Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

Assim está a Espanha de hoje

Quando cheguei a Madrid, em 1987, logo no primeiro dia, o delegado do Atlético Madrid, Carlos Pena, deu-me este conselho: "Nunca andes no centro da cidade entre as 7 e as 10 da manhã, porque é o horário mais propício a atentados terroristas". Tinha 21 anos e naquele dia nasceu um medo que desconhecia dentro mim, porque felizmente em Portugal não havia terrorismo. Cada vez que os etarras faziam um atentado, os espanhóis saíam para a rua e em todas as cidades, vilas e aldeias havia manifestações contra a ETA com a mensagem: "Podem continuar a matar, mas nunca ganharão esta guerra". Naqueles momentos horríveis a união do povo espanhol era incrível, fossem catalães, galegos, andaluzes, asturianos, madrilenos, manchegos ou até a grande maioria dos bascos . Todos deixavam as exigências, diferenças, rivalidades e problemas de parte e todos eram Espanha. Durante aqueles anos até ao último atentado da ETA, em 2010, houve dias que pela dor, impotência ou raiva a nação ficou de rastos, mas nunca tinha visto a Espanha tão triste como depois dos incidentes em Barcelona no passado domingo.
Os meus dois filhos nasceram em Madrid, em 1989 e 1990, e tirando os anos que viveram nas cidades onde joguei entre 1993 e 1996 – Lisboa, Marselha, Reggio Emilia, Milão e Londres – sempre viveram na capital espanhola. O mais novo, o Fábio, sempre amou o futebol e outros desportos, e nunca gostou de falar de política... Por outro lado, o mais velho, o Paulo, nunca quis nada com o futebol, sempre foi aluno de notas excelentes, licenciou-se e com os seus 15/16 anos sabia todos os nomes dos políticos espanhóis, adorava falar de política, tinha a sua opinião formada e falava como um político.

Durante a adolescência de ambos, ao fim de semana, quando iam sair com os amigos, ficava sempre preocupado e a frase que mais me ouviram dizer por causa das bombas da ETA foi esta: "Estão proibidos de irem a centros comerciais".

Até que um dia, depois de outro atentado, levei uma autêntica lição de um miúdo de 16 anos que fiquei sem palavras. E este miúdo era o Paulinho e rebentou-me todo com isto: "Pai, adoro Portugal e tenho um orgulho tremendo de ser filho de portugueses; entendo a tua preocupação e a da mãe com o tema da ETA, mas nasci aqui e se os pais dos meus amigos e todos os espanhóis pensassem como tu, ninguém saía à rua e entregávamos o País Basco aos filhos da... dos etarras. Pai, por favor, nunca mais me digas que estamos proibidos de ir a centros comerciais e deixa-me ir à manifestação com os meus amigos, pois esses c... mataram hoje três pessoas". Fiquei mudo... e na terça-feira passou-se o mesmo. Estava em Madrid e fomos jantar os três depois do discurso do rei de Espanha sobre o grave problema que vive o país por causa do referendo da independência da Catalunha.

Como o Paulinho tem a sua veia política e sabe perfeitamente o que se está a passar na Catalunha, não podíamos evitar de falar do tema. E a maneira mais suave de começar era com o futebol, assim pensava eu, e fiz esta pergunta: "O que pensam sobre as palavras do Piqué: ‘– Acho que posso continuar a ir à seleção espanhola porque há muita gente em Espanha que desaprova estes atos de violência e acreditam na democracia. Ir à seleção não é uma questão patriótica, é ir e dar o máximo’?"

O primeiro a responder foi o Fábio: "Fomos campeões do Mundo e da Europa com ele a titular e não pode haver nenhum espanhol que duvide do seu compromisso com a seleção espanhola".
Assim que disse a última palavra, um furacão entrou na mesa com estas palavras: "Pai, não fostes tu que disseste que nascestes português e morrerias português, quando o Gil y Gil te pediu para te naturalizares espanhol? Qual seria a tua atitude se um companheiro de seleção, quando jogavas, pedisse a independência do Algarve, Minho ou outra região de Portugal?" "Fábio: respeito a tua opinião, mas isto não é futebol e penso muito diferente de ti. Por isso não vou discutir nada mais deste tema com vocês, vamos mudar de conversa." "Tens toda a razão, Paulinho, vamos mudar de tema", dissemos eu e o Fábio ao mesmo tempo. Assim, dividida, está a Espanha de hoje...

CALDEIRADA DA SEMANA - Argentina em apuros

A Argentina, nos últimos quatro jogos, perdeu na Bolívia, empatou no Uruguai e em casa com a Venezuela e na quinta-feira fez outro jogo lamentável, empatando em Buenos Aires com o Peru. Mas, incrivelmente, ainda depende apenas de si para estar no Mundial da Rússia. Se ganhar o último jogo no Equador, tem o playoff assegurado e se o Chile, Colômbia e Peru escorregaram, até podem conseguir o apuramento direto. Seria uma grande caldeirada e deceção para um país que ama o futebol – e para todos os amantes do desporto rei – se o Messi e companhia falhassem o Mundial do próximo ano.


NÓS LÁ FORA - Avenida José Mourinho

Quando o CR7 e o Mourinho estavam no Real Madrid, um jornalista espanhol fez-me esta pergunta: "Os teus compatriotas são os melhores do Mundo, são embaixadores não só do futebol português mas também de todo o país, porque quando o planeta fala de Mourinho e Cristiano, está a falar de Portugal. Se fossem espanhóis já tinham estátuas em várias cidades e em Portugal nem uma rua têm com o seu nome. Porquê?" Timidamente e um pouco envergonhado defendi-me: "Em Portugal estas homenagens só se fazem quando as pessoas morrem". O mundo mudou e felizmente a mentalidade de alguns políticos portugueses também. Meses após a inauguração da estátua do CR7 na Madeira e do Aeroporto Cristiano Ronaldo, esta semana já temos a Avenida José Mourinho. Muitos parabéns pela coragem à presidente da Câmara de Setúbal, Maria das Dores Meira, e especialmente ao meu amigo e enorme José Mourinho

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES - Reinado do Grande Maestro

Portugal joga com a Suíça na terça-feira e no dia 31/3/1993 também defrontámos os helvéticos em Berna. Recordo-me que nos primeiros dias de estágio vários titulares se lesionaram, saíram da concentração e todos estávamos preocupados. Como era um dos capitães, o selecionador Carlos Queiroz pediu-me a opinião sobre que jogadores chamaria para substituir os outros . O Rui Costa era um menino, ainda não era titular indiscutível no Benfica, mas treinava-se comigo todos os dias e já era um génio. A minha opinião foi: "Míster, você conhece o Ruizinho melhor do que eu e os dois sabemos que ele está preparadíssimo para ser titular nesta seleção". Naquele dia foi a primeira internacionalização do Rui Costa na Seleção A, jogou os 90 minutos, empatámos 1-1 e começou o reinado do Grande Maestro.

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