Depois de Milanello só existe o céu
Durante mais de 30 anos, a estrutura do AC Milan liderada pelo presidente Silvio Berlusconi, o diretor geral Adriano Galliani e o diretor desportivo Ariedo Braida, foi considerada por todos os jogadores que passaram por aquele grande clube como única e excelente. Nos finais dos anos 80 e início dos 90, estava em Espanha e quando chegavam estes elogios sobre a organização dos craques rossoneri juntamente com esta frase: "Depois de Milanello – cidade desportiva do AC Milan – só existe o céu" o sonho que tinha desde o Mundial de 82 (com 16 anos) – jogar na Roma – mudou completamente para o clube do norte de Itália. Por esta razão quando em maio de 1995 o presidente da Reggiana disse-me que o Milan ia fazer uma digressão de vários jogos na China e no Japão, e queriam que viajasse com eles à experiência fiquei estupefacto. Na época estava com 29 anos, já tinha jogado em grandes clubes onde ganhei vários títulos coletivos e individuais e já não era nenhum menino para fazer experiências, mas por outro lado entendia os dirigentes do Milan. Tinha sido operado ao joelho há poucos meses pela segunda vez num ano e queriam ver se estava em condições físicas para me contratarem. Se queria concretizar aquele grande sonho tinha de deixar o meu orgulho de parte e ser o melhor em campo todos os jogos na Ásia. E assim foi e assinei contrato.
Quando entrei pela primeira vez em Milanello, fiquei sem palavras. Mais que uma cidade desportiva parecia um hotel de cinco estrelas, onde cada jogador tinha o seu quarto individual, com televisão, vídeo, frigorífico, etc... Um autêntico luxo de alta competição (muito adiantado para aquele tempo), e excelentes métodos de trabalho em todas as áreas. No posto clínico, por exemplo, tínhamos dois médicos, um psicólogo e cinco fisioterapeutas, com um especialista só para as costas. Nunca tinha visto tal coisa. Noutros clubes a política é que não te falte nada para jogar, ali a filosofia é que não tenhas a mínima desculpa quando perdes e são disponibilizados todos os meios para que o jogador se concentre apenas em vencer. Tanto no clube como fora dele. Se à noite tens um problema em casa ou com alguém da tua família, uma dor, um problema na canalização, um eletrodoméstico que deixou de funcionar... qualquer coisa que te impeça de estar em paz e descansar… Assim que chegas ao clube, recebes uma lista com todos os números telefónicos para as mais variadas emergências que possas ter e resolver qualquer situação a qualquer momento. Um sistema único no futebol mundial. Sobretudo naquele tempo. Muitos dos clubes que usam semelhante organização na atualidade, copiaram o modelo AC Milan. Em Milanello havia dois restaurantes, um para os jovens da formação que viviam lá todo o ano, jornalistas, familiares, etc... o outro era exclusivo para a equipa principal. Depois da minha terceira operação ao joelho para não correr qualquer tipo de risco, as primeiras cinco ou seis semanas não saí de Milanello nem para ir a casa. E almoçava todos os dias com os meus companheiros de equipa, mas todas as noites jantava sozinho por esta razão. Havia juniores que de vez a vez treinavam connosco e quando pedi ao responsável que para não jantar sozinho não me importava de estar com os miúdos no seu restaurante, a resposta dele foi: "Sinto muito por ti, mas estes jovens sabem que para almoçarem ou jantarem na mesma mesa de um jogador da primeira equipa têm de trabalhar e sacrificarem-se muito e os poucos que conseguiram este prémio é porque atingiram os seus objetivos e a maioria foram importantes na primeira equipa." Sem dúvida que o AC Milan era um clube muito especial em todos os aspetos.
Recordo-me desta história, porque depois de mim e do mago Rui Costa, o André Silva acaba de assinar pelo Milan e será o terceiro português que vai ter o privilégio de jogar naquele enorme clube. E apesar dos anos horríveis que levam sem ganhar nada, da estrutura e organização ser outra e do André não ter craques na equipa do nível do Costacurta, Tassotti, Baresi, Maldini, Baggio, Weah, Desailly, Savicevic, Boban etc... como eu tive, ou como o Rui Costa teve, que ainda apanhou o Maldini, o Costacurta e tinha no seu plantel fenómenos como o Kaká, Inzaghi, Pirlo, Seedorf, Shevchenko, etc... se há um clube gigante no futebol mundial que pode voltar a ser o tubarão que sempre foi e voltar a ser uma equipa ganhadora em Itália e Europa... é o Milan. Parabéns André e muita força para esta grande aventura. Para finalizar, nestes últimos anos os grandes clubes construíram cidades desportivas impressionantes, mas mesmo assim não me surpreendia que o André, depois de conhecer todas as instalações, dissesse: "Depois de Milanello só existe o céu."
CALDEIRADA DA SEMANA - Vão mesmo prejudicar o CR7
Normalmente, quando vejo alguma notícia fora do normal sobre o CR7, ligo ao Jorge Mendes e ele confirma-me se é verdade ou mentira. Mas na sexta-feira quando li no site do Record "Ronaldo já não volta a Madrid, a decisão do capitão da Seleção está tomada" não liguei ao Jorge, porque acredito que o CR7, no momento que viu esta injustiça sobre ele no dia 13 – "O Ministério Público espanhol acusou Ronaldo de ter, de forma ‘consciente’, criado uma sociedade para defraudar o fisco espanhol em 14,7 milhões de euros" – tudo fará para não voltar a Madrid. Era mais credível que falassem que a fraude era de 147 milhões de euros, agora de 14,7 milhões de euros onde o Cristiano em dois dias de gravações para um ou dois anúncios ganha esse valor ou mais... é ridículo. Poderá haver um erro, mas dizerem que o CR7 tentou defraudar o fisco é porque querem desviar a atenção dos políticos espanhóis que foram presos por corrupção ultimamente.
NÓS LÁ FORA - Estava escrito
Pela excelente carreira que fez como futebolista – triunfou em todos os países onde jogou – e como jogador carismático que foi para todos os adeptos do FC Porto, tudo apontava que quando começou a carreira como treinador principal no Olhanense, em 2012/13, que o Sérgio Conceição – com o seu caráter guerreiro, ganhador, direto e sem medo de ninguém – mais tarde ou mais cedo concretizaria o sonho de liderar o FC Porto e esse dia chegou. Serginho: muitos parabéns e força para este grande desafio. Por último, chegares em dezembro a uma equipa que era 18.ª e acabar em 7.º é um trabalhado de nota 10!
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES - México e Putin
Durante o Mundial do México de 1986, aquando da guerra entre Seleção e Federação, só tive noção que estávamos a escrever a página mais negra do futebol português quando li o comunicado do Presidente da República com frases parecidas a esta: "Não podem prejudicar a imagem de Portugal." Nestes 31 anos tive muitos pesadelos com aquele comunicado. E recordo-me deste péssimo momento, porque imagino o pesadelo dos internacionais russos quando leram: "O presidente Putin está preocupado e criticou as recentes exibições da seleção da Rússia. ‘Para ser sincero, há muito que [a seleção russa] não faz um bom jogo’..."
