Os rins de Chiellini
Quando tinha os meus 9 anos, a diferença futebolística que havia entre o meu talento e o dos meus amigos de infância era gigantesca. Por isso, a única maneira de o jogo ser equilibrado, quando jogávamos sem guarda-redes e com as balizas pequenas, era eu jogar sozinho contra todos. Mas, mesmo assim, só conseguiam dar luta e ganhar algum jogo quando eram oito ou mais. Muitos destes jogos eram realizados depois de jantar na Praça da República, no Montijo, onde havia vários cafés e passavam muitas pessoas, pelo que tínhamos sempre alguma assistência. Numa daquelas noites, depois de fintar todos os meus amigos e fazer golo, ouvi estas palavras de um espectador para outro: "O miúdo joga bem, mas os outros não jogam nada. Gostava de o ver a fazer isto num jogo de futebol de 11."
Esta frase perseguiu-me até aos 21 anos. Quando tinha 11, na minha estreia pelo Sporting no torneio de Alverca, fiz sete golos e voltei a ouvir uma frase parecida. "Gostava de o ver fazer isto com o Benfica", disseram. Quando era iniciado e continuava a fazer a diferença, ouvia "Gostava de o ver a fazer isto no escalão superior". O escalão superior era o de juvenis e acabei por fazer muito poucos jogos nesta categoria, porque aos 15 anos já era titular dos juniores do Sporting e da Seleção Nacional. Mas, nessa altura, a frase passou a ser "Gostava de o ver a fazer isto nos seniores"...
Dois anos depois, com 17, fiz a minha estreia na primeira equipa do Sporting. Contra o Boavista, entrei na segunda parte e foram 45 minutos de sonho, a rebentar tudo. Recebi críticas maravilhosas, mas outros questionavam: "Quantos jovens das camadas jovens do Sporting jogaram pelo seniores? Muitos. E quantos se afirmaram? Muito poucos. O difícil não é chegar, é manter-se. Gostava de ver se ele vai conseguir passar todos os obstáculos difíceis que tem pela frente."
Quatro anos depois, já tinha sido duas vezes campeão nacional com o FC Porto. Nas duas temporadas, fui considerado o melhor jogador do campeonato português. Antes da final da Taça dos Campeões Europeus de 1987, em Viena, frente ao Bayern Munique, a frase voltou: "Agora é o momento da verdade, vamos lá ver se ele vai conseguir fazer aos defesas alemães o que faz em Portugal."
Acabei por fazer um grande jogo, fui campeão e pensava que nunca mais ouviria aquela frase. Estava enganado. Na época seguinte, já como jogador do Atlético de Madrid, fomos a Barcelona na sexta jornada e a imprensa catalã voltou à carga: "Gostava de ver o português fazer o mesmo que faz que ao Bayern, mas em Camp Nou, com 120 mil espectadores, com toda a pressão do Mundo nas suas costas." Sofri um penálti, ganhámos 2-1 e abri o livro de tal maneira que dois meses depois tinha uma proposta do Barcelona em cima da mesa.
Semanas depois, à 10.ª jornada, foi o dérbi Real-Atlético. Desta vez foram os jornalistas merengues. "O Real não é o Bayern nem o Barcelona, nem o Estádio Santiago Bernabéu é o Camp Nou. Os colchoneros gostavam de o ver fazer o mesmo no templo madridista, mas isso nunca vai acontecer", disseram. Aquele não foi apenas mais um jogo. Ganhámos 4-0 e fizemos história. Pessoalmente, com duas assistências e um golo, comecei a ser o inimigo público número um para os adeptos do Real Madrid. Tinham passado 12 anos desde a primeira vez que ouvi "Gostava de o ver fazer isto num jogo de futebol de 11". Antes daquele jogo com os merengues, tinha eu 21, foi a última vez o ouvi.
Recordo-me desta história porque joguei várias vezes contra a seleção italiana e nunca consegui driblar dois jogadores na mesma jogada ou sequer dar um nó cego ou uma ‘cueca’ a um defesa. Os defesas italianos, pela sua cultura e filosofia, eram mesmos os melhores do Mundo. Quando cheguei ao AC Milan reencontrei aquela defesa mítica da seleção italiana – Tassotti, Costacurta, Baresi e Maldini – e desafiava-os depois dos treinos para duelos de um contra um, nas alas e sem guarda-redes. Fazíamos 10 jogadas e, se eu conseguisse cruzar em seis, ganhava o duelo. Isso aconteceu algumas vezes, mas nunca consegui vingar-me e dar-lhes um nó cego ou uma ‘cueca’, porque eram mesmo geniais.
Antes do início do jogo de terça-feira entre Sporting e Juventus, disse para mim "Gostava de ver se o Gelson consegue dar uma ‘cueca’ ou um nó cego ao Chiellini, como faz aos defesas na liga portuguesa". O central da seleção italiana é um dos melhores do Mundo e dificilmente se esquecerá do jogo de Alvalade. Quando deixar de jogar, se lhe perguntarem pelos melhores dribles que sofreu ao longo da sua carreira, o do Gelson estará nesse pódio.
Quando eu jogava, depois de um companheiro levar um nó cego como o que o Chiellini levou do Gelson, dizia-lhe a brincar no dia seguinte: "Fizeste gelo? Estás melhor da rotura dos rins ou ainda sentes que o cabide está dentro? Se sentes a mesma dor, tens que voltar a fazer gelo nos rins esta noite, o miúdo rompeu-te mesmo todo!". Tenho a certeza que Chiellini ouviu algo parecido no avião de regresso a Turim.
Que maravilha de drible, Gelson. Parabéns, campeão!
CALDEIRADA DA SEMANA -- Patrice Evra
Um profissional de futebol de grandes equipas sabe que quando joga fora de casa vai ser sempre insultado. Por muitos nomes feios que te chamem e assobiadelas que leves nos estádios rivais, entram por um ouvido e saem pelo outro, porque estás vacinado para este tipo de situações. Outra coisa é o insulto dos próprios adeptos. Esses doem de verdade, tens de baixar a cabeça e trabalhar para dar a volta à situação. És um ser humano, até podes perder a paciência e responder à letra. Mas resolver o assunto ao pontapé, como fez o Evra em Guimarães, já é ultrapassar todos os limites da caldeirada. Eu joguei no Marselha e conheço muito bem os adeptos radicais do clube.
NÓS LÁ FORA -- Manuel Fernandes
O Lokomotiv, de Éder e Manuel Fernandes, é líder da liga russa, depois de ganhar no domingo ao Zenit, por 3-0. Os dois portugueses estão a fazer uma grande época e, cinco anos depois da sua última internacionalização, o patrão do meio-campo dos moscovitas foi convocado por Fernando Santos para os dois jogos particulares frente a Arábia Saudita e Estados Unidos. Um prémio mais do que merecido para Manuel Fernandes. Parabéns, Manuel!
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES -- Diogo Gonçalves
Na época 1991/92, pelo Atlético Madrid, calhou-nos o Manchester United nos oitavos-de-final da Taça das Taças. A primeira mão foi em Madrid, ganhámos, por 3-0, e eu fiz dois golos e um dos melhores jogos com a camisola colchonera. Na segunda mão foi a primeira vez que joguei no Teatro dos Sonhos. Era capitão de equipa e, em idioma futebolístico, já era ‘cobra’: nada me podia assustar. Mas nunca esquecerei aqueles primeiros 20 minutos em Old Trafford: o massacre que levámos dentro do campo, juntamente com o som e a pressão que vinham das bancadas, até me causou dificuldades em respirar. Acho que nos primeiros 45 minutos perdi todas bolas que toquei. Na segunda parte, tudo foi diferente e empatámos 1-1. Recordo-me desta história porque, na terça-feira, um menino de 20 anos jogou pela primeira em Old Trafford e não se assustou, fazendo duas jogadas espetaculares que só não deram golo porque o guarda-redes era o De Gea. Temos craque, disse eu no momento. Parabéns, Diogo Gonçalves!
