çAssim que fechou o mercado de transferências, na quinta-feira, pensei na decepção de todos aqueles jogadores que já tinham chegado a acordo com o clube para o qual iriam mas que, à última hora, viram esse sonho cair por terra porque os clubes não se entenderam e não fecharam a operação. Durante a minha carreira estive várias vezes na mesma situação, mas, numa delas, mais do que decepcionado e triste fiquei superdeprimido durante vários dias...
Em maio de 1991, eu fui o jogador que o Artur Jorge, depois de ter assinado com o Paris Saint German, pediu ao presidente e aos donos do ‘Canal Plus’ francês que tinham comprado o clube e que queriam fazer uma equipa de sonho para ganhar tudo. Eu estava no Atlético de Madrid e o mister que me fez campeão da Europa com o FC Porto veio a Madrid jantar comigo e convenceu-me rapidamente. O projeto era realmente incrível e marcámos a estratégia para as próximas semanas, porque a guerra ia ser com o então presidente mais polémico do Mundo, Jesus Gil y Gil.
O Atlético estava fora da luta pelo o título espanhol, eu ganhei coragem e disse ao presidente para vender-me ao Paris SG. A resposta dele foi: "Só me sento à mesa se eles pagarem, de uma só vez, 1,5 milhões de pesetas (mais ou menos 9 milhões de euros)". Nenhum clube podia pagar isto.
Para refrescar a memória consultei os jornais espanhóis da altura e, enquanto lia aquelas barbaridades, a minha mente recuou 26 anos... e quase tive outra depressão. Mas decidi continuar o texto com as coisas mais suaves que se escreveram...
A guerra começou publicamente a 20 de maio de 1991 quando eu disse isto: "Não há tranquilidade no clube". Também nos jornais, Gil y Gil respondeu-me: "Se ele [eu] pensa que, com estas atitudes, vou baixar o preço está muito enganado". E eu voltei à carga: "Acho que o meu ciclo no Atlético terminou". Mas Gil y Gil continuou: "A partir de agora, cada vez que o português fizer declarações como estas, subirei 100 milhões de pesetas ao preço que está fixado para a sua saída!" Por sua vez, em França, Artur Jorge disse nas suas primeiras declarações como treinador do París SG: "O Futre tem muita vontade de voltar a trabalhar comigo e eu com ele e vai ser meu jogador". Gil y Gil não se calou: "Ele [eu] está com a cabeça em Paris e é igual se a equipa ganha ou perde. Falar com ele agora é como falar com uma parede e o que ele tem de fazer é deixar de fumar tanto!"
Depois de várias semanas desgastantes, Gil y Gil não baixava o preço e eu tinha duas soluções: ou desistia de lutar ou passava os limites para aumentar a pressão. Elegi a segunda... Depois da derrota em casa com o Valladolid, por 1-0, a notícia em Espanha era esta: Tomislav Ivic substituiu Futre ao intervalo, porque lhe tinha dito que "não aguentava mais". Naquela noite, o presidente rebentou, mas abriu a porta. "Estou farto que ele [eu] se ria de mim. Não lhe perdoou nem mais uma estupidez. Ele [eu] está com a cabeça em Paris, mas devia era ter o rabo no banco de suplentes. Se o Paris SG trás um cheque com mil milhões de pesetas vendo-o agora mesmo!" Fiquei feliz. Esta era mais ou menos a cifra que os franceses estavam dispostos a pagar em várias tranches.
Gil y Gil convocou então uma conferência de imprensa surpresa, ao lado do vice-presidente do Paris SG, para comunicar que eu continuaria no Atlético uma vez que o clube francês não iria pagar os mil milhões de pesetas que ele pedia. "Não se vai fazer a operação, a diferença entre o que me ofereceram e o que eu pedia é enorme. Mas, apesar dos franceses irem por um mau caminho, porque são novatos no futebol, ficámos com uma boa relação", justificou o presidente. Foi o meu pai que reagiu a isto na imprensa: "O meu filho não vai fazer declarações, porque mais do que triste está deprimido". E estava mesmo.
Hoje, todos os jogadores que se sentem como eu naquela altura, só têm uma solução, que é mudar o chip rapidamente. Duas semanas depois daquela loucura, ganhei o meu primeiro título em Espanha, dei um grande abraço a Gil y Gil e disse: "O futuro a partir de agora será muito melhor."
