Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

O grande discurso do eterno capitão

O Footkart vai realizar em Almeirim entre 28 de abril e 1 de maio, a 11.ª edição do Torneio Internacional Prof. José Peseiro. Sem dúvida alguma que com 48 equipas, 576 jogadores, 96 técnicos e 48 delegados de jogo, este é um dos torneios com mais prestígio em Portugal. A organização todos os anos homenageia alguém. O ano passado foi a lenda Aurélio Pereira, entre outros, e nesta edição os homenageados são: Manuel Fernandes, Fernando Mendes, António Simões, o ex-árbitro Jorge Maia e quem escreve estas linhas, que desde já aproveita este espaço para agradecer à Footkart esta homenagem e também a maneira espetacular e carinhosa como nos receberam na segunda-feira.

Quando começaram os discursos na Câmara de Almeirim, ao meu lado estava o meu professor catedrático e pensava naquelas viagens diárias de ida e volta de Sarilhos a Lisboa, que ambos fazíamos para ir treinar ao mítico Estádio José Alvalade. Tinha 17 anos e os seus conselhos foram a minha universidade, para que mais tarde conseguisse atingir todos os meus objetivos, metas e sonhos. Também pensava na minha primeira assistência no Sporting como profissional, quando vi o meu querido professor e grande capitão Manuel Fernandes a cabecear o meu passe para o fundo das redes, senti a máxima felicidade dentro de mim. Dei muitos golos a marcar em toda a minha carreira, mas aquele foi o mais especial.

Cada vez que o grande capitão falava no balneário do Sporting, o respeito era tanto que nem uma mosca se ouvia. E na segunda-feira, quando terminei de falar e lhe passei o microfone, a minha mente recuou 34 anos e fiquei paralisado como outrora.

Ele começa o discurso dirigindo-se às crianças, miúdos e graúdos que estavam presentes com esta frase: "No futebol, nem sempre os conselhos dos pais são os melhores", e continuou. "Vou-lhes contar uma história que tive com o meu filho: ele, na época, era profissional de futebol, estava com 27 ou 28 anos, e eu era treinador do União de Leiria. Um dia antes de começar a pré-época, ele diz-me que só eu é que não o ajudava e não lhe dava uma oportunidade." Nesse momento, o Manuel fez uma pausa de vários segundos, pela emoção que começou a sentir pelo que ia dizer. Nas seguintes palavras a voz estava embargada e teve de fazer uma nova pausa. Estava ao lado dele e quando vi as lágrimas nos seus olhos, eu e todos os presentes estávamos estupefactos e curiosos para escutar a história incrível que íamos ouvir. Naquele momento, o auditório parecia o balneário do Sporting, nem uma mosca ou mosquito se ouvia, o silêncio era total, todos esperávamos atentamente e emocionados o que sairia da boca do grande capitão, e foi isto: "Como também estava pressionado por outros familiares, disse ao meu filho Tiago que viesse fazer a pré-temporada comigo. No final do estágio, quando ele me perguntou como tinha corrido, perguntei-lhe se ele queria a minha opinião como pai ou como treinador, e quando ele disse como treinador, respondi-lhe que nunca iria jogar na minha equipa." Quando disse a última frase do discurso, "o mais importante é divertirem-se, respeitarem os adversários, os colegas e os árbitros", ele sentou-se e todos os presentes na sala se levantaram a aplaudir durante vários minutos.

Depois dali fomos jantar e tinha de lhe fazer esta pergunta: "E se o Tiago te diz para responderes primeiro como pai?", questionei. "Essa resposta dei-lhe a seguir: ‘deixa a bola e começa a tirar o curso de treinador. Quando estiveres convencido, vais fazer um estágio com o José Mourinho e outros treinadores, porque vais ser muito melhor treinador do que foste jogador, não tenho dúvidas, filho", disse.

O Tiago fez caso ao mestre, tirou o primeiro nível e no ano seguinte começou a trabalhar como adjunto do pai no V. Setúbal. E começou logo da melhor maneira quando disse: "Pai, há um jogador no Casa Pia que joga a titular aqui, vai buscá-lo." O Manuel nunca o tinha visto, mas confiou cegamente no olho clínico do Tiago e contratou-o. Esse jogador era o Zeca, que depois do Vitória fez carreira na Grécia e agora é internacional grego. Hoje, o Tiago tem 35 anos, esta há 6 na formação do Sporting, e pelas qualidades que tem demonstrado tudo indica que mais tarde ou mais cedo começará a liderar um balneário profissional. Esta última frase fica muito melhor em idioma futebolístico, ‘começará a liderar um balneário de cobras’. Por último, que saudades tinha dos discursos do meu querido professor catedrático e grande capitão Manuel Fernandes.

CALDEIRADA DA SEMANA - Atentado em Dortmund
Infelizmente, o que aconteceu em Dortmund na terça-feira, antes do Borussia-Monaco, de caldeirada não tem nada; o título de hoje nesta caixa deveria ser: "O terror da semana"ou "O pânico da semana". Quando estes assassinos conseguem fazer um atentado na Alemanha, onde existe uma das melhores polícias antiterrorismo do Mundo, contra o autocarro de uma grande equipa alemã como é o B. Dortmund, antes de uns ‘quartos’ da Champions, onde as medidas de segurança se triplicam, é porque este planeta está mesmo louco e nenhum ser humano está seguro. A única boa notícia daquela terça-feira negra para o futebol é que ninguém faleceu. Um dos atingidos pelos explosivos, que foi operado ao rádio do antebraço direito, foi o central Marc Bartra, e desde estas linhas desejo-lhe as melhoras e muita força.

NÓS LÁ FORA - Sem palavras, Cristiano
É uma honra muito grande fazer 100 golos na Europa", disse o Cristiano Ronaldo, na quinta-feira, depois dos dois golos que tinha feito na véspera ao Bayern Munique. Como português é um orgulho enorme que o primeiro jogador em toda a história das competições europeias de futebol a marcar 100 golos seja um extraterrestre português. Uma vez mais…As palavras: impressionante, brutal, espetacular, maravilhoso, gigantesco, incrível, excelente e único, todas elas juntas já ficam curtas para elogiar o ‘bicho’.

Sem palavras, Cristiano!

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES - Cuidado com este Monaco
Durante a minha carreira, joguei mais de uma vez contra o Monaco e quando estava no Marselha os clássicos com os monegascos eram superintensos e muito especiais para os adeptos de ambas equipas. Historicamente, quando o Monaco está no ciclo positivo é um rival muito difícil de ganhar, mas nem quando eles foram à final da ‘Champions’ com o FC. Porto, em 2004, depois de eliminarem o Real Madrid nos ‘quartos’ e o Chelsea nas ‘meias’, vi um Monaco tão forte como o atual. Esta equipa liderada por Leonardo Jardim está a praticar um futebol de grande nível, está com pé e meio na meia-final da Champions, e aqueles meninos sem pressão podem eliminar qualquer equipa e meter-se na final. Cuidado com este Monaco.

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