, a partida foi disputada nesse mesmo dia em Alicante. Fora da Catalunha era dos poucos apoios que tinha Gerard, mas depois da federação anunciar no passado dia 5 de junho, que o jogo crucial para Espanha estar no Mundial da Rússia será no Bernabéu, com a Itália, a 2 de setembro, o central do Barça ficou completamente sozinho.

Piqué, depois ou antes de cada clássico, disse esta frase: "Assobios no Bernabéu são como uma sinfonia para mim". Mas com a camisola de Espanha a música será muito diferente. E ele sabe que os assobios que vai ouvir em setembro durante os 90 minutos serão infernais. Por esta razão, não me surpreendia nada que antes do jogo com a Itália Piqué possa dizer isto: "Depois do que aconteceu em Murcia, refleti e não jogarei mais pela seleção." Se isto acontece, a Espanha deixará de ter uma das melhores duplas de centrais do Mundo. O outro central é o capitão da Roja e do Real Madrid – que em algumas ocasiões ajudou a aumentar o ódio ao catalão. Mas, se há um espanhol que vai ter muitas saudades do Piqué, sem dúvida alguma que será Sergio Ramos.

CALDEIRADA DA SEMANA - Mensagem de loucos
O Mundo mudou e uma pessoa vai-se adaptando a estes novos tempos, mas há situações que nunca pensei que fossem possíveis ver algum dia no futebol. Fiquei estupefacto quando ouvi estas afirmações de Diego Costa no final do particular da Espanha frente à Colômbia, na quarta-feira. "Nesta altura só sou jogador do Chelsea porque tenho contrato, pois o treinador não me quer lá. Deve ter sido porque fiz uma má temporada. Enviou-me uma mensagem ‘à chefe’ e já está... tenho de procurar um outro clube." Despedir, ou dizer a um jogador com contrato que não conta com ele por mensagem é mesmo de loucos, uma autêntica caldeirada.

NÓS LÁ FORA - Excelente míster

Este primeiro ano como emigrante de Paulo Fonseca na Ucrânia foi mesmo de sonho e não era nada fácil, por duas razões.A primeira, porque ia substituir Mircea Lucescu, treinador que estava há 12 anos no clube e era um autêntico mito para os adeptos do Shakhtar Donetsk e a segunda, porque nos últimos dois anos o Dínamo Kiev dominou completamente a liga. Era uma tarefa superdifícil para o técnico português. O Paulo ganhou estas duas guerras. Com o passar das semanas e meses conseguiu que os adeptos esquecessem Lucescu, foi campeão da liga e taça e esta semana foi eleito o treinador do ano.Excelente! Parabéns míster.

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES - Aventura japonesa
Quando vi esta notícia há poucos dias: "Em pouco menos de três meses, o português Hugo Vieira tornou-se num autêntico ídolo para os adeptos do Yokohama Marinos. Com 8 golos em 14 jogos, o extremo, de 28 anos, vive dias felizes e no estádio é comum gritar pelo nome do português." "É incrível. Inacreditável, mas a adaptação à cultura e civilização tão diferente não é, de facto, nada fácil", repete a cada assunto o sucessor de Paulo Futre (representou o Yokahama Flugels em 1998) na primeira divisão japonesa. Recordei a minha grande e autêntica aventura japonesa. Parabéns e continua assim Hugo!

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