O técnico de elite
çTerminei a carreira aos 32 anos e nunca pensei ser treinador. Vou explicar porquê, recordando alguns casos que presenciei.
No meu primeiro ano como diretor-desportivo do Atlético de Madrid, em 2000/01, tive de demitir o treinador. Aconteceu depois de duas derrotas consecutivas, a última delas em casa, contra o Múrcia, por 3-0. Foi o dia mais triste que passei no mítico Estádio Vicente Calderón.
Como jogador colchonero fui assobiado fortemente pelos 50 mil adeptos em duas ocasiões. A primeira, por dizer que a minha cabeça já estava no Paris Saint-Germain e a segunda depois de uma guerra com o presidente Gil y Gil. Quando jogava fora de casa, de 15 em 15 dias, era insultado e assobiado. Adorava, porque era sinal que tinham respeito e medo de mim. Em casa era diferente. A sensação de seres vaiado cruelmente pelos os teus adeptos, aquele som horrível vindo das bancadas do Calderón era um inferno! De tal maneira que as minhas pernas tremiam e só pensava em fugir... O único membro do meu corpo que não sentia pânico era o meu pé esquerdo. Só ele podia salvar-me... e assim foi.
Nessas duas ocasiões acabei por ‘abrir o livro’ e saí de lá com todo o estádio a gritar. "Fica!, fica".
O problema é que, na qualidade de diretor-desportivo, já não tinha o pé esquerdo para me desenrascar... Quando o Múrcia fez o 3-0, os adeptos sacaram os lenços brancos e começaram assobiar o presidente e, apesar de não ter montado aquela equipa, porque entrei em novembro, a contestação também me incluia.
Faltavam 7 jornadas para acabar a época e estávamos em 5.º, a 7 pontos do 3.º. Para 99,9 por cento dos espanhóis, o Atlético nem com um milagre subiria de divisão. E tinham razão.Mas eu não me podia render. Decidi arriscar tudo com o treinador da equipa B. Contei a minha ideia ao presidente e foi um erro. Nas três horas seguintes tentou convencer-me a assumir o cargo de treinador, mesmo sem licença.
Não aceitei e fui em frente com o meu plano. Dos sete jogos, ganhámos seis e empatámos um. Ficámos em 4.º com os mesmos pontos do 3.º, mas não subimos de divisão, devido à diferença de golos. Durante aquelas sete semanas, estive em todos os treinos, estágios e assistia a todos as palestras. Eu próprio dei mais do que uma palestra de motivação aos jogadores antes de cada jogo e, ao intervalo, animáva-os à minha maneira.Fiz praticamente, na sombra, o papel do treinador. Só não operei as substituições...
No Europeu sub-16, em 2001, a seleção espanhola tinha vários elementos do Atlético. Um deles foi o melhor jogador e marcador do torneio. Apesar de ter 17 anos, para mim já estava preparado para a guerra.Disse-o ao míster Cantarero que não concordou.
Trocámos argumentos e eu recordei-lhe que chegara a internacional A aos 17 anos e que o miúdo em causa seria titular rapidamente. Finalmente, aceitou a minha proposta. O menino era o Fernando Torres, que se estreou a 27 de maio de 2001 contra o Leganés. Na partida seguinte, ganhámos, por 1-0, em Albacete com golo dele e aí começou a lenda do ‘Niño Torres’.
Estava eu a preparar os plantéis (A e B) da época seguinte, depois da tal deceção por não termos subido, quando no meio de uma reunião me dizem. "Português, tens de tirar a licença de treinador!" E outro veio em socorro do primeiro. "Português, és um motivador nato". "Podes ser um treinador de elite", disse outro ainda.
Tudo tinha sido combinado entre eles, estava claro. Agradeci os elogios e fui à casa de banho. Tinha o cabelo com gel e meti a cabeça debaixo da torneira. Sequei-a com uma toalha e voltei à reunião. "Estão a ver estes cabelos grisalhos aqui no lado direito e também no esquerdo? Há sete semanas, não tinha nada disto. Se tiro a licença de treinador, as possibildades de o meu coração deixar de funcionar serão enormes. Quero ver os meus filhos e netos crescer!"
Recordo-me desta história por que vi uma reportagem sobre o desgaste dos treinadores de elite e deram os exemplos de Pep Guardiola e Luis Enrique. Passaram imagens da primeira conferência de imprensa que os dois deram como treinadores do Barcelona. Tinham poucas rugas e todo o cabelo. Logo a seguir, fizeram a comparação com imagens tiradas dois anos mais tarde. Assustador! Ambos envelheceram dez anos em 24 meses...
Caldeirada da semana -- Simeone
O argentino chegou ao Atlético de Madrid há mais de cinco anos. Em todo este tempo tempo nunca deu especial relevo aos erros de arbitragem. Mas, na quarta-feira, em Barcelona, depois do golo mal anulado a Griezmann, explodiu como nunca. Queixou-se e foi notícia de primeira página, dizendo elegantemente esta frase após o jogo: "Não tenho dúvidas que na Champions temos mais opções do que na Liga ou na Taça". Estou totalmente de acordo. Para disputar as duas finais da Champions League, o Atlético teve de eliminar o Barcelona. Só que os árbitros eram estrangeiros. Se fossem espanhóis dificilmente se qualificaria...
Nós lá fora -- João Cancelo e Nélson Semedo
Os jornais espanhóis não pararam, na última semana, de falar do interesse que os principais clubes europeus demonstram por João Cancelo e Nélson Semedo. Chelsea, Barcelona, Manchester United e Bayern Munique, pelos mais diversos motivos e pela óbvia qualidade dos atletas em causa, estão de olhos postos nos dois laterais-direitos portugueses. Se não houver qualquer lesão , vamos ter, na próxima época, estes dois grandes jogadores de Valencia e Benfica nos melhores clubes da Europa.
Álbum de recordações -- Tragédia em Angola
A primeira e única vez que estive em Angola foi ao serviço do FC Porto, para disputar o Torneio de Luanda. Era final de época e passei uma semana espetacular fora e dentro das quatro linhas. A prova contava com outras grandes equipas, como Benfica, Vasco da Gama e Petro de Luanda, que acabou por ganhar merecidamente a competição, para loucura dos adeptos angolanos. Recordei-me daquele torneio por causa desta catástrofe. A tragédia voltou a entrar no mundo do futebol e desta vez em Angola. Quero, através destas linhas, apresentar os meus pêsames aos familiares das vítimas de Uíge.
