O catenaccio de Deus
Na última quinta-feira, o defesa da seleção italiana Giorgio Chiellini disse o seguinte: "O ‘Guardiolismo’ arruinou toda uma geração de defesas. Agora todos olham para cima, já não há defesas italianos que intimidam os rivais, está a perder-se a nossa tradição. Para voltar à elite do futebol mundial, a Itália precisa de goleadores como aqueles que tínhamos há 20 anos e também de defesas a sério."
Para Chiellini, a culpa pela crise no futebol italiano é do tiki-taka de Guardiola. Até podia ser, mas este estilo de jogo ofensivo e de posse de bola constante foi inventado pelo génio Johan Cruyff, o professor de Guardiola. O holandês, com o seu tiki-taka, revolucionou o futebol. Era um luxo ver jogar aquele Barcelona do final dos anos 80 e grande parte dos 90. O ‘Dream Team’ era a melhor equipa do Mundo, mas os reis da Europa eram as equipas italianas, que naquelas duas décadas disputaram 12 finais da Taça dos Campeões Europeus. Numa delas, a de 1994, o AC Milan ganhou 4-0 a esta equipa de sonho do Barça, confirmando que o futebol italiano vivia um momento espetacular.
Na minha opinião, a culpa da crise em Itália começou com a chegada da lei Bosman em 1995, e a mudança na forma de ver o futebol desta geração de treinadores italianos do século XXI, que nada tem a haver com os sistemas ultradefensivos que deram durante décadas à Itália muitos êxitos a nível de clubes e seleção. A cultura defensiva do jogador italiano foi a chave de todos estes êxitos, mas o ‘catenaccio’ tem os dias contados no futebol atual e Itália tardará anos para voltar a ser a grande potência da Europa como foi no passado.
A disciplina tática e inteligência que tinham os melhores defesas italianos da história, como por exemplo Cabrini, Maldini, Baresi, Costacurta, Gentile, Scirea e Cannavaro, entre muitos outros, dificilmente voltaremos a ver. Os últimos três craques e representantes desta cultura futebolística italiana são Chiellini, Barzagli e Bonucci. Quando o último deles se retirar, a melhor universidade de filosofia defensiva da história do futebol fechará para sempre.
Em 2010, no dia seguinte à apresentação oficial de José Mourinho como treinador do Real Madrid, ele ligou-me e convidou-me para jantar no hotel onde estava hospedado com o grande Silvino e o Rui Faria. Recordo-me que uma das primeiras perguntas que lhe fiz foi sobre o jogo da segunda mão das meias-finais da Champions League, entre o Barcelona e o Inter Milão, que tinha sido poucas semanas antes. Os culés tinham tido 86 por cento da posse de bola, uma barbaridade, mas mais incrível ainda foi que os italianos jogaram com menos um a partir dos 28 minutos, altura em que Thiago Motta foi expulso. Mesmo assim, Messi e companhia praticamente não tiveram oportunidades claras de golo.
Naquela noite histórica, os homens do Mourinho só remataram uma vez à baliza, mas defensivamente e taticamente foi o jogo mais perfeito que vi até hoje de uma equipa com 10 jogadores. O Inter passou a eliminatória e acabou por ser campeão da Europa depois de derrotar o Bayern na final. "Zé, o que disseste aos teus jogadores depois da expulsão de Motta?", perguntei. O génio respondeu-me com outra pergunta: "Sabes qual era o nosso grande inimigo a partir do minuto 28, Paulinho?" "Não", disse eu. "A bola", continuou Mourinho. "De cada vez que tivéssemos a bola em nosso poder e a perdêssemos, criávamos o único momento em que o Barcelona nos podia surpreender. Eles com espaços são mortais. Para defender com a máxima perfeição, estar sempre bem colocados e compactos dentro de campo e não cometer nenhum erro defensivo, só tínhamos uma solução. O que disse aos jogadores ao intervalo foi ‘A bola é para eles, a nossa missão é defender e nada mais que defender, hoje esqueçam a bola, porque é o nosso pior inimigo’." Que génio...
Como os italianos são amantes de táticas defensivas, para grande parte da imprensa italiana aquele jogo é considerado como o maior feito da história de uma equipa transalpina. Para os adeptos do Inter, foi o catenaccio de Deus.
A crise que vive hoje o futebol e os jogadores italianos já era muito grave em 2010. Naquela noite de Nou Camp, o onze titular do Mourinho foi: Júlio César (brasileiro), Maicon (brasileiro), Lúcio (brasileiro), Samuel (argentino), Chivu (romeno), Cambiasso (argentino), Zanetti (argentino), Thiago Motta (brasileiro), Sneijder (holandês), Eto’o (camaronês) e Milito (argentino). O Inter é uma equipa de Itália, mas não havia um único italiano no onze titular. O catenaccio foi inventado por eles e vários dos melhores treinadores da história do futebol italiano utilizaram este sistema de jogo, mas nenhum deles fez algo tão grande e perfeito defensivamente como o génio português. Naquela noite em Barcelona, foi mesmo o catenaccio de Deus.
Caldeirada da semana - Itália contra as cordas
Depois da derrota da seleção italiana em Estocolmo contra a Suécia por 1-0, no jogo da primeira mão dos playoff de acesso ao Mundial’2018, esta caixa é o seguimento da crónica. Continuo com mais declarações que Chiellini fez na quinta-feira: "Este país leva 60 anos seguidos a participar em Mundiais e seria naturalmente uma vergonha se não nos qualificarmos."
Amanhã em Milão disputa-se o jogo da segunda mão. Se a Itália não conseguir a reviravolta, será o maior fracasso de toda a história do calcio e uma autêntica catástrofe para futebol italiano.
Nós lá fora - Um regresso de sonho
Na semana passada, nesta mesma caixa, escrevi isto: "Manuel Fernandes, cinco anos depois da sua última internacionalização com a camisola das quinas, foi convocado por Fernando Santos para os dois jogos amigáveis frente à Arábia Saudita e Estados Unidos. Um prémio mais que merecido para Manuel Fernandes." Hoje continuo. O patrão do meio-campo do Lokomotiv Moscovo foi titular na sexta-feira contra a Arábia Saudita e fez o primeiro dos três golos de Portugal. Um regresso de sonho, Manuel. Parabéns, campeão!
Álbum de recordações - Os radicais do Marselha
Quando cheguei a Marselha em 1993, explicaram-me como funcionavam as claques radicais do clube, quer nas vitórias quer nas derrotas. Fiquei surpreendido e disse: "Se os adeptos de França estão entre os mais pacíficos da Europa, como pode passar-se algo assim aqui se perdemos dois jogos seguidos?" A resposta foi simples e deixou-me em sentido: "Porque isto não é França, isto é Marselha."
Recordo-me desta história porque hoje as cinco claques radicais do clube estão entre as mais violentas da Europa. Por muito que Evra, depois do pontapé que deu a um ultra em Guimarães, escrevesse nas redes sociais coisas como "Obrigado a todos os verdadeiros adeptos do Marselha. Tenho recebido muito apoio deles", estava condenado. Esta semana rescindiram-lhe o contrato. Para um futebolista e a sua família, Marselha é uma cidade maravilhosa para viver. Mas nos momentos maus da equipa, Marselha é um pesadelo.
