Do Wrexham ao Dínamo Kiev

Adicione como fonte preferencial no Google

Na carreira de um profissional de futebol há momentos que marcam toda a vida. Na mente de todos os ex-futebolistas há jogos que, pelo lado positivo ou negativo, nunca se esquecem.

Eu não podia fugir a esta regra. Hoje, com quase 50 anos, é muito frequente recordar-me e falar com qualquer pessoa dos momentos de glória que vivi dentro de um estádio. Por exemplo, quando vou ao Porto, há sempre um adepto que se aproxima e me aborda sobre a final de Viena, de 1987, quando fomos campeões da Europa.

Já em Madrid é normalíssimo que os colchoneros me recordem a final da Taça do Rei de 1992, quando ganhámos ao Real Madrid, por 2-0, em pleno Santiago Bernabéu. Estes são dois momentos felizes que passaram de geração para geração e que viverei com eles eternamente.

Na outra face da moeda estão, obviamente, os péssimos momentos vividos. Nenhum adepto me recorda esses episódios, mas continuam muito presentes na minha mente. Quando alguma das equipas onde joguei fracassa, percorre todo o meu corpo aquela sensação horrível que vivi há muitos anos, quando ainda jogava. É como um trauma. São os chamados jogos eternos...

Depois da eliminação do FC Porto, na última quarta-feira, diante do Chelsea, pensei nos jogadores e no trauma com que ficaram para toda a sua vida. Não propriamente por causa desta partida, em Londres, mas sim devido ao que aconteceu no penúltimo jogo do grupo, contra o Dínamo Kiev, no Dragão. Bastava-lhes um empate para estarem matematicamente nos oitavos-de-final da melhor competição de clubes do Mundo e fracassaram brutalmente.

Não tenho a mínima dúvida que, após o jogo com a equipa de José Mourinho, em Stamford Bridge, o balneário portista parecia o cenário de um funeral e que nas mentes do presidente Pinto da Costa, de Lopetegui e seus jogadores só havia uma pergunta: como pudemos perder com o Dínamo Kiev em casa?

Naquele preciso momento, o pesadelo Wrexham voltou à minha mente e aquela sensação de mal-estar invadiu todo o meu corpo. Há 31 anos, também não se ouvia uma mosca no balneário do FC Porto. O chamado silêncio da derrota é horrível, mas, naquele caso, juntava-se-lhe o silêncio da humilhação, que era muito pior. Eu tinha 18 anos e queria desaparecer da face da Terra pela vergonha que sentia. Naquele momento desastroso só uma ideia passava pela nossa cabeça: "Não é possível sermos eliminados por estes bebe-águas."

Este fracasso inacreditável aconteceu na época 1984/85. O Wrexham pertencia à 4.ª divisão inglesa e tinha ido à Taça das Taças apenas porque garantiu o apuramento através da Taça do País de Gales. Na primeira mão, fora de casa, encarámos o jogo como um ‘amigável’ e pensávamos que íamos golear, resolvendo logo ali a eliminatória. Mas estávamos enganados. Fizemos um jogo péssimo e perdemos, por 1-0.

Na segunda mão, começámos a todo o gás e, como éramos muito superiores aos galeses, aos 38 minutos já estávamos a ganhar, por 3-0. Mas o resultado justo seria um 7-0 ou 8-0, já que tínhamos falhado inúmeras ocasiões de golo. Hoje, ainda não sei como, mas a verdade é que, em duas bolas paradas, eles fizeram dois golos antes do intervalo.

Com o 3-2, estávamos de fora. Era surreal. Na segunda parte, fizemos o 4-2, tivemos muitas oportunidades para matar novamente a eliminatória, mas não conseguimos. No último minuto, sem saber ler nem escrever, eles fazem o 4-3 e passam a eliminatória.

Naquele momento, o mítico Estádio das Antas e todos os adeptos portistas congelaram. Não podiam acreditar no que tinha acontecido. Meses atrás, o FC Porto tinha ido à final das Taças das Taças com a Juventus e, agora, na primeira eliminatória, com uma equipa da 4.ª divisão inglesa, estava eliminado...

Recordo-me que a única frase que proferi no balneário foi para o meu companheiro Quim, no banho de imersão. Dentro da tristeza, deceção e humilhação que sentia, disse-lhe: "Vamos recordar esta derrota para toda a vida e quando contarmos o que passou aqui aos nossos netos eles não vão acreditar." E assim será. O Wrexham estará presente até ao último dia da minha vida.

Não me admira que, no banho de imersão depois do jogo com o Chelsea, o Rúben Neves dissesse para outro companheiro: "Vamos recordar para toda a vida o jogo com o Dínamo Kiev e os nossos netos não vão acreditar. Faltava um pontinho para estarmos nas 16 melores equipas da Europa e perdemos em casa. Foi um fracasso inacreditável. O Dínamo Kiev estará presente até ao último dia das nossas vidas."

Caldeirada da semana -- Van Gaal

Depois de ter gasto 80 milhões em Martial e de ter contratado ainda outros craques, como Memphis Depay ou Schweinsteiger, o treinador holandês continua a não acertar. A primeira consequência da época foi a eliminação da fase de grupos da Champions League. Num grupo em que o Manchester United era o grande favorito para o 1.º lugar, os ingleses acabaram por ver Wolfsburgo e PSV ficarem à sua frente, sendo relegados para a Liga Europa. Sem dúvida alguma que o técnico holandês foi a grande deceção desta edição da Champions League. Van Gaal vai já na sua segunda época nos red devils e continua a não convencer.

Nós lá fora -- Já não há palavras

O Cristiano Ronaldo bateu mais um recorde na passada terça-feira, com o póquer conseguido diante do Malmö, e é o jogador com mais golos apontados numa fase de grupos da Champions League. Tem nada mais nada menos do que 11 em apenas seis jogos, naquela que é a competição mais importante do Mundo a nível de clubes. Impressionante. Qual será o próximo recorde que esta máquina humana irá bater? Parabéns ‘Bicho’, já não há palavras!

Àlbum de recordações -- Outro mundo

Na terça-feira passada, no jogo em que o Real Madrid goleou o Malmö, por 8-0, testemunhei um momento incrível. Os adeptos suecos não pararam de aplaudir a sua equipa. Têm uma mentalidade fria, educada e grande fair play, tal como acontece em qualquer país nórdico. Faz-me recordar a minha etapa no Japão. Ao serviço do Yokohama Flugels, num dos primeiros jogos que realizei, estávamos a perder, por 5-0, em casa e tínhamos os nossos adeptos a aplaudir. Foi uma grande surpresa. Tinha 32 anos, estava a terminar a minha carreira e pensava que não havia adeptos assim. A experiência foi única. Era outra cultura. Uma maravilha!

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade