O inferno do 'traidor' Courtois
Se para os adeptos colchoneros já era duro ver Courtois assinar pelo Real Madrid, quando o viram beijar o escudo no seu primeiro dia como madridista foi como um insulto. Até para aqueles colchoneros mais moderados que entendiam que o mundo do futebol mudou, porque o último grande craque que jogou durante toda a carreira no mesmo clube e jogava por amor há camisola do AC Roma foi o génio Francesco Totti. Com a sua retirada, há dois anos, esta virtude de ser fiel durante toda a carreira ao mesmo clube começou a fazer parte do passado.
Atualmente, um profissional de futebol está hoje aqui e amanhã pode estar na equipa rival. Não tenho dúvidas de que estes adeptos respeitavam a sua decisão por ter assinado pelo eterno inimigo desportivo e estavam agradecidos ao belga pelas três épocas espetaculares que fez no Atlético Madrid, mas aquele gesto do Thibaut a beijar o escudo, mais do que uma falta de respeito, foi um insulto e será odiado eternamente por todo ‘mundo colchonero’ como aconteceu com o mexicano Hugo Sánchez.
O novo Estádio Wanda Metropolitano tem o ‘Passeio das Lendas’ e todos os jogadores rojiblancos que jogaram 100 jogos com a camisola colchonera têm uma placa com o seu nome. E Courtois é um deles... No jogo da apresentação aos sócios na semana passada contra o Inter Milão, os adeptos mais radicais fizeram e escreveram de tudo na placa do belga. O insulto mais suave que vi escrito era ‘rata’. E quando começaram a tentar arrancar a placa do chão, o clube teve de meter vários membros da segurança a proteger a placa do Thibaut.
Na final da Supertaça Europeia entre o Atlético e o Real, na capital da Estónia, Courtois não estava inscrito, mas viajou com a sua equipa e quando apareceu no relvado do Estádio A. Le Coq Arena de Tallinn para aquecer surgiu a tensão. A ‘aficcion’ do Atlético não parou de insultar o belga, mas felizmente não houve nenhum acidente nem lançamentos de objetos para dentro do campo. Courtois passou de amado a odiado por todos os colchoneros.
Desde 1993, contei várias vezes esta história, a última em abril no programa desportivo de maior audiência em Espanha, ‘El chiringuito de los jugones’.
Sou o único jogador do Mundo que disse "não" ao Real Madrid. Aconteceu na minha casa, em Marselha, depois de vários dias de negociações. Contrato pronto para assinar. Mas, no momento de pôr o preto no branco, fui à casa de banho e os meus dois filhos, que na época tinham 3 e 4 anos, vieram atrás de mim. Foi a primeira vez em todo o processo que deixei o meu ego para trás e pensei na família...
Já era um símbolo colchonero nessa altura. Se tivesse assinado pelo Real, só podia viver em Madrid com 20 seguranças para mim e para toda a família. A rivalidade entre os dois clubes é intensa. E os ‘traidores’ (aqueles que mudam de um clube para o maior rival) nunca são perdoados. Especialmente os jogadores mais marcantes e que foram capitães de uma importante parte da vida do clube, como foi o meu caso. Não era para brincadeiras.
Hoje, a esta distância, prefiro ser lembrado como um dos melhores jogadores da história do Atlético Madrid do que como mais um que passou pelos dois clubes e um traidor. Até porque naquele momento de 1993 já era... E assim continuo a ser o único jogador do clube que conquistou uma Bola de Prata (1987). Nunca me arrependi da decisão que tomei!
Recordo esta história, porque esta será a vida difícil de Courtois dentro das quatro linhas, cada vez que jogar contra o Atlético, e também fora delas, na capital de Espanha. Acho – ou melhor, tenho a certeza – que a minha vida seria dez vezes pior em comparação com o que vai viver o belga em Madrid nos próximos anos.
Caldeirada da semana: Protagonista sem jogar
O Real Madrid, depois de ganhar cinco finais europeias, três Champions seguidas e duas Supertaças Europeias, perdeu a sexta final, em Tallin, contra o Atlético Madrid, por 4-2 no prolongamento, num jogo espetacular. Os três grandes protagonistas depois da partida foram os jogadores do Atlético, o seu técnico Cholo Simeone e, como não podia ser, Cristiano Ronaldo. Com ele em campo, os merengues ganharam as cinco finais, e a única vez que não jogou... perderam! Acho que Florentino Pérez já deve estar mais do que arrependido por ter vendido o melhor jogador do Mundo, e um craque que já era património do Real.
Nós lá fora: A aventura continua
çUm treinador nunca pode desfazer as malas. Por muitas cláusulas que existam nos contratos assinados. A verdade é que ao fim de duas derrotas seguidas, um treinador já corre o risco de ser despedido. O Paulo Bento, depois de seis meses de aventura chinesa, no comando do Chongqing Lifan, foi demitido. Ou demitiu-se. Mas a sua aventura na Ásia vai continuar, desta vez como selecionador da Coreia do Sul. É uma seleção credenciada, com presença habitual nas fases finais dos Campeonatos do Mundo e com a ambição de voltar a dominar na Ásia . Muita força, Paulinho, para este novo desafio.
Álbum de recordações: Como uma Champions
No dia 24 de maio de 2014, na final da Champions disputada em Lisboa, o futebol foi muito cruel com o Atlético Madrid. Já passaram vários anos, mas aquele maldito minuto 92 que paralisou e congelou durante vários segundos os corações dos adeptos colchoneros, continua muito presente. No ano seguinte, em Milão, a final da Champions foi também entre o Atlético e o Real, e a sorte, uma vez mais, esteve com os merengues (ganharam nos penáltis). Em Tallinn, ambos os clubes se cruzaram em mais uma final. Desta vez, o Atlético ganhou. A alegria que senti naquela noite maravilhosa foi como se tivesse ganho a Champions!
