Até sempre, Don Vicentini

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Ouvi pela primeira vez, em 2008, que o estádio do Atlético Madrid ia ser demolido. Confesso que, numa primeira fase, não dei grande importância ao assunto. Considerei tratar-se de um rumor de mau gosto. Mas, quando, algum tempo depois, o presidente colchonero, Enrique Cerezo, confirmou a notícia da morte do Vicente Calderón para 2011, o meu choque foi brutal.

Mesmo assim, tinha de ver para crer. E a verdade é que, quando entrámos em 2012, o templo rojiblanco continuava com vida. Foi uma alegria, pois pensei que o estádio nunca seria demolido... Só que, em agosto de 2016, ligou-me o jornalista e escritor espanhol Miguel Ángel Guijarro, que me deixou gelado com esta frase: "Acabo de falar com o clube e não há marcha atrás. O estádio será demolido no próximo ano. Vou escrever o livro ‘50 anos do Vicente Calderón’ e seria uma honra que me fizesses o prefácio."

O livro saiu em novembro e não me foi nada fácil nele escrever. "Se me pedirem para definir o Estádio Vicente Calderón em oito palavras, as escolhidas seriam estas: Especial, Respeito, Medo, Alívio, Emoção, Paixão, Amor e Único".

No dia em que cheguei a Madrid, levaram-me a conhecê-lo. Apesar dos meus 21 anos, já tinha jogado em muitos estádios carismáticos. Mas, quando cheguei ao centro do campo e olhei para as bancadas vazias, a primeira frase que me saiu foi: "Este estádio é muito especial". E, naquele mesmo momento, surgiram-me as dúvidas: "Conseguirei triunfar aqui?"

Nos primeiros meses, o medo era tremendo. Felizmente, assim que o árbitro apitava e a bola começava a rolar, ele desaparecia.Três ou quatro meses depois de ter chegado ao Atlético Madrid, já estava a triunfar no futebol espanhol, tinha feito grandes jogos, como por exemplo a vitória, por 4-0, ao Real Madrid, no Bernabéu, e o medo desaparecera.

A partir daí, atuar no Calderón tornou-se uma sensação maravilhosa. Era uma emoção única e espetacular. Aliás, muitos jogadores espanhóis, que chegam pela primeira vez ao Atlético e que a equipa da infância é o Barcelona ou o Real Madrid, e mesmo os estrangeiros, como eu, ficam com uma nova perspetiva.

Todos aqueles que foram titulares, com peso no balneário rojiblanco e amados pelos adeptos colchoneros, começam também a defender as cores do Atlético Madrid. É uma grande paixão. Em muitos casos, a equipa de infância é relegada para segundo plano, porque o que passa a interessar é mesmo o Atlético Madrid.

Carinhosamente, sempre chamei ‘Don Vicentini’ ao mítico Vicente Calderón. Naquela relva passei momentos únicos, que recordarei eternamente. Mas aquele 19 de janeiro de 1997 ultapassou todos os limites.

Jogava-se um dérbi madrileno e, nesse dia, o presidente Jesús Gil y Gil deu-me a insígnia de ouro e brilhantes (distinção máxima do clube) no centro do campo, dez minutos antes do início do encontro. Não estava equipado.. ia vestido com fato e gravata.

Foi um dos dias mais felizes da minha vida. O carinho e o amor que senti é muito difícil de explicar por palavras... Aquela noite foi única para mim e para a minha família no mítico ‘Don Vicentini’.

Há poucos anos, cumpri o último sonho no Calderón. Fui ver um jogo atrás da baliza com a ‘Frente Atlético’, uma claque radical. O que vivi naquele dia com o meu filho Fábio, junto dos jovens do ‘Frente Atlético’ foi indescritível. Consegui manter o ritmo deles durante os 90 minutos. Foi como voltar a estar dentro do campo. Cheguei a casa esgotado.

Retirei-me em 1998, e em todos estes anos, muitos amigos portugueses, por ter jogado nos três grandes clubes de Portugal, fizeram-me várias vezes esta pergunta: "Se pudesses voltar 20 anos atrás e jogar só um jogo, qual seria e onde?" A minha resposta foi, é e sempre será a mesma: "Atlético de Madrid - Real Madrid, no mítico Vicente Calderón", porque "‘Don Vicentini’ é único".

Hoje é dia 21-5-2017, o Atlético Madrid joga em casa com o At.Bilbao e, antes do jogo, os 19 troféus que os colchoneros ganharam nos últimos 50 anos entrararão em campo um a um, erguidos por dois jogadores que ganharam o título correspondente. Eu desfilarei com a Taça do Rei de 1992 e vou ter os sentimentos à flor da pele.

Parece um autêntico pesadelo que hoje seja a despedida deste mítico estádio. Vou ter de dizer, quando sair esta tarde pela ultima vez da porta 6, esta frase:

"Até sempre ‘Don Vicentini’"

CALDEIRADA DA SEMANA

Maletines

Quando um jornalista de grande credibilidade, como o ex- diretor do diário ‘Marca’, Eduardo Inda, revelou que o Barcelona ofereceu 3 milhões de euros aos jogadores do Celta de Vigo para vencerem o Real Madrid, fiquei surpreendido. Não pelo facto, mas pelo valor... Pensei que seria muito mais elevado. Não me surpreenderam também os ‘gestos da mala’ de Ronaldo para Gustavo Cabral, do Celta. "Dinheiro, tu muito... uma mala", terá mesmo dito. Estes episódios acontecem todos os anos e em vários países. Só há uma maneira para acabar com a caldeirada dos ‘maletines’. É legalizar os prémios a terceiros para vitória ou empate.

NÓS LÁ FORA

Época de sonho

Todos os treinadores pensam, antes de cada época, em concretizar objetivos e protagonizar uma temporada de sonho. Em 2016/17, houve quem concretizasse todos e mais algum. O Monaco, que teve de disputar a terceira pré-eliminatória da Champions League, chegou às meias finais. Um feito relevante! Mas, mais relevante ainda foi a conquista da liga francesa. Depois disso, o primeiro técnico estrangeiro que levou o Monaco à glória foi eleito o melhor treinador do campeonato. Aos 42 anos, Leonardo Jardim protagonizou essa época de sonho. Que grande! Muitos parabéns, míster!

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES

As minhas equipas estrangeiras

Falo sempre do meu Atlético Madrid, mas também estou sempre atento aos outros clubes que representei no estrangeiro. Quero que tenham sempre êxito. Esta época foi horrível e ficaram muito longe dos objetivos. Antes do último jogo dos campeonatos, e começando por Inglaterra, o West Ham ocupava o 12º lugar no campeonato. Esperava muito mais dos londrinos. O Marselha, que ia lutar pelo título, estava em 5º lugar e tem de ganhar ao Bastia para garantir a Liga Europa. Uma época dececionante! Mas a maior de todas, uma vez mais, foi AC Milan, que ficou outra vez fora das competicões europeias e continua a viver um autêntico pesadelo.

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