Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

Os mestres da motivação e da tática

A geração que nasceu em meados dos anos 60 e que gostava de futebol, como era o meu caso, começou a ver o programa ‘Domingo Desportivo’ com 7/8 anos. Para mim, aquele era o momento mais especial da semana. Depois de ver os resumos dos jogos do campeonato português – as jogadas dos meus ídolos – e alguns do futebol internacional, adormecia feliz e acordava com os melhores momentos da jornada na cabeça, tentando fazer o mesmo golo ou jogada no primeiro recreio da escola. Com o passar do tempo comecei a estar mais atento aos comentários dos técnicos e a memorizar os seus nomes. Mas pelas entrevistas que davam, e por frequentemente falarem deles em cada programa, dois dos primeiros nomes que gravei na minha mente infantil foram os de Joaquim Meirim e Manuel Oliveira. Por esta razão, quando comecei a ler os jornais desportivos, aos 12 anos, e via que ambos davam mais entrevistas – e eram mais falados em muitas ocasiões durante a época que os treinadores dos três grandes – pensava que era algo normal.

Acho que a primeira vez que fiz esta pergunta a mim mesmo – ‘Porque é que estes dois homens, que nunca treinaram o FC Porto, Sporting e Benfica, conseguiram ter todo este protagonismo em todos estes anos?’ – devia ter 15 anos. A resposta surgiu 4 anos depois, quando era jogador do FC Porto, por dois companheiros guarda-redes e experientes.

O Jorge Amaral tinha sido jogador do Manuel Oliveira no Marítimo, e para ele taticamente era um génio que sempre esteve muito à frente do tempo em que vivemos; os presidentes e diretores dos grandes clubes ainda não estavam preparados para arriscarem num treinador com ideias inovadoras e totalmente diferente de todos os outros, como era o caso do Manuel Oliveira.

E o Matos tinha sido jogador do Meirim no Boavista. Se mudarmos as questões táticas para a motivação, a sua opinião era muito parecida com a do Amaral. Para ele, o Meirim era um génio da motivação.

Quando me retirei do futebol, 14 anos depois daquela conversa, tinha trabalhado com muitos técnicos e vivido experiências incríveis de motivação, especialmente com Artur Jorge e Luis Aragonés, que eram excelentes motivadores, não só nas palestras coletivas e individuais, mas também nas jogadas psicológicas e nas histórias que inventavam para motivar qualquer jogador em qualquer situação. Para os jogadores mais rebeldes, como era o meu caso, mais que uma história, eram novelas de psicologia que duravam toda a época. Eram autênticos génios da motivação. E o Fabio Capello também está neste grupo. Nunca fui o protagonista das suas histórias, porque no ano em que estive no AC Milan encontrava-me lesionado, mas vi o genial motivador que era o italiano.

Naqueles 14 anos, sempre estive atento a Joaquim Meirim e ouvi mil histórias suas e algumas delas brilhantes , como por exemplo a que sempre utilizou com os guarda-redes no seu primeiro ano nas equipas por que passou: no Boavista, assim que começou a Liga, o Matos era titular e o Madureira suplente. E em cada treino dizia frases como "grande defesa Madureira, és mesmo o melhor guarda-redes da Europa", ou "que mão espetacular Mudureira, só o melhor guarda-redes da Europa, como é o teu caso, pode defender esta bola" e quando o Matos fazia algum brilharete, só dizia: "Boa defesa." Conclusão: o Matos pensava que ao mínimo erro que cometesse ia para o banco, porque o outro para o treinador era o melhor da Europa, e sabia que não podia relaxar nem um segundo; e o Madureira treinava como um leão, sempre com moral altíssimo e em todos os jogos pensava que finalmente o Meirim ia meter o melhor guarda-redes da Europa a titular, mas tal nunca aconteceu. Já perto do final do campeonato, o Madureira vai ao balneário do Meirim e diz: "Míster, se sou o melhor guarda-redes da Europa porque nunca fui titular?" E ele respondeu: "Porque o Matos é o melhor guarda-redes do Mundo." Depois de me rir com este final maravilhoso, pensei na excelente jogada psicológica do Meirim. Ele conseguiu que os dois tivessem em alta tensão e supermotivados durante toda a época.

Esta história genial de psicologia e motivação está ao nível das histórias que vivi com o Artur Jorge, Aragonés e Capello. O Matos tinha razão e recordei as palavras do Amaral quando o Jorge Jesus disse isto em 2009: "Manuel Oliveira, quando foi meu treinador, já era um criador da tática e foi dos primeiros treinadores do Mundo a implementar o sistema 3-4-3, ensinou-me muito e algum do conhecimento que tenho hoje devo-o a ele."

Recordo-me destes dois homens carismáticos porque Meirim, ‘o génio da motivação’, deixou-nos em 2001, e na terça-feira foi a vez de o ‘mestre da tática’ nos deixar.
Desde estas linhas as minhas mais sentidas condolências à família do Míster Manuel Oliveira.

CALDEIRADA DA SEMANA - "Este gajo não é humano"

Depois do comunicado do Ministério Público espanhol, acusando Cristiano Ronaldo de ter, de forma "consciente", criado uma sociedade para defraudar o fisco; depois de todas as barbaridades que disseram em todo o planeta sobre o CR7 nas duas últimas semana; e de alguns fenómenos espanhóis dizerem que o Cristiano vai ser condenado a vários anos de cadeia, depois de tudo isto e muitas maldades mais, todos os seus inimigos pensavam que nenhum ser humano, numa situação destas, tinha cabeça para jogar um jogo de futebol. Mas o ‘Bicho’ é um extraterrestre dentro do campo. Acho que a frase que mais disseram os seus inimigos, quando marcou à Rússia, foi: "Este gajo não é humano."

NÓS LÁ FORA - Sem palavras, mago

A final da liga espanhola de futsal foi completamente louca, pelo o equilíbrio que existe entre o Movistar e o Barcelona. No primeiro jogo os culés ganharam, em Madrid, 5-3 nos penáltis, e tudo indicava que os próximos jogos também iam ser disputados até ao último segundo, mas inexplicavelmente os três seguintes terminaram em 6-1, e nem pareciam jogos da finalíssima da melhor liga do Mundo. Mas o quinto e definitivo jogo valeu por todos os outros, especialmente quando a 3 minutos do fim (com 1-1) o melhor jogador mundial faz uma ‘cueca’ genial – marca da casa – e define a jogada com uma biqueirada espetacular e faz o golo da vitória e do título. Sem palavras, mago! Muitos parabéns, Ricardinho.

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES - Pavilhão João Rocha

Quando cheguei ao Sporting ,com 11 anos, um dia fui ao pavilhão ver um treino da equipa de andebol, onde estava o mítico guarda-redes Carlos Silva. Gostei tanto da experiência que, durante anos, assim que podia, estava no pavilhão a ver os treinos, não só de andebol mas também de basquetebol e hóquei em patins. E normalmente não falhava um jogo das modalidades naquele pavilhão. Recordo-me daqueles velhos tempos porque o Sporting inaugurou, na quarta-feira, o Pavilhão João Rocha. Foi um dia muito especial para todos os sportinguistas.
Quero dar os parabéns ao presidente Bruno de Carvalho por esta obra de arte.

Deixe o seu comentário

Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade
apenas 1€ por mês
experimente sem compromisso e garanta o seu lugar na bancada da melhor informação deportiva.
  • conteudo record em qualquer sítio e a toda a hora
  • acesso no pc, tablet e smartphone
  • versão e-paper do jornal no dia anterior
  • conteudos exclusivos para assinantes
  • suplementos especiais