Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

O dia em que o meu relógio parou

Faz hoje 31 anos que acordei aos saltos em cima da cama. Disse para o Frasco, que era o meu companheiro de quarto, "António, chegou o grande dia". Eram 9 da manhã e a final da Taça dos Campeões Europeus entre o Bayern Munique e o FC Porto começava às 21 horas. Ali começaram as 12 horas mais longas da minha vida.

Logo ao pequeno-almoço olhava para o relógio e via que os ponteiros dos segundos e minutos não andavam como normalmente. Avançavam com uma lentidão que eu nunca tinha visto. A ansiedade e nervosismo que já sentia àquelas horas da manhã eram de tal maneira que parecia que o relógio estava congelado. Assim, com os ponteiros a ritmo de caracol, chegou o almoço, a sesta e um dos momentos mais esperados do dia, que era saída do hotel para o Estádio Prater, duas horas e meia antes da final.

E hoje ainda recordo como horríveis foram para mim e todos os meus companheiros aquelas duas horas malditas de espera dentro do balneário. Até sair para o aquecimento, 40 minutos antes do início do jogo, a ansiedade e o nervosismo que senti foram de tal maneira intensos que os minutos pareciam eternos. "O relógio está mesmo congelado", dizia eu, porque cada minuto que passava parecia uma hora. A concentração naquele momento era brutal. As conversas terminaram e reinava o silêncio. Cada um estava nos seus rituais pessoais enquanto alongávamos e fazíamos alguns exercícios. As únicas palavras que conseguia dizer aos meus companheiros eram "Vamos ganhar!". Bastava o som da respiração de cada um e o ruído dos pitões no cimento quando caminhava e para perceber perfeitamente que nunca tinha vivido um momento tão intenso como aquele. Sabia que o jogo que ia disputar era mesmo muito especial e algo grandioso. Estava louco para sair para o relvado, para começar o aquecimento, mas cada vez que olhava para o maldito relógio a sensação era igual. "Estes ponteiros não avançam de maneira nenhuma", dizia para mim mesmo.

Durante a minha carreira joguei três jogos num Mundial com Portugal. Joguei muitos dérbis e clássicos em vários países e todos eles foram batalhas psicológicas de alta tensão e pressão, em que as horas, minutos, e segundos prévios ao apito inicial do árbitro custavam uma barbaridade a passar. Mas naquele 27/05/1987 o relógio congelou completamente.

Acho que os quatro ou cinco minutos que mais rapidamente passaram naquele dia foram ao intervalo, quando estávamos a perder 1-0. A palestra de motivação do nosso treinador Artur Jorge foi assim: "Meus senhores, levantem a cabeça e olhem para mim. Têm 45 minutos para entrar na história. Isto não é um sonho. Isto está a acontecer e é a realidade. Vocês são melhores do que eles", disse. Fez uma pausa e acrescentou: "Estão a 45 minutos de entrar na história. Por isso, vamos dar a volta a isto e vamos ganhar o jogo." E repetiu: "Olhem bem para mim." Todos olhámos e ele repetiu várias vezes em voz alta: "Têm quarenta e cinco minutos para entrar na história."

Faz hoje 31 anos que entrámos na história, mas também faz 31 anos que vivi o dia mais longo da minha vida.

CALDEIRADA DA SEMANA
Encapuzados russos

Esta semana li esta notícia: "Na noite de quinta-feira, um grupo de adeptos do Liverpool foi alvo de ataque por parte de adeptos radicais a menos de 48 horas da final da Liga dos Campeões entre a equipa inglesa e o Real Madrid, que se irá disputar em Kiev. Segundo o 'Daily Mirror', os adeptos dos reds encontravam-se num restaurante quando um grupo de 20 encapuzados, que segundo a polícia local seriam de nacionalidade russa, entrou no estabelecimento e lançou o caos, deixando várias pessoas ensanguentadas e com feridas na cabeça."
Fiquei preocupado. Só espero que a polícia russa tenha todos estes encapuzados controlados para que não haja nenhuma tragédia no Campeonato do Mundo que começa dentro de poucas semanas.

NÓS LÁ FORA
Alexandre Guedes

A final da Taça de Portugal joga-se em Lisboa, mas é seguida pelos olheiros da maioria dos clubes europeus. Todos os jogadores têm dois objetivos naquele grande momento: o primeiro é ganhar a Taça, e o segundo é ser o grande protagonista do jogo. Em 1993, com a camisola do Benfica e contra o Boavista, tocou-me a mim este privilégio. No domingo, entre Sporting e Aves, o herói da final foi Alexandre Guedes, o autor dos dois golos da sua modesta equipa e isto são palavras maiores. Parabéns, campeão!

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
O Ramadão de Madjer

Mohamed Salah está a cumprir o Ramadão desde o dia 16 deste mês, mas interrompeu o jejum durante três dias - quinta, sexta e, sábado -, de modo a estar na plenitude das suas capacidades na final da Liga dos Campeões que o Liverpool vai disputar em Kiev diante do Real Madrid. Recordei Madjer quando estava a cumprir o Ramadão na nossa etapa no FC Porto. Algumas vezes, quando o jogo era superimportante, médico, equipa técnica e plantel, todos tentávamos de tudo para ele interromper o jejum. Porque o Madjer, nas suas melhores condições, era mesmo um fora de série.

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