O Sábio de Ribeira de Frades
O Sérgio Conceição, depois de ser treinador do Olhanense e da Académica, viveu no Sp. Braga a sua terceira aventura como técnico foi. A análise que fiz dos primeiros cinco meses da época 2014/15, e que escrevi nesta mesma página, foi esta: "Começo pela Taça de Portugal, já que a equipa do meu amigo Sérgio Conceição está em grande. Depois de vencer na eliminatória anterior o V. Guimarães no sempre difícil Estádio D. Afonso Henriques, agora voltou a vencer novamente fora de casa e desta vez no mais do que difícil Estádio da Luz. É a segunda vitória do Sp. Braga frente ao Benfica esta época. Um mérito incrível, já que nos dois jogos perdiam por 1-0 e conseguiram dar a volta ao marcador. Só uma equipa psicologicamente muito forte consegue esta proeza. O Braga está nos quartos-de-final da Taça e, antes de começar esta jornada, está em quarto lugar do campeonato. Este Braga a cada dia que passa mais se parece ao caráter e espírito ganhador e lutador do grande Sérgio."
Naquele momento já não tinha nenhuma dúvida de que o Sérgio seria brevemente o treinador de um grande clube. No final da época passada escrevi isto: "Pela excelente carreira que fez o Sérgio Conceição como futebolista, onde conseguiu triunfar em todos os países onde jogou, e como jogador carismático que foi para todos os adeptos do FC Porto, tudo apontava que quando começou a sua carreira como treinador principal no Olhanense, em 2012/13, onde fez um trabalho espetacular, que o Sérgio, com o seu caráter de autêntico guerreiro, ganhador, direto e sem medo de ninguém, que mais tarde ou mais cedo concretizaria o seu grande sonho, em ser o míster do FC Porto. E esse dia chegou… Serginho, muitos parabéns e muita força para este grande desafio que tens pela frente. Por último, chegares em dezembro a um país onde nunca tinhas jogado nem treinado, como França, para uma equipa que ocupava o 18.º lugar [zona de descida] e acabar em 7.º lugar, é um trabalho de nota 10. Só para os autênticos campeões como é o teu caso, amigo!"
Praticamente um ano depois destas palavras o Sérgio Conceição consegue uma proeza incrível. Graças ao empate no dérbi de ontem, o FC Porto tornou-se campeão da Liga portuguesa depois de uma temporada que começou sem poder contratar jogadores no mercado de verão devido ao fair play financeiro. Os jogadores que estavam emprestados - Marega, Aboubakar, Sérgio Oliveira e Ricardo Pereira - foram as contratações-estrela e superimportantes para o título sonhado por todos os adeptos portistas - e isto é dizer pouco. Só um treinador genial pode conseguir um êxito assim...
O Luis Aragonés, juntamente com o Artur Jorge, foi o melhor treinador que tive na minha minha carreira. A alcunha do Luis era 'O Sábio de Hortaleza', por muitas virtudes geniais que tinha. Uma delas era dar sempre a cara pelos jogadores nas conferências de imprensa quando a equipa perdia. Ele dizia sempre que "o culpado da derrota sou eu", mas dentro do balneário a história era outra e as suas broncas, fossem para todo o grupo ou a nível individual, eram assustadoras. Todo o plantel entendia estas críticas duríssimas que ele nos fazia dentro do templo que é o balneário e estávamos unidos até à morte com ele. E o Sérgio tem esta mesma virtude do Sábio de Hortaleza.
O Serginho, depois da primeira derrota do seu FC Porto no primeiro jogo da fase de grupos da Champions no Estádio do Dragão, contra o Besiktas, por 2-1, disse isto: "Os jogadores não têm culpa. Se há alguém culpado para esta derrota, sou eu, e assumo isso mesmo porque a abordagem tática não foi a melhor." Meses depois, na goleada duríssima por 5-0 também no Estádio do Dragão frente ao Liverpool, na primeira mão dos oitavos-de-final da Champions, o Sérgio disse: " Eu sou o culpado e vamos dar uma resposta positiva contra o Rio Ave", referindo-se ao jogo seguinte, do campeonato. Depois da derrota contra o Belenenses, há poucas semanas, quando o FC Porto perdeu a liderança para o Benfica, com vários erros coletivos e individuais dos jogadores, Sérgio disse na conferência de imprensa: "Erros todos cometem, a começar por mim. E eu sou o primeiro a assumir e sou o culpado desta derrota. Não estamos aqui para culpabilizar este ou aquele jogador, não gosto disso. Eu sou o líder. A equipa perdeu e eu sou o responsável máximo."
Hortaleza é um bairro de Madrid e foi ali que se criou o Luis Aragonés, ‘O Sábio de Hortaleza’. O Sérgio nasceu em Coimbra e foi criado na aldeia de Ribeira de Frades. A partir de hoje vou começar a chamar-lhe ‘O Sábio de Ribeira de Frades’. Parabéns, amigo! E parabéns, presidente Pinto da Costa! E parabéns, FC Porto!
CALDEIRADA DA SEMANA
Sven Ulreich
Acho que todos os que assistiram ao jogo na terça-feira disseram: "Como é possível que um guarda-redes de uma das melhores equipas do Mundo, como o Bayern, tenha tido esta surreal falha de concentração num jogo da 2.ª mão das meias-finais da Champions no Estádio Santiago Bernabéu contra o Real Madrid?" Só na sexta-feira Sven Ulreich revelou ao 'Sport Bild' o que lhe passou pela cabeça. "Passaram a bola para trás e assim que vi o Benzema tentei posicionar-me. Mas houve um instante que pensei: 'M..., não posso agarrar com a mão.' Então tentei despachá-la com o pé, mas já não consegui…" São os chamados erros eternos. Quando o Ulreich tiver 80 anos, serão os seus bisnetos a perguntar o que lhe passou pela cabeça...
NÓS LÁ FORA
O genial Presidente
Este espaço é sobre os portugueses que estão no estrangeiro, mas hoje tenho de falar de um português que nem treina, nem joga, nem vive lá fora. Conheci pessoalmente Marcelo Rebelo de Sousa há cinco ou seis anos, numa conferência em Braga. Bastaram poucos minutos para ver o grande ser humano que era. Impactou-me de tal maneira a sua simpatia, humildade e também a forma cordial e carinhosa como me tratou, que fiquei fã. Na quinta-feira fui ao Estoril Open e, a determinado momento, ouvi: "O Presidente apareceu agora sem avisar e... a comprar dois bilhetes!" Fiquei sem palavras. Quando joguei no estrangeiro, sempre mostrei o enorme orgulho que tenho no meu país. Com este detalhe único e histórico do nosso genial Presidente da República, muito mais orgulho tenho.
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
At. Madrid-Marselha
Na semana passada, nesta mesma caixa, escrevi: "O sorteio nas meias-finais da Liga Europa meteu o meu Atlético Madrid no caminho do Arsenal e o Marselha, uma equipa pela qual também tenho muito carinho, já que joguei lá, no caminho dos austríacos do Salzburgo. E depois dos jogos de quinta-feira da 1.ª mão (empate 1-1 dos espanhóis em Londres e vitória por 2-0 no mítico Estádio Vélodrome dos franceses), tudo aponta que a finalíssima desta edição de 2017/18 da Liga Europa poderá ser entre duas das nove equipas onde joguei durante a minha carreira profissional. Oxalá seja assim!"
E assim foi: o Atlético ganhou 1-0 e o Marselha perdeu 2-1, mas bastou. E a finalíssima da Liga Europa será mesmo entre duas das nove equipas onde joguei.
