O catenaccio chegou ao fim
Quando cheguei a Itália, em 1993, e falava com os meus colegas de equipa sobre o catenaccio, todos eles respondiam o mesmo: "Não há nenhuma equipa campeã sem organização defensiva". Na formação de qualquer clube as três primeiras palavras que os miúdos ouviam eram "defender, defender e defender". Esta filosofia era igual para os defesas, médios e avançados. Não havia exceção e até génios como Roberto Baggio tinham de saber defender. Ele dizia-me sempre que se defensivamente estivesse mal colocado, quando a sua equipa não tinha a bola, os treinadores não o perdoavam e levou muitas broncas na sua infância e adolescência por este motivo.
Para qualquer avançado criativo, correr para trás quando a equipa tem de defender não é nada fácil. O Roberto foi um dos melhores camisolas 10 da história do futebol e muitas vezes, nos treinos, metia-me a analisar os seus movimentos defensivos. Ele não era agressivo nem recuperava bolas, mas era superinteligente na ocupação do espaço, o que fazia com que, sem correr muito, estivesse sempre bem colocado. Era incrível.
Nos anos 80 e 90, a liga italiana era considerada a melhor da Europa e havia duas frases que nunca mais me esqueci: "um avançado que fizesse 20 golos no calcio fazia o dobro ou mais em qualquer outro campeonato", o que era, sem dúvida, verdade para qualquer goleador ou extremo, como era o meu caso. Encontrar espaços naquela organização defensiva era quase um milagre.
A outra frase era "se não ganhaste em 80 minutos, não percas nos últimos 10". Por outras palavras, se estás empatado a 10 minutos do final do jogo, não corras mais riscos e defende o ponto.
O catenaccio fez parte, durante décadas, da cultura do futebol italiano. Com este modelo de jogo defensivo, com muitos homens atrás da linha da bola, eles tiveram muitos êxitos a nivel de seleção e de clubes, pois, apesar de serem muito criticados e acusados de praticarem anti-futebol durante anos e anos, sempre sentiram um grande orgulho por serem os reis desta estratégia por muitos odiada.
Até que chegou Arrigo Sacchi ao AC Milan, em 1987, e revolucionou o futebol italiano com aquela mítica e irrepetível defesa formada por Tassoti, Costacurta, Baresi e Maldini, jogando num sistema de alto risco e pressão alta. Eu tive o privilégio de jogar e de treinar com aqueles quatro fenómenos. Eram espetaculares. Muitas vezes estavam colados à linha do meio-campo e, em cada jogada, deixavam os adversários em forade-jogo. Estavam de tal forma sincronizados que pareciam um relógio suíço. Raramente cometiam erros. O líder era Franco Baresi. Quando ele entendia que deviam defender sem riscos e fazer o catenaccio também não tinham vergonha e defendiam como leões.
Recordo-me de tudo isto devido ao grande jogo de quarta-feira, da segunda mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, na Alemanha, entre Bayern Munique e Juventus. Contra todos os prognósticos, os italianos, a 18 minutos do final do jogo, ganhavam por 2-0. Depois do empate 2-2 em Turim, muito poucos italianos pensavam que os homens de Guardiola conseguiriam dar a volta à situação. Era o momento do ‘catenaccio’ e uma equipa da grandeza da Juventus não podia sofrer dois golos nestes minutos finais.
Mas, aos 73’, o Bayern, por intermédio de Lewandowski, fez o 2-1 e, nos descontos, Müller, sozinho ao segundo poste, empatou a eliminatória. No prolongamento, os alemães fizeram mais dois golos e passaram aos quartos-de-final. No momento em que a defesa da vecchia signora comete aquele erro fatal do segundo golo, todos os grandes jogadores e treinadores que fizeram história no futebol italiano, tendo sucesso com aquele modelo defensivo, pensaram "o catenaccio chegou ao fim".
Caldeirada da semana
Animais
O que aconteceu em Madrid, com os hooligans holandeses do PSV a humilharem os mendigos, foi das imagens mais tristes que vi até hoje. As gargalhadas daqueles animais quando pegavam nas moedas e as atiravam às mendigas, com estas a empurrarem-se e lutarem para as apanharem primeiro... Não há palavras para descrever a maldade destas pessoas. Como se não bastasse, começaram a atirar pedaços de pão e a rirem-se. Aconteceu na Europa... Estes animais são adeptos do desporto que a grande maioria ama e, naquele horrível dia, até com o futebol fiquei triste.
Nós lá fora
Grande Sp. Braga!
Se na quinta-feira senti um enorme orgulho como português, com a passagem do Braga aos quartos-de-final da Liga Europa, imagino a felicidade e alegria dentro do balneário dos minhotos após o jogo. Passar uma eliminatória tão importante, contra uma equipa com o orçamento muitíssimo superior aos arsenalistas, como era o caso do Fenerbahçe, é de um mérito incrível e uma satisfação única para qualquer plantel. Muitos parabéns ao Paulo Fonseca, equipa técnica, estrutura e obviamente a todos os seus craques por este feito maravilhoso!
Álbum de recordações
O sorteio
Em 1987, quando o FC Porto chegou às meias-finais da Liga dos Campeões, a imprensa dos países das outras três equipas, que eram Real Madrid, Bayern Munique e Dinamo de Kiev, queriam que lhes tocasse no sorteio a pior equipa que para todos eles éramos nós. Enganaram-se e de que maneira. Desde de quarta-feira, até ao dia do sorteio dos quartos-de-final, passou-se o mesmo. Desta vez, todos queriam o Benfica como rival. Aos homens do Rui Vitória tocou um osso duro de roer e um dos grandes favoritos para ganhar a Champions, mas os jogadores do Bayern Munique também cometem erros e também têm dias negros. Se o Benfica fizer um grande jogo na Alemanha e regressar com posibilidades de disputar a eliminatória no jogo da segunda mão, na Luz, por que não poderá acontecer uma grande surpresa como em 1987? A este nível competitivo tudo pode acontecer no futebol!
