O Expresso da Meia-Noite

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O futebol, como o Mundo, mudou radicalmente nos últimos anos, mas na terça-feira, em Nápoles, aconteceram várias coisas como outrora. Uma delas foi o San Paolo abrir as bilheteiras seis horas antes do jogo entre os napolitanos e o Real Madrid, outra não tão agradável aconteceu naquela madrugada, quando uma centena de tifosis italianos rodearam o hotel onde estavam os madridistas e fizeram o máximo de ruído possível com buzinas, panelas, etc..., para que os futebolistas não dormissem e não descansassem como habitualmente. No momento em que via aquelas imagens recuei no tempo e recordei a aventura surreal que vivi também numa eliminatória europeia. Foi no Mar Negro, numa cidade turca que nunca tinha ouvido falar e tudo começou assim:

Naqueles tempos não havia internet nem tantos meios de comunicação, o futebol turco era muito inferior ao que é hoje e pouco sabíamos do seu campeonato. Antes de viajar para a Turquia, para o jogo da primeira mão contra o Trabzonsport, nos ‘oitavos’ da Taças das Taças – era a segunda competição mais importante da Europa – da época 1992/93, fui à conferência de imprensa no Vicente Calderón. Depois de responder o típico, que a eliminatória ia ser muito difícil, que para passar aos ‘quartos’ tínhamos de estar no nosso melhor nível... blá blá blá, um jornalista turco perguntou qual era a minha opinião sobre o seu país e os seus compatriotas. Não pensei nem um segundo e fui direto como sempre. Respondi-lhe que não tinha grande impressão da Turquia e dos turcos porque não ficavam muito bem no mítico filme (um dos meus preferidos) ‘O Expresso da Meia-Noite’. Pela expressão dos jornalistas turcos presentes, notei que não acharam graça à resposta e acho que me arrependi no mesmo instante por ter sido tão direto ao fazer aquela declaração ingénua e estúpida. Mas só tive consciência da magnitude da confusão na Turquia, quando aterrámos em Trabzon.

Não foi nada fácil abandonar o aeroporto, porque havia uma multidão que me queria crucificar. E assim que cheguei ao hotel, voltei a dar uma conferência de imprensa, desculpando-me com o povo turco. Mas já era tarde… A partir daquele momento, os guarda-costas do presidente Gil y Gil passaram a ser a minha segurança pessoal, nos dois dias em que lá estivemos. Na véspera do jogo, durante a madrugada, o ruído que os adeptos faziam fora do hotel era tão estrondoso que praticamente não consegui dormir e passei várias horas daquela madrugada longa e interminável a falar com os dois guarda-costas. O único momento em que eles não estariam comigo seria durante os 90 minutos. Estava tão assustado que comecei a pensar que algum desses fanáticos podia entrar no campo com uma pistola ou outro objeto para me fazer mal de verdade. Se pudesse não jogava e fugia dali naquele momento, mas não podia...

No dia seguinte, como normalmente, chegámos ao balneário duas horas antes do jogo e quando me preparava para ir ver o relvado e decidir se jogaria com pitões de borracha ou alumínio, o delegado do Atletico chamou-me à parte e disse que o estádio já estava lotado e que a polícia turca pedira para que eu evitasse ir ver a relva, porque eles podiam considerar uma provocação. ‘Maldita a hora que vi ‘O Expresso da Meia-Noite’, foi a frase que me saiu pela boca naquele momento. Quando os meus colegas voltaram de ver o relvado, sabiam o que me esperava e tentavam-me animar com frases como: "Português, a relva está seca, podes jogar com pitões de borracha e vais rebentar com tudo"ou "Português, não estamos no Bernabéu ou Nou Camp, mas vai ser um jogo de máxima pressão num ambiente infernal e tu adoras jogar assim, os turcos vão ter pesadelos contigo durante muito tempo".

Aquelas duas horas dentro do balneário foram terríveis e o relógio parou. Cada minuto que passava parecia uma hora. E mais do que assustado, sentia pânico, era a primeira vez que sentia algo assim. Mas, inacreditavelmente, no momento em que o árbitro apitou essa sensação desapareceu. Apesar da pressão, dos assobios que ouvia cada vez que tocava na bola e de algumas pedras lançadas das bancadas (uma atingiu-me as costa), não me intimidei e rebentei com tudo. Vencemos 2-0, marquei o primeiro golo ( espetacular) e assisti o Moyá no segundo. Grande vitória e demos um passo gigante para os ‘quartos’. Mas, só pude respirar quando o avião saiu de Trabzon.

Após 48 horas infernais, esta história só podia terminar como começou. No dia seguinte fui ao videoclube e aluguei um filme. Depois de jantar meti a cassete, sentei-me no sofá e dei ok no ‘play’. Tranquilamente desfrutei mais do que nunca do filme ‘O Expresso da Meia-Noite’...

CALDEIRADA DA SEMANA - Javier Mascherano único

Sem dúvida alguma, a grande caldeirada da semana foi a péssima arbitragem do jogo entre o Barcelona e Paris Saint-Germain. Mas, por outro lado, os árbitros são humanos e erros assim acontecem todas as semanas em todos os campeonatos, e são situações normais. O anormal e difícil de ver no mundo do futebol foi esta frase de Mascherano na zona mista do Nou Camp quando lhe perguntaram se tinha feito penálti sobre Di María no minuto 85: "Está claro que fiz falta sobre Di María", atirou.

Impressionante Mascherano!

NÓS LÁ FORA - O talismã André Gomes

Quarta-feira foi uma noite histórica para o Barcelona. Nunca uma equipa tinha conseguido dar a reviravolta a uma eliminatória da Champions League depois de perder o jogo da primeira mão por 4-0.Os culés ganharam 6-1 ao Paris Saint-Germain e conseguiram esta proeza.Aquele estádio mítico, como é o Nou Camp, viveu a noite mais gloriosa da sua história e um português fará parte eternamente dessa maravilhosa história. O André Gomes entrou aos 84 minutos quando o resultado estava 3-1 e foi o talismã para Messi,Neymar e campanhia

Parabéns André.

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES - Quem não falha,Cervi?

Depois do mau alívio do jogador do Borussia Dormund, Piszczek, e de ver que a bola tinha caído nos pés de Cervi na zona frontal com a baliza praticamente à mercê, naquela fração de segundo, disse: ‘Se o miúdo marca, o Benfica pode estar nos ‘quartos’ da Champions’. Era uma oportunidade de ouro. Quando o vi falhar, disse para mim: ‘como podes falhar este penálti com a bola em andamento e a baliza toda para ti?’. Mas vários segundos depois, recordei-me de que tinha sido profissional 18 anos e que tinha falhado golos feitos, muitos mais fáceis de marcar que aquele que falhou o argentino. De certeza que nestes últimos dias, o canhoto do Benfica leu e ouviu críticas duras, e eu digo: Quem não falha, Cervi?

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