O motor perfeito de Portugal

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Em primeiro lugar, quero dar os parabéns ao selecionador Fernando Santos e aos craques da Seleção pelo apuramento para o Mundial da Rússia. Na terça-feira, quando acabou o jogo no Estádio da Luz, recordei uma história e as palavras sábias do grande e único Luís Aragonés.

O dia em quem o Atlético Madrid desceu à 2.ª Divisão, na época 1999/2000, foi o mais horrível da história do clube. À parte o desgosto, tristeza e impotência, os adeptos colchoneros sentiam-se humilhados. E a dor aumentou no ano seguinte, já que o clube não conseguiu regressar ao escalão principal.

A situação do Atlético Madrid era mais do que caótica. Na altura, devido a irregularidades financeiras e dívidas ao Estado espanhol, o clube teve intervenção judicial e precisava do respetivo aval para comprar ou vender jogadores. Havia, de qualquer forma, dois responsáveis que iam liderar um projeto para que o clube subisse de divisão e pudesse sair da crise. Se falhassem, tinham de abandonar Espanha!

Um deles era eu, como diretor desportivo, e o outro o treinador, o génio Luís Aragonés. Éramos amados pelos adeptos, mas, se falhássemos naquela terrível missão, seria uma tragédia. Não teríamos perdão. Na nossa primeira reunião, concluímos que teriam de sair 14 jogadores, o que era uma loucura, havia que contratar outros tantos. Ainda pior era a péssima notícia que tinha de dar ao míster...

Antes dessa reunião, encontrara-me com os quatro funcionários do governo espanhol, que tinham o seu próprio escritório dentro do Estádio Vicente Calderón. " As ordens que temos são estas: o orçamento a nível de salários será o mesmo e, quanto às contratações, podes comprar todos os jogadores que queiras, mas, como não há dinheiro, antes de comprares tens de vender!", disseram-me.

Aquela era a prova que o governo queria acabar com o clube. Os jogadores tinham feito uma péssima época na 2.ª Divisão e o valor de muitos deles no mercado era zero... Para convencer um jogador da 1.ª Divisão a assinar connosco seria, por outro lado, complicadíssimo.

Neste cenário, muito pouco agradável, acabei por ganhar coragem na parte final da reunião com Aragonés. Contei-lhe a conversa com os funcionários do governo e acrescentei: "Se o míster se demitir, eu saio consigo". Aragonés, o sábio de Hortaleza, disparou então: "Português, uma equipa de futebol que quer terminar a liga em primeiro é igual a um carro de Fórmula 1. Por muito bom que seja o piloto, nunca será campeão do Mundo se não tiver um motor perfeito. No futebol podes ter o melhor guarda-redes, os melhores laterais, centrais, extremos e pontas-de-lança, mas dificilmente ganharás algo se o motor, ‘os homens do meio-campo’, não estiver em perfeitas condições. Dos 14 jogadores que queremos, seis jogam no meio-campo. E serão estes os primeiros que compraremos com as vendas que vais fazer. Estamos a 2 junho. Se, em finais de julho, tivermos o meio-campo completo, ficaremos por aqui e subiremos de divisão.".

Recordava as palavras daquele génio porque, durante vários anos, João Moutinho, Raul Meireles e Miguel Veloso foram o motor da Seleção e deram-nos muitas alegrias. Mas no Mundial do Brasil estiveram irreconhecíveis. Rúben Amorim era um bom suplente e o jovem William Carvalho, que tinha feito uma época espetacular, estava ainda um pouco verde para assumir a titularidade da equipa das quinas. O motor da Seleção naquele Mundial podia gripar. E gripou mesmo.

Mas, dois anos depois, no Europeu de França, o motor já era de alta cilindrada e tinha mil soluções, como Moutinho, Adrien, João Mário, André Gomes, Danilo, William e Renato Sanches. Portugal foi campeão da Europa. Se o sábio de Hortaleza estivesse hoje entre nós, de certeza que me dizia isto: "Português, sabes por que Portugal pode ganhar o Mundial da Rússia? Porque tem um motor perfeito."

CALDEIRADA DA SEMANA - Chile

Depois da derrota do Chile, por 3-0, no Brasil, que ditou a respetiva eliminação do Mundial da Rússia, os bicampeões da Copa América receberam críticas muito cruéis. A que mais lhes doeu, não tenho dúvidas, foi a de Carla Pardo, mulher de Claudio Bravo, guarda-redes e capitão daquela seleção. "Quando se veste a camisola tem de ser com profissionalismo. Sei que a maioria lutou com tudo, enquanto outros iam a festas e não conseguiam treinar-se por causa da bebedeira que tinham", escreveu na sua conta no Instagram. Uff!!!

NÓS LÁ FORA - Luís Figo

Quando o Luís Figo apresentou a sua candidatura à presidência da FIFA, senti um grande orgulho como português e como amigo dele. Sabia que nem ele nem ninguém podia vencer aquele sistema de Blatter, viciado e corrupto. Com o passar do tempo e depois de tantos escândalos, pensei que o Luís e os outros candidatos iam unir-se. Fariam uma única lista e derrotariam Blatter. Fiz essa sugestão a Figo e ele respondeu-me que não era o momento certo. Agora, estou feliz com a notícia. Figo é o novo conselheiro técnico de Aleksander Ceferin, presidente da UEFA. Parabéns, grande campeão.

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES - Aniversário horrível

Ontem, o Atlético Madrid recebeu o Barcelona no primeiro clássico no Estádio Wanda Metropolitano. Se há encontros especiais que nunca desaparecem da memória de um jogador colchonero, este é um deles, até porque dentro de 20 anos todos se recordarão do resultado do primeiro At. Madrid-Barcelona no novo estádio. Ontem, enquanto via o jogo, recordei o meu primeiro clássico com o Barcelona no mítico Vicente Calderón, na época 1987/88. Foi horrível. Perdemos, por 2-0, e era 27 de fevereiro. O jogo terminou às 23 horas e, uma hora depois, estava em casa a apagar as velas do meu 22.º aniversário com uma azia descomunal.

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