Presidente, tem de me contar esta
"Quantas horas dormes por noite? A que horas almoças e jantas todos os dias? Como é o teu pequeno-almoço antes dos treinos? Tens namorada? Quantas vezes vais à tua terra [Montijo] por mês? Os teus pais vêm ao Porto muitas vezes? Depois de quanto tempo começas a ter saudades da tua família e dos teus amigos? Fumas? Bebes álcool? Depois de uma derrota, vais a discotecas com os teus amigos ou ficas em casa? Se saíres de Portugal, vais viver sozinho ou pensas levar alguém? E quem levas?"
Estas foram algumas perguntas que me fizeram os dirigentes de Real Madrid, Barcelona, Juventus, AC Milan e Inter Milão nos dias antes e depois da conquista da Taça dos Campeões Europeus pelo FC Porto em 1987. Acho que só faltou perguntarem-me quando vezes lavava os dentes por dia. Tinha 21 anos e nas primeiras reuniões pensava que eram questões normais, já que na altura não havia a Lei Bosman, só podiam jogar dois estrangeiros por equipa nas grandes ligas e tinham de ser rigorosos. Na segunda reunião com os culés pensava que vinham com uma proposta, mas a história seguia igual e disse-lhes: "Vocês fazem sempre estes testes psicológicos a todos os jogadores estrangeiros?" E a resposta foi: "Não, no nosso caso é a primeira vez, porque és português e os portugueses têm fama de terem mentalidade frágil e que não aguentam estar muito tempo fora da vossa terra. Portugal teve grandes jogadores, mas nenhum conseguiu triunfar no estrangeiro. A saudade é o vosso pior inimigo, por esta razão queremos saber tudo sobre ti." Daqueles clubes só o Inter Milão fez uma proposta a mim e ao FC Porto. Ambos aceitámos, mas dias antes da assinatura do contrato apareceu o Atlético Madrid e o resto já faz parte da história. Já passaram 31 anos e sempre pensei que nunca tinha recebido qualquer proposta naquele momento dos outros clubes por ser português.
Até esta semana, quando li isto no site do jornal Record: "Uma das histórias mais incríveis do futebol é a contratação de Lionel Messi pelo Barcelona, assinada por Carlos Rexach e o pai do craque argentino num guardanapo de papel. Mas a verdade é que, antes do atual número 10 do Barça houve um português que chegou a ser negociado desta forma: Paulo Futre. A história é contada esta quinta-feira no jornal catalão ‘Sport’. Aconteceu em 1987, em Viena, após a final da Taça dos Campeões Europeus entre FC Porto e Bayern, ganha pelos dragões. A assistir ao jogo estava Josep Lluís Núñez, então líder do Barcelona, e após o jogo, acompanhado pelo diretor Anton Parera, negociou com Pinto da Costa a transferência de Paulo Futre.
Tudo aconteceu numa cervejaria e, depois de consumado o acordo, foi tudo feito num... guardanapo de papel. Lá estavam as assinaturas dos dois presidentes e também de Agustín Domínguez, à época secretário-geral da federação espanhola, que serviu de testemunha juntamente com Anton Parera. Quando regressou a Barcelona, Núñez deu de caras com a recusa do treinador Terry Venables. O inglês tinha um histórico que deixava suspeitas: tinha recusado Marco van Basten e preferiu Steve Archibald a Hugo Sánchez. Acabou por ser despedido em setembro de 1987 e substituído por Luis Aragonés. Nessa altura, já Futre jogava no Atlético Madrid, depois de ter sido trunfo eleitoral de Jesús Gil y Gil. Durante seis anos, tornou-se num pesadelo para o Barcelona e, sobretudo, para o Real Madrid. E assim se escreveu uma história de glória que chegou a estar escrito num guardanapo. Tinha tudo para ser noutras cores."
Dentro de dois meses faz 34 anos que ouvi esta frase por telefone de um génio chamado Pinto da Costa: "Paulinho, aí não te querem, mas aqui serás tu e mais dez." Tinha 18 anos, era a primeira vez que ouvia a sua voz, e também a primeira vez que me surpreendia. Hoje estou com 52 anos, já passaram quase 34 anos daquele telefonema e Pinto da Costa continua a surpreender-me. Desta vez foi com um simples guardanapo. Nunca me disse que não fizemos negócio com o Barcelona porque o treinador não me quis. Mas fez bem, porque ao longo de todos estes anos já tinha chamado um milhão de vezes incompetente a Terry Venables. Presidente, tem de me contar pessoalmente toda esta história e o que aconteceu em Viena. Mas até lá quero desejar-lhe muitos parabéns pela conquista do seu 21.º campeonato. Impressionante...
Caldeirada da semana - 20 euros de multa: ridículo
Como o futebol português fora das quatro linhas é uma caldeirada constante, nesta caixa sempre vou buscar algo que tenha acontecido no estrangeiro. Mas na sexta-feira vi esta notícia ridícula: "O defesa-esquerdo do Sporting, Fábio Coentrão, recebeu uma repreensão do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) na sequência de um desentendimento no jogo com o FC Porto disputado no passado dia 2 de março, Coentrão desentendeu-se com dois maqueiros de serviço no Estádio do Dragão e o CD decidiu condená-lo com uma repreensão e a pagar uma multa de 20 euros." É o Coentrão, mas se fosse o Luisão, o Danilo, ou qualquer outro jogador, ficaria estupefacto na mesma. Vinte euros de multa, que ridículo! Mais do que um castigo, é uma humilhação ao futebol português.
Nós lá fora - O talismã
O Eder voltou a ser herói, desta vez do Lokomotiv, que ganhou a Liga russa depois de vencer o Zenit por 1-0. O golo foi aos 87 minutos e só podia ser marcado pelo Eder. Já falta muito pouco tempo para começar o Mundial e, partir de agora, quando me perguntarem se tenho esperança em que Portugal seja campeão do Mundo, a minha resposta começará sempre assim: "Somos campeões da Europa, temos o melhor jogador do Mundo. O nosso talismã e herói Eder vai estar no banco e todos nós portugueses temos de ser otimistas e sonhar com o título." Parabéns Eder pela segunda proeza que fazes em dois anos. É impressionante! E como se costuma dizer, não há duas sem três! Força, campeão, para o Mundial!
Álbum de recordações - A Reggiana
Depois de ter jogado nos três grandes de Portugal, Atlético Madrid e Marselha – equipas que jogavam sempre para ganhar e para as quais um empate era considerado uma derrota –, chegou a aventura italiana em novembro de 1993 e não foi fácil mudar o chip. Porque a Reggiana era uma equipa humilde, que lutava para não descer de divisão, e o empate na maioria das vezes era como uma vitória que deixava toda a gente feliz. Recordo-me desta etapa porque hoje joga-se a última jornada do campeonato e os jogos desta tarde vão ser impróprios para cardíacos, em especial para os adeptos das cinco equipas que estão a lutar pela permanência. Boa sorte a todas e salve-se quem puder!
