Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

Quando 2+2 é igual a 3 ou 5

Na próxima época o vídeo-árbitro também estará na liga espanhola. Depois do golo mal anulado a Messi no Mestalla na semana passada, no jogo entre o Barcelona e o Valencia, em que escandalosamente nem árbitro nem auxiliar viram que a bola tinha entrado e ultrapassado a linha de golo uns dois palmos, todos os programas de rádio, televisão e toda a imprensa de Espanha começaram a pedir aos gritos a entrada do VAR imediatamente na melhor liga do Mundo.

Pessoalmente, confiava cegamente que o VAR ia ser uma mais-valia em todos os aspetos. Mas depois de ver erros anormais e inexplicáveis praticamente em todas as jornadas desde que começou o campeonato português, a minha deceção é brutal. Deixei de acreditar nos VAR portugueses, mas não no VAR. Depois de ver o entusiasmo dos espanhóis nos últimos dias, ainda mais acredito no vídeo-árbitro. Como conheço bem a mentalidade do povo espanhol e o orgulho que têm na sua liga, juntamente com os muitos milhões de euros que entram nos clubes através da publicidade e da venda dos direitos televisivos, sei que os árbitros não podem brincar às imagens como os miúdos brincam às escondidas, fazer o ridículo e desprestigiar a melhor liga do planeta. Não acredito que um árbitro espanhol que esteja no VAR na próxima época a ver as mesmas imagens que estão a ver milhões de pessoas em todo Mundo, tenha a coragem de não avisar o juiz de campo para rever uma jogada polémica, porque corre o risco de não apitar mais. Vários jornalistas espanhóis ligaram-me depois do jogo no Mestalla para saberem a minha opinião sobre o VAR em Portugal. Não podia mentir. Na quinta-feira, escrevi estas linhas no meu espaço no diário ‘Marca’, ‘Los toques de Futre’:

"No dia 6 de agosto de 2017 arrancou o primeiro campeonato do meu país com o vídeo-árbitro e foi um dia histórico para a Liga portuguesa. Já passaram vários meses nesta primeira fase de adaptação ao VAR e houve mais coisas más do que boas. A melhor, sem dúvida alguma, foi o suspense que nasce no adepto quando o árbitro revê alguma jogada polémica por indicação do VAR. Aqueles momentos são como estar a ver os últimos segundos de um bom filme e que o final pode acabar da maneira que menos esperas. Porque estes VAR portugueses já demonstraram que tudo pode acontecer. Se na imagem que eles estão a analisar aparece 2+2, todo o país que está a ver a mesma imagem naquele momento vai dizer que são quatro. Mas para eles não existe lógica e 2+2 pode ser três ou cinco. Mas aqueles segundos de suspense são maravilhosos.

Por outro lado, hoje a frase que mais se diz em Portugal depois de cada jornada da Liga é ‘entendo que o árbitro e o fiscal de linha não tenham visto algo, mas é uma vergonha que o VAR que está sentado, e a ver as mesmas imagens que todo o país, não tenha avisado o árbitro para rever uma jogada tão clara’. A frase da moda entre os meus amigos, e que já comecei a dizer em direto na CM TV é esta: ‘Há o vídeo-árbitro para ajudar e avisar os três árbitros, e agora falta outro VAR para avisar, ajudar e estar atento ao vídeo-árbitro.’ Com esta ferramenta espetacular como é o VAR, obrigatoriamente os erros tinham de baixar automaticamente, as críticas e a pressão diminuíam, e os árbitros portugueses em dezembro de 2017 tinham de estar mais tranquilos do que nunca e a fazer arbitragens excelentes. Mas infelizmente não é assim... A situação é tão grave que na jornada passada os árbitros iam fazer greve e à última hora desistiram. A Liga e Federação espanholas têm de estar atentas ao que se está a passar em Portugal, especialmente aos erros anormais dos árbitros que estão no VAR, para evitar que dentro de 12 meses o futebol espanhol esteja a viver a mesma situação caótica que vive na liga portuguesa. Hoje, por todos estes erros gravíssimos do VAR, muitos portugueses, em que me incluo, começam a pensar: ‘Será que os árbitros estão contra a tecnologia e erram de propósito para destruir o vídeo-árbitro e voltar a ser tudo como era antes?’"

Apesar desta desconfiança, antes do clássico de sexta-feira tinha uma pequena esperança de que depois do jogo ia dizer pela primeira vez: "Finalmente após 13 jornadas o VAR esteve excelente e em perfeita sintonia com o árbitro". Infelizmente ainda não foi desta!


CALDEIRADA DA SEMANA -- Athletic Bilbao

Durante a minha primeira etapa na liga espanhola, entre 1987 e 1993, tive o privilégio e a honra de sair aplaudido de vários estádios pelos adeptos rivais, como, por exemplo, em Mestalla ou Nou Camp. Mas o mais especial sem dúvida alguma foi em San Mamés, na catedral do futebol espanhol. O Athletic Bilbao é um clube único, mas a sua atual situação começa a ser preocupante. Na quarta-feira foi eliminado da Taça pelo Formentera, da segunda B, e se esta semana perder em Lviv (Ucrânia), sairá da Liga Europa. Pior do que tudo isto, antes desta jornada era 16.º na Liga. E se esta dinâmica perdedora continua, será um autêntico pesadelo...


NÓS LÁ FORA -- Voltou o trauma

Na sexta-feira, foi o sorteio para campeonato do Mundo da Rússia. Quando saiu o primeiro rival de Portugal, que foi Espanha, um dos grandes favoritos, disse para mim: "É melhor apanhá-los agora do que nos oitavos-de-final"; o segundo rival foi o Irão; disse "Muito bom, quem tem de estar preocupado neste momento é o seu selecionador Carlos Queiroz"; o terceiro foi Marrocos e continuei otimista – "Grupo acessível e, se não falhar nada, estaremos nos oitavos-de-final." Estava tão concentrado no sorteio que só me apercebi do último rival segundos depois. Voltou o trauma. Já passaram quase 32 anos do Mundial do México de 1986, mas ainda hoje, quando oiço a palavra ‘Marrocos’, não posso evitar de pensar no nosso balneário depois de perdermos contra eles e no pesadelo de Saltillo.


ÁLBUM DE RECORDAÇÕES --  Milan liderado por medíocres

O sonho de qualquer jogador italiano e estrangeiro, como era o meu caso nos 80 e 90, era jogar na melhor equipa do Mundo da altura, que era o AC Milan. Eu consegui. Foi um privilégio vestir a camisola ‘rossonera’ e também trabalhar com uma estrutura diretiva genial comandada por Silvio Berlusconi. Por esta razão fiquei estupefacto quando esta semana vi a notícia de que nem Marco Fassone (administrador delegado) nem Massimiliano Mirabelli (diretor desportivo) falaram com Montella, que acabou por ser despedido por um funcionário do clube quando já estava a entrar no centro de treinos de Milanello, para mais uma sessão de trabalho. Mas, por outro lado, entendi o porquê dos fracassos dos últimos anos: um clube gigante como o AC Milan está a ser liderado por medíocres e amadores.

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