O adeus sonhado ao Calderón

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Depois de ser campeão europeu com o FC Porto em 1987, nas três semanas seguintes, tive reuniões com as melhores equipas da Europa e com o melhor negociador do Mundo a meu lado. O presidente Pinto da Costa marcava as pautas e os tempos das negociações, só fechávamos o negócio depois de ouvir todas as propostas económicas e a melhor delas (para ambos) seria a equipa com quem assinaria contrato. A última reunião foi com o Inter Milão, em casa do seu presidente, e foi ele quem ganhou o leilão. Naquela noite, no hotel, em Milão, adormeci como jogador do Inter e estava feliz, mas a realidade ia ser outra, já que 24 horas depois estava noutro país, cidade e hotel. O destino elegeu que o Atlético Madrid seria o meu clube e que estaria na minha vida até hoje. Estávamos em junho de 1987, tinha 21 anos, no ano seguinte com 22 já era o capitão de equipa e comecei a viver e a sentir as cores rojiblancas de uma maneira diferente. Com o carinho espetacular que recebia diariamente daquela ‘afición’ única, também comecei a sentir uma paixão e um amor enorme pelo clube. Em 1997 fui embaixador, de 2000 a 2003 diretor desportivo, em 2004 fiz o meu primeiro texto sobre o Atlético para o diário ‘Marca’, que é a bíblia do desporto para os espanhóis e gostei. Cada jogo oficial que os colchoneros fizeram nos últimos 10 anos escrevi sobre ele no meu espaço ‘Los toques de Futre’. Tenho 51 anos, não sou espanhol, mas tenho a honra de ter recebido o emblema de ouro de brilhantes, a máxima distinção do clube e em junho faz 30 anos que estou ligado de uma maneira ou outra ao Atlético Madrid. O destino é mesmo incrível.

Por esta razão, no dia 18, assim que o jogo acabou em Leicester com a passagem às meias-finais da Champions dos colchoneros, comecei a ver o prolongamento do Real Madrid-Bayern Munique e naqueles 30 minutos acho que torci e sofri mais pelos alemães que os próprios adeptos.

Mas o fator sorte esteve com o Real e assim que terminou o jogo, comecei a receber mensagens de dois amigos íntimos merengues e algumas eram assim: "Não há duas sem três"; "Já foste à farmácia comprar comprimidos para conseguires dormir após a final de Cardiff." Como a brincadeira era sobre a final respondi assim: "Estou em Lisboa, a 600 quilómetros de vocês, e pressinto que estão em pânico pelo sorteio de sexta-feira , se vos toca o Atlético Madrid em dois jogos terão pesadelos até ao último segundo da segunda mão." A primeira resposta foi esta : "Estou-te a pôr diretamente na final da Champions e tu estás com medo de jogar outra finalíssima contra nós." Antes de responder pensei que como jogador e adepto sempre tive muito respeito pelo Real, mas nunca medo. Mas tinha medo do destino e de estar novamente ganhando uma final de Champions e, na última jogada, o destino voltar a fazer algo tão cruel como o que fez em Lisboa. Tinha medo porque historicamente, nas finais da Champions, os árbitros não cometem erros graves, mas o destino uma vez mais não esteve com os colchoneros na final de Milão e quis que o fiscal de linha cometesse aquele erro gravíssimo, ao não levantar a bandeirola e escandalosamente o árbitro deu por válido um golo ilegal numa final da melhor competição do Mundo. Tinha medo de voltar novamente a uma decisão por penáltis, porque por muito que os jogadores treinem e sejam todos uns fenómenos a marcar uma máxima penalidade, naquele momento de pressão e tensão, a baliza fica muito pequena e tudo pode acontecer. O destino decide quem ganha a lotaria e também o ganhador de uma final decidida a penáltis. Lembro-me que quando terminaram os 120 minutos em San Siro, estava no estádio e muito confiante que depois do autêntico pesadelo de Lisboa, do golo ilegal e algum detalhe mais, pensava que o destino ia ser justo com o mundo rojiblanco e que finalmente – pela primeira vez nas duas finais – dar-nos-ia o fator sorte e o Atlético seria campeão da Europa, mas infelizmente não foi assim…

E quando vi a mensagem do meu amigo, não tinha medo dos merengues, mas tinha muito medo que o destino voltasse a fazer aquela maldade ao Atlético numa terceira final de Champions com o Real. Quando foi o sorteio e saiu as quatro bolas e onde seria os jogos da primeira e segunda mão, respirei e automaticamente pensei que a melhor homenagem e despedida do mítico Estádio Vicente Calderón seria eliminar no seu relvado, no dia 9, o nosso eterno rival, no jogo da segunda mão das ‘meias’ da Champions.

Terça-feira começa a primeira grande batalha no Bernabéu e já estou nervoso.

CALDEIRADA DA SEMANA

Revenda de bilhetes ao inimigo

Quando o Messi faz o 3-2, tira a camisola e vai festejar junto da bancada onde só deveriam estar adeptos do Real, no último minuto do clássico da semana passada no Bernabéu. Fiquei surpreendido por ver muitos culés a festejar o golo. Estava estupefacto, porque joguei ali muitas vezes e aquele sítio era reservado só para os merengues até que vi o comunicado: "Depois do clássico o Real abriu 1.450 processos de expulsão e terá retirado lugares anuais a 357 associados." A razão? Um esquema de revenda de bilhetes contra o B. Munique; assobiaram o seu fenómeno Cristiano Ronaldo e no domingo venderam os seus bilhetes aos inimigos culés. Uma vez mais digo: que vergonha de ‘afición’ tens, Cristiano.

NÓS LÁ FORA

Mudança radical em 4 dias

A semana passada, nesta mesma caixa, escrevi: "Depois da lei Bosman ,o adepto espanhol começou a ser mais paciente com os estrangeiros. Mas os culés este ano voltaram aos anos 80, porque não é normal a maneira cruel como estão a tratar o André Gomes. Mais que uma caldeirada, é uma grande injustiça o que estão a fazer ao jovem jogador português. André, com dois bons jogos, vais dar a volta à situação, e aqueles que hoje te assobiam e te insultam serão os primeiros a aplaudir-te amanhã." Naquela tarde de domingo, no clássico no Bernabéu, o André esteve no terceiro golo que da a vitória aos culés, e na quarta-feira fez dois golos no seu estádio ao Osasuna e foi aplaudido. Impressionante… Parabéns, grande campeão.

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES

Ontem o FC Porto jogou em Chaves, e enquanto via o jogo, recordei a pior viagem que fiz de autocarro na minha carreira como profissional de futebol. Na 20.ª jornada do Nacional 1985/86, o Chaves também recebeu o FC Porto , eu era jogador dos dragões e ganhámos 2-0. Foi um jogo tranquilo, sem polémicas. Depois da partida, já dentro do autocarro, vi que havia pouca polícia para a multidão presente . O nosso diálogo era: "Não vamos conseguir sair daqui." Percorremos 2 metros em 30 minutos e o Gomes e o Lima Pereira tiveram a péssima ideia de sair do autocarro para acalmar as pessoas. Deram alguns autógrafos e eu estupidamente faço o mesmo, mas assim que meto o pé direito fora, levei com uma pedrada tão forte na boca, que caí no chão e entrei de gatas no autocarro. Rebentaram-me o lábio e só levei os pontos quando chegámos ao Porto. Um autêntico pesadelo de viagem.

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