Os três milagres

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Recordo-me que era uma quinta-feira, por volta das 18 horas, quando atendi a chamada de Jesus Gil y Gil (presidente do Atlético Madrid durante 17 anos e considerado o presidente mais polémico da história do futebol) e foi direto como sempre: "Paulo, quero que venhas salvar o clube e que assumas a direção desportiva. Vais ter todo o poder do futebol." Fiquei sem palavras e marcámos reunião para o dia seguinte, 5 minutos depois toda a imprensa espanhola começou a ligar-me: "Paulo, é verdade que és o novo diretor desportivo do Atlético?"Sem comentários era a minha resposta.

Os meus amigos espanhóis, assim que ouviram estes rumores, ligaram-me preocupados comigo, pedindo que não aceitasse. "O clube é um manicómio" ou "o clube é um inferno" , diziam-me. Horas depois o rumor chegou a Portugal e também a preocupação aos meus amigos e à minha família. "Não sejas maluco, isto não é uma aventura, isto é uma loucura", dizia-me o meu pai. E tinha razão.

Depois de 10 jornadas na época 2000/01, o Atlético estava nos últimos lugares da segunda divisão e vivia o pior momento da sua história. A situação era caótica em todos os sentidos e nos jogos em casa, os sócios gritavam "Gil, cabrón, fuera del Calderón". Para a grande maioria era o culpado da descida. Os jogadores também eram assobiados e, pelo ambiente terrível, não podiam sair à rua. Nestes 10 jogos Gil já tinha despedido o treinador que começou o ano e o diretor desportivo. E havia rumores que o novo técnico ia seguir o mesmo caminho... quatro jogos após ter chegado.

Cinco dias antes daquela chamada, o Atlético tinha perdido fora com a Universidad Las Palmas. Após o jogo, Gil disse: "Não há aviões, nem barcos. A equipa tem de vir a nado das Canárias."

Como se não bastasse, era a intervenção judicial que controlava o clube (devido a irregularidades financeiras e dívidas ao Estado). Este era o lindo panorama do Atlético na altura...

A reunião era às 10 horas no Estádio e desliguei o telefone às 23. A minha cabeça era um poema. Estavam em jogo os sentimentos dos adeptos do Atlético e eu era o maior ídolo deles. Se não aceitasse o cargo, passava de ídolo para cobarde, se aceitasse e falhasse, o amor transformar-se-ia em ódio e teria de sair de Espanha para nunca mais voltar. Tinha 11 horas para decidir. Ao princípio via tudo negro e procurava a melhor desculpa para fugir, mas de madrugada o chip mudou. O plantel estava em pânico e para voltar a ganhar precisava de tranquilidade. Só que para isso necessitava de três milagres. Foi a primeira vez que pensei em arriscar, mas só se conseguisse esta missão quase impossível.

O primeiro milagre – e o mais difícil – era proibir Gil de entrar no balneário e de fazer declarações até ao final da época. Se tivesse êxito com o presidente tinha duas semanas até ao próximo jogo em casa para preparar a estratégia do segundo milagre, que era conseguir que os adeptos trocassem os assobios por palmas. Para isto tinha de dar duas conferências de imprensa, a primeira com esta mensagem: "Nenhum colchonero de verdade pode, neste momento, assobiar os jogadores e o presidente, os que assobiarem são anti-atleti. Se esta contestação continuar contra o Eibar, demito-me porque não há solução e será a própria ‘afición’ a atirar o clube para a 2B", e a outra seria na véspera do jogo: "Amanhã, o Mundo voltará a ver a melhor ‘afición’ do planeta a apoiar a sua equipa como sempre o fez." O terceiro milagre era parar as ameaças aos jogadores. E tinha de começar a ter reuniões, de imediato, com a Frente Atlético (claque radical). Para o presidente e os outros 14 líderes de milhares de jovens fanáticos , eu era mais do que um ídolo, quando se referiam a mim era ‘Paolo es Dios’.

A reunião com Gil durou horas, mas finalmente aceitou a minhas regras e assinei contrato. Aos 34 anos, tinha pela frente um dos maiores desafios da vida. A Frente Atlético não me falhou e acabou com as ameaças e no jogo contra o Eibar os adeptos voltaram a apoiar a equipa e foi incrível, mas o resultado foi horrível (1-1). Na 34.ª jornada, estávamos em quarto lugar a dois pontos da subida de divisão e jogávamos em Eibar, incrivelmente perdemos 2-1....

Enquanto via o jogo na quarta-feira pensava nesta grande aventura e no Eibar,porque 16 anos depois continuo a ter pesadelos com os 5 pontos que perdemos com o Eibar e com o inferno da segunda liga espanhola.

Caldeirada da semana - Balotelli

"É normal que os adeptos do Bastia façam barulhos de macaco, com ‘uh uh’, durante todo o jogo e ninguém da comissão disciplinar diga nada? O racismo é legal em França? Ou apenas em Bastia?"Foi isto que Balotelli colocou no Instagram.

As imagens transmitidas pela televisão, BeIN Sports, confirmam que os adeptos do Bastia proferiram insultos racistas a Mario Balotelli. Um deles foi já identificado e o Bastia retirou-lhe o cartão de sócio e está proibido de entrar no estádio Armand Cesari.

Grande exemplo do Bastia ao Mundo do futebol!

Nós lá fora - Gonçalo Guedes

Quando o árbitro apitou no final da primeira parte no jogo do Estádio da Luz, na época passada, entre o Benfica e Moreirense, os jogadores benfiquistas levaram grande assobiadela dos seus adeptos. Quando a Luz assobia é complicado para qualquer craque e aquele jogo era para jogadores de caráter e não para meninos. O Gonçalo Guedes entrou no início da segunda parte e nunca se escondeu, levou a equipa para a frente e o Benfica ganhou aquele jogo.

Fiquei de boca aberta com a sua exibição e disse "um menino mas com caráter de ferro, temos craque".

Muita força e muitos êxitos em Paris, Gonçalo!

Álbum de recordações - Aurélio Pereira

A câmara de Lisboa entregou ontem a Medalha Municipal de Mérito Desportivo a Aurélio Pereira. Se fui Bola de Prata em 1987 foi graças ao homem que me descobriu e fico sempre muito feliz quando o meu pai desportivo é reconhecido. Não tenho dúvidas de que outros filhos desportivos dele, como os Bola de Ouro Cristiano e Figo também estão felizes.

No Europeu de França, estava o CR7 e mais nove filhos desportivos do Sr. Aurélio Pereira: Nani Quaresma, William, Adrien, João Mário, Rui Patrício, Cédric, João Moutinho e José Fonte, que também estão felizes por ele.

Estes são alguns das dezenas de jogadores que ele descobriu e foram internacionais. Pergunto: o que é que o melhor descobridor de extremos (e não só) do Mundo tem de fazer mais para que o Governo o homenageie com uma estátua?

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