Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

O gesto humilhante de Daniel Alves

A polémica que houve a semana passada no jogo entre o Paris SG e o Lyon no Parque dos Príncipes, entre o Neymar e Cavani, não deixou indiferente nenhum adepto e amante do futebol.
Durante a minha carreira profissional tive vários treinadores que nas palestras diziam: "Se houver um penálti marca o Manuel ou António, mas decidem os dois no momento e bate aquele que estiver com mais confiança." Como estavam quase sempre todos com confiança, mais que uma vez assisti dentro de campo a conflitos entre companheiros para marcar um penálti, como se passou em Paris entre o brasileiro e o uruguaio, mas o que nunca tinha visto foi o que aconteceu minutos antes deste penálti.

Durante estes dias ouvi comentários e críticas para todos gostos, sendo que um dos alvos era o técnico do PSG, Unai Emery. Alguns dos seus inimigos aproveitaram o momento para atacá-lo com frases como estas: "Um treinador está no banco para algo. Qualquer um que esteja no PSG, para dizer ao Thiago Silva que recue, a Motta que não deixe espaço na suas costas e a Mbappé que invente, basta com duas palavras. O realmente complexo num técnico de equipa grande é gerir os egos, distribuir os minutos, fazer-se respeitar dentro do balneário, saber comunicar e o Unai Emery tem demonstrado que ainda não está preparado para desafios desta dimensão."
Outros que conhecem bem o técnico basco diziam: "Surpreende-me que isto tenha acontecido com Emery, que vive e dorme pensando em futebol. Ele é um técnico meticuloso que estuda a estratégia ofensiva e defensiva ao mínimo detalhe. Que tenha confiado em duas superestrelas e deixado que o penálti fosse marcado pelo que sentisse mais confiança no momento foi um erro fatal do Unai."

Uns estavam a favor do Neymar, como por exemplo Balotelli que meteu esta frase no Instagram: "Não devias sequer pedir para os marcar..." E outros a favor do Cavani, como o antigo internacional francês Christophe Dugarry, que disse isto na Radio Montecarlo. "O que aconteceu foi escandaloso. Neymar parece que já é o chefe do PSG, que já ganhou a Liga, a Champions e tudo o resto. Unai Emery deveria intervir, se não, brevemente, ele vai fazer os treinos e o onze titular da equipa... aonde vamos? Cavani leva quatro anos no PSG e os mais veteranos merecem todo o respeito."

Mas de todas as críticas e comentários sobre a polémica acho que o uruguaio Forlán acertou em cheio e estou completamente de acordo com ele, mas não com esta frase. "A Messi , Neymar não teria feito isto. Fez uma birrinha de criança e não deixou que o Cavani estivesse tranquilo e se concentrasse para bater o penálti."
Mas, não podia concordar mais com esta: "É um problema entre Neymar e Cavani, essas coisas acontecem em todas as equipas. O que não faz sentido é o que Dani Alves fez, não dando a bola a Cavani para a entregar a Neymar, como se fosse seu empregado."
Sem dúvida Forlán: também fiquei estupefacto com o gesto.

Um pouco antes do penálti, Neymar sofreu uma falta à entrada da área e o árbitro marcou livre direto. Naquele momento passou-se algo que nunca tinha visto nos meus 18 anos como profissional, como adepto ou treinador de bancada. Quando aparece a imagem, o Dani Alves tem a bola na mão e vê-se o Cavani a pedir e a tentar tirar-lhe o esférico para marcar a falta, enquanto o Dani dizia-lhe com a cabeça que não. Até que aparece o Neymar e o compatriota dá-lhe a bola, provocando um olhar de indignação a Cavani. Foi algo surreal, completamente anormal entre profissionais da mesma equipa.

Não me admira nada que depois do jogo tenha havido agressões dentro do balneário, como escreveram vários jornais. Durante estes dias tentaram acalmar a situação, seguiram o guião perfeitamente. Foi um mal-entendido, tudo está esquecido e o mais importante é a equipa, bla bla bla. A rivalidade histórica entre os jogadores brasileiros e de outros países sul-americanos é tremenda e no atual balneário do PSG estão seis brasileiros: Thiago Silva, Neymar, Dani Alves, Lucas Moura, Motta e Marquinhos. Do outro lado estão três argentinos (Giovani lo Celso, Pastore e Di María) e um uruguaio (Cavani). Por esta razão, o gesto humilhante de Dani Alves a um consagrado como Cavani pode ficar de lado durante algum tempo – enquanto ganham – mas não se esquece. É uma bomba-relógio que no momento que o PSG tenha um ciclo de resultados negativos rebentará de novo. Mais que terminar, esta novela acaba de começar...

CALDEIRADA DA SEMANA - O passado não existe
O sábio do Luís Aragonés dizia frequentemente, dentro do balneário e também em algumas conferências de imprensa, esta frase mítica: "No futebol não existe passado nem futuro, só existe o presente e o presente é ‘ganhar, ganhar, ganhar e voltar a ganhar, ganhar e ganhar’." O Real Madrid ganhou há poucos meses a Champions, há poucas semanas a Supertaça da Europa e a de Espanha e pelas críticas ferozes e contestação que receberam os jogadores merengues nos últimos dias – depois de perderem com o Betis em casa – muito possivelmente algum terá dito: "O sábio tinha razão, no futebol o passado não existe mesmo."

NÓS LÁ FORA - Não te conheciam Nélson...
Depois dos 30 milhões de euros que o Barcelona pagou por ele (valor exagerado para alguns espanhóis); depois do problema que teve com Neymar num dos primeiros treinos (o brasileiro tentou agredi-lo sem razão alguma, apesar de certa imprensa catalã ter criticado o português) e depois de várias opiniões negativas nos primeiros jogos, Nélson Semedo tinha rapidamente que fazer um grande jogo e calar as bocas aos críticos. E esse dia chegou. Contra o Eibar sofreu um penálti e fez o seu primeiro ‘jogão’ na liga espanhola. "Quando põe o turbo, não há quem o pare", escreveram.

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES - Tragédia no México
A página mas negra da história do futebol português – por todos os motivos – foi no Mundial de 1986, no México. Eu estava lá e apesar daquela competição ter-me marcado negativamente para sempre, também houve coisas positivas e uma delas foi ter conhecido um país enorme e maravilhoso como é o México. Esta semana, um terremoto provocou mais de 200 mortos e uma destruição brutal no país. Desde estas linhas, muita força para o povo mexicano.

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