Normalmente faço a crónica para o Record à sexta-feira. Desta vez, uma hora depois de ter recebido a pior notícia da minha vida, liguei para o Sérgio Krithinas, diretor adjunto, que já sabia do falecimento do meu pai. Nem foi preciso dizer que não tinha condições para escrever esta semana. Durante a madrugada, repassei várias vezes a minha vida ao seu lado. Como era impossível dormir, às quatro da manhã abri o computador e comecei a teclar estas linhas.
Penso, por exemplo, nas decisões importantes que o meu pai tomou durante a minha vida. Muitas vezes, ao longo dos anos, perguntei-lhe os motivos e ele nunca me disse a verdade. Por exemplo, quando tinha 10 anos, o Sporting organizou um torneio que se chamava ‘Onda Verde’ para captar jovens talentos e eu fiz jogos incríveis. Nos dias seguintes, o génio Aurélio Pereira foi várias vezes ao Montijo reunir-se com o meu pai e não o convencia de maneira nenhuma. Ele dizia que eu era uma criança para ir sozinho para Lisboa. Um ano depois, o Aurélio voltou à carga. Dessa vez cedeu. Eu perguntei-lhe muitas vezes: "Pai, se não me deixaste ir para o Sporting com 10 anos porque eu era uma criança, por que me deixaste ir aos 11, quando continuava a ser uma criança?" A sua resposta sempre foi: "Porque o Aurélio Pereira convenceu-me."
Na decisão mais difícil, quando saí do Sporting para o FC Porto, sabíamos que iria ser uma bomba mediática em Portugal, que a minha vida iria mudar radicalmente, que iria ser odiado por todos os sportinguistas, que iria ter uma responsabilidade e uma pressão enorme. Tinha 18 anos e era muito mais fácil fracassar do que triunfar. Anos depois, perguntei-lhe: "Pai, sabendo de tudo o que iríamos passar, porque é que estavas tão seguro de que a melhor decisão era ir para o FCPorto?" E ele respondia: "Pelo dinheiro que ias ganhar". "Isso é mentira, porque podias estar a viver num castelo, tu e a mãe, e preferem continuar a viver na vossa casinha, porque o dinheiro para ti sempre foi secundário", dizia eu.
Ele conhecia-me tão bem fora como dentro do campo. Desde os meus três anos todos dias jogava com ele no pequeno quintal da nossa casa. E, durante toda a minha carreira, podia ter feito o jogo perfeito que ele ia sempre buscar algum defeito. O planeta ficou maravilhado com a grande jogada da final da Taça dos Campeões Europeus contra o Bayern Munique – foi tão bonita porque fintei quatro ou cinco alemães, que nem os meus companheiros repararam que a definição tinha sido um desastre. Naquela noite histórica, quando vi o meu pai no aeroporto foi uma loucura e ele estava superfeliz e orgulhoso. Mas 15 minutos depois levou-me para o lado e disse-me uma frase que eu repeti em 2011 "Paulo Jorge, fizeste uma jogada de génio, mas a definição foi de jogador da distrital. Já te disse várias vezes que tens que treinar mais a definição." Tinha sido campeão da Europa duas horas antes, tinha 21 anos e o planeta estava a falar de mim, havia jornalistas no ainda estádio a dizer que depois deste jogo eu podia ganhar a Bola de Ouro e ser o melhor do Mundo, e chego ao aeroporto e dizem-me que sou um jogador da distrital. O meu querido pai não facilitava e mantinha-me sempre com os dois pés bem assentes no chão. Mas há apenas três anos, ele já não estava bem, estávamos a ver um jogo futebol na televisão e disse esta frase: "Se o meu filho jogasse hoje nestas equipas estes jogadores tinham que lhe engraxar as botas todos os dias."
Olhei de lado e vi que ele continuava a olhar para televisão e no mundo dele, mas com aquela frase respondeu a todas as minhas perguntas. Para ele, fui sempre o melhor, mas nunca mo disse – e fez bem. O dia 30 de agosto de 1987 foi muito especial para a minha família porque foi a minha estreia oficial no Atlético Madrid – era o único português a jogar no estrangeiro e os adeptos colchoneros não pararam de gritar pelo nosso apelido. Foi das vezes que vi o meu pai mais feliz e orgulhoso. E este grande campeão, marido, pai, avô e amigo despediu se deste mundo a 30 de agosto de 2019, 32 anos depois daquele momento histórico para minha família. Como nunca gostou das câmaras nem de dar entrevistas, deve estar dizer esta frase esteja onde estiver: "Paulo Jorge, estás a escrever isto porquê?" Porque se não fosses tu, pai, não teria sido embaixador da UEFA na final da Champions de 2019; porque se não fosses tu, pai, nunca teria sido Bola de Prata em 1987; porque se não fosses tu, pai, nunca teria jogado nos três grandes do meu pais; porque se não fosses tu, pai, hoje não seria uma lenda para os adeptos do Atlético; ; porque se não fosses tu, pai, não teria ganho o prémio de melhor estrangeiro da liga espanhola; porque se não fosses tu, pai, não teria sido internacional A com 17 anos; porque se não fosses tu, pai, não teria ganho taças do rei e o Scudetto em Itália; porque se não fosses tu, pai, não teria sido duas vezes o melhor jogador da liga portuguesa; porque se não fosses tu, pai, não teria sido campeão europeu pelo FC Porto; porque se não fosses tu, pai, não estaria entre os melhores jogadores da história do futebol português. Muitas foram as coisas que conquistei porque causa de ti. Este texto vai ser lido pelos teus netos, bisnetos. As seguintes gerações de Futres vão saber que se não fosses tu, nunca teria conseguido chegar onde cheguei. Se não estivesses estado aí, pai, podia ter talento mas isto não chegava e talvez nem tivesse passado da distrital, como tu me disseste no aeroporto de Viena.
Muito obrigado, pai. Descansa em paz.
