O mundo hipócrita dos guarda-redes

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Os guarda-redes vivem num mundo à parte dentro de um balneário profissional. Só pode jogar um, o que gera concorrência e rivalidade. Representei nove clubes de seis países e assisti a muitos cortes de relações por parte de quem ocupa este posto específico.

Depois de ver a entrevista de Moyà, guarda-redes do Atlético Madrid, escrevi sobre o assunto no meu espaço ‘Los toques de Futre’, no jornal ‘Marca’. E vou partilhar convosco algumas ideias do texto que escrevi.

Há pouco tempo, elogiei o Moyà, porque substituir os dois melhores guarda-redes do Mundo do momento, como Courtois, em agosto de 2014, e Oblak, em dezembro de 2016, e estar ao mesmo nível destes dois autênticos fenómenos, era algo ao alcance de muito poucos. Moyà passou com a nota máxima em ambos os exames. Mas, na passada terça-feira, voltou a surpreender-me. Desta vez fora das quatro linhas, por ocasião da entrevista que concedeu ao ‘Futebol Emotion’.

Quando me pedem para contar uma história sobre guarda-redes, lembro-me sempre desta: nos meus primeiros anos de profissional, um guarda-redes veterano, com quem eu tinha uma grande amizade, disse-me: "Sabes qual é o momento de maior hipocrisia dentro de um balneário?" Não, respondi. "É quando falta um minuto para a equipa sair para o campo e o guarda-redes suplente, por respeito, por ser bom colega ou por cumprir as regras, deseja boa sorte ao titular. Ambos sabem que, na realidade, ele deseja que o outro faça um jogo horrível."

Percebi, naquele momento, que os guarda-redes vivem num mundo à parte. O que não joga dificilmente vê o seu contrato melhorado. Para que o guardião suplente tenha uma oportunidade, as coisas têm de correr horrivelmente ao habitual titular. Exibições desastrosas, vários ‘frangos’ pelo meio ou alguma lesão... Só assim os guardiões que não são habitualmente escolhidos podem ter uma oportunidade de jogar e, consequentemente, de melhorar contrato.

Excetuando alguns casos, o momento em que se deseja boa sorte antes de a equipa sair do balneário, é desagradável para os guarda-redes suplentes. Tirando as concentrações das seleções nacionais, nunca vi, em toda a minha carreira como profissional, os dois guarda-redes irem jantar ou beber um copo juntos. E muito menos ficarem no mesmo quarto do hotel de estágio...

Em alguns casos, o guarda-redes recém-chegado até tinha pertencido à formação do clube ou às seleções inferiores, tal como o companheiro que era titular naquele momento. Tinham mesmo uma grande amizade... Mas, no mundo profissional dos guarda-redes, esta relação está condenada ao fracasso. Pela rivalidade diária, pela concorrência feroz, é praticamente impossível que os dois consigam manter essa amizade. Neste tipo de relação um dos últimos exemplos é o de Iker Casillas e Diego López no Real Madrid..

Se lermos as entrevistas dos guarda-redes suplentes, quer de outrora quer dos atuais, o discurso continua a ser igual. Têm de ser politicamente corretos, e normalmente não fogem de frases deste tipo :"Estou a trabalhar forte e preparado para quando a minha oportunidade chegar", ou "o titular está bem e tenho de esperar pela minha oportunidade", ou ainda "estou bem, mas quem decide quem joga é o treinador".

Por tudo isto, fiquei feliz quando vi a entrevista de Moyà , abordando a relação com o seu grande rival e companheiro de equipa Jan Oblak. "A nossa relação é muito boa. Se virem os treinos e a maneira como treinamos juntos, bastarão cinco minutos para confirmarem o que digo. Ambos gostamos de treinar forte e aprendemos um com o outro. Desejo-lhe que tudo lhe corra muito bem e que continue com a progressão que tem tido, porque é um dos melhores guarda-redes do Mundo."

Fiquei sem palavras pela forma sincera como se expressou. Grande Moyà. Dentro e fora do campo!

CALDEIRADA DA SEMANA -- A crise do Real Madrid

Quando o Real Madrid foi eliminado pelo Celta, nos quartos-de-final da Taça do Rei, era líder do campeonato e recebeu muito poucas críticas. À 20ª jornada, Barcelona e Sevilha estavam a 4 pontos, o Real tinha um jogo a menos e, apesar de faltar muito para jogar, tudo indicava que dificilmente os merengues deixariam fugir esta liga. Cinco jornadas depois, tudo mudou. O Real empatou agora com o Las Palmas, perdeu a liderança e ‘rebentou a caldeirada’ em Espanha. Vários meios de comunicação promoveram sondagens com uma pergunta para crucificar Ronaldo. "Quem é o culpado da crise do Real?" Inacreditavelmente, as respostas deram Zidane, Ramos, Benzema, Navas ou outros. Cristiano nem no pódio ficou!

NÓS LÁ FORA -- Craque dos craques

Pensava que o evento ‘Strike Night’ seria uma brincadeira aborrecida. Quem marcasse mais golos de penálti receberia o cinto ‘The Fighter’ e... apenas isso. Quando percebi que, para eliminar o rival, tinham de controlar a bola e executar um remate de elevado grau de dificuldade, o evento despertou-me interesse. Para Aubameyang (B. Dortmund), Icardi (Inter), Oxlade-Chamberlain (Arsenal), Iwobi (Arsenal), Benteke (Crystal Palace) e Rashford (Man. United) ganharem o cinto, tinham de mostrar todo o seu potencial. O menino André Silva não está nas grandes ligas, podia assustar-se com aqueles nomes e também com o guarda-redes que tinha pela frente, o Courtois, mas não. Limpou-os a todos e foi o craque de todos os craques. Parabéns, menino!

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES -- Que susto, Niño!

Em 2001, era diretor desportivo do Atlético Madrid e, desde o primeiro treino que o Fernando Torres fez com a primeira equipa, em abril daquele ano, que passei a seguir atentamente toda a sua carreira. Fiquei sempre muito feliz por todos os seus êxitos individuais e coletivos. Tenho um carinho muito especial por ele. Quando o ‘Niño’ Torres, na quinta-feira, na Corunha, embateu brutalmente com o pescoço no relvado, fiquei paralisado durante vários minutos. E só me tranquilizei quando vi a sua mensagem no Twitter. "Muito obrigado a todos por se preocuparem comigo e pelas vossas mensagens de ânimo. Foi só um susto. Espero voltar muito em breve!"

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