Cheios de moral para o clássicio
Durante a minha carreira, disputei muitos dérbis e clássicos. Nestes jogos tão especiais nenhum profissional necessita de um discurso motivacional por parte do treinador. Em termos mentais, o jogo em causa ‘começou’ vários dias antes, pelo que, quando o árbitro apita para iniciar a partida, os níveis de concentração e motivação estão já no máximo.
Mas nem sempre foi assim. Em mais do que uma ocasião, uma derrota no jogo anterior afetava profundamente o teu estado anímico. Chegavam as dúvidas, a confiança baixava e o medo de perder de novo crescia brutalmente.
Quando representava o FC Porto, não conseguia dormir na véspera de um jogo destes, especialmente quando era disputado nas circunstâncias descritas. Apagava a luz no quarto do hotel onde estagiávamos e não ‘pregava olho’. Percebia também que o meu companheiro de quarto, o grande Frasco, também estava acordado, e, uma vez, fiz-lhe mesmo a pergunta: "António, e se perdermos amanhã?" Era miúdo e o ‘Frasquinho’ tranquilizava-me de pronto: "Impossível, Paulinho! Amanhã, vamos ganhar!"
Em casos idênticos no Atlético Madrid, na véspera de jogos com o Real Madrid ou Barcelona, era o meu companheiro de quarto que estava em pânico. "Português, e se não ganharmos amanhã?"Podia estar a sentir mais medo do que ele, mas, como capitão de equipa, dava uma resposta idêntica à do Frasco.
Recordo-me destes episódios porque hoje, em Alvalade, é dia de um grande clássico do futebol português. Sporting e FC Porto têm os jogadores sem medo e com o moral elevado, depois dos desempenhos de ambas as equipas na Liga dos Campeões. Serão, por certo, 90 minutos espetaculares.
Na terça-feira, o FC Porto teve, na difícil partida com o campeão francês, um excelente reação à derrota com o Besiktas. Mostrou a sua melhor versão e ganhou, por 3-0 no Mónaco. Apesar de a equipa treinada pelo português Leonardo Jardim estar menos forte do que no ano passado, foi um triunf notável. Saíram jogadores fantásticos, como Mbappé, Bernardo Silva,Bakayoko ou Mendy, mas até conseguiram manter os pesos pesados do balneário, como Moutinho e Falcão, e proceder a outras contratações importantes. Esta grande vitória constituiu uma injeção de moral. O plantel portista não podia estar animicamente melhor em vésperas do jogo de Alvalade.
Mas há derrotas que, moralmente, também reforçam um grupo.
Ou por seres muito superior e teres dado um ‘banho de bola’, ou por uma equipa ter feito um jogo perfeito frente a um adversário mais cotado. Foi o que aconteceu com o Sporting, na última quarta-feira, quando defrontou uma das melhores equipas do Mundo.
O próprio Ernesto Valverde, treinador do Barcelona, não poupou elogios aos leões no final da partida da Champions League: "Faltou-nos um pouco de profundidade. O Sporting foi crescendo com o jogo e também tivemos de defender, é verdade", reconheceu.
Mas o técnico do Barça admitiu muito mais do que isso. "É verdade que houve um momento em que eles cresceram. Há que valorizar o rival. Provocaram muitas perdas de bola à nossa equipa. Tivemos de sofrer. Esperávamos isto. Eles têm uma grande equipa e o ambiente foi difícil."
Os jogadores do Sporting tinham de estar tristes pela derrota averbada, mas com o moral intacto. Sabiam que tinham feito um grande jogo. Por outro lado, nenhum balneário fica indiferente a uma derrota, mas a autoestima e a confiança aumentam, logo depois de ouvirem o justo elogio do treinador de uma das melhores equipas do Mundo.
A derrota do Sporting frente ao Barcelona é daquelas que doem, é verdade, mas que também dão moral. A equipa de Alvalade saiu reforçada animicamente. Com as duas equipas sem medo de perder e animicamente no topo, o clássico de hoje poderá, desta forma, ficar para a história!
CALDEIRADA DA SEMANA
Não há treinador que aguente
Quando me disseram que o Bayern Munique tinha despedido o seu treinador, Carlo Ancelotti, fiquei surpreendido, porque não é normal que um clube da grandeza do Bayern prescinda de um técnico logo em setembro. Mas, quando me deparei com as declarações do presidente Uli Hoeness, verifiquei que a opção tomada fazia sentido. "Ancelotti tinha cinco jogadores contra ele e, como treinador, não podes ter estrelas contra ti". Como estive muitas anos dentro de vários balneários, sei que quando o núcleo duro do plantel lhe ganha aversão, não há treinador que aguente.
NÓS LÁ FORA
O hat trick mais rápido
Vários portugueses estiveram em grande nas competições europeias. O Cristiano Ronaldo fez dois golos em Dortmund, o Quaresma uma assistência maravilhosa, de trivela, para a cabeça do Talisca no segundo golo do Besiktas, frente ao Leipzig. Já o Milan ganhou, por 3-2, na Liga Europa e o André Silva marcou novamente. Mas um português fez história na quinta-feira. Manuel Fernandes marcou os três golos da sua equipa, o Lokomotiv Moscovo, em 17 minutos! Foi o hat trick mais rápido da história da Liga Europa. Impressionante, Manuel Fernandes! Muitos parabéns, campeão!
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
Momento inesquecível
Fui jantar com dois amigos e clássico foi, obviamente, o principal motivo de conversa. Um deles questionou-me se me recordava dos meus primeiros clássicos com a camisola do Sporting. Falei-lhe nas finais de iniciados e juniores e do primeiro na primeira principal. "Imagina que tens 17 anos e estás no banco de suplentes do Estádio das Antas. O treinador manda-te aquecer e ficas louco de alegria. A felicidade aumenta quando entras em campo... És extremo-esquerdo e, quando chegas perto do lateral-direito do FC.Porto, ele diz-te: ‘Miúdo, no momento que tentes tocar na bola é o teu fim. Vou-te rebentar todo e só paras no hospital!’ Esquecias esse momento?"
